'Cursos de psicanálise': o que há por trás da uberização da prática clínica

4 de Jul de 2026 - 06:15
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'Cursos de psicanálise': o que há por trás da uberização da prática clínica

No Congresso, tramita um projeto de lei que restringe a psicoterapia a psicólogos e psiquiatras. Paralelamente, a nova NR-1 exige que empresas gerenciem riscos psicossociais do trabalho, prevendo fiscalização periódica da insalubridade mental dos ambientes.

Desde o governo Bolsonaro, intensificaram-se os debates sobre a regulamentação de graduações em psicanálise — cursos "experimentais" que já somam mais de 10 mil alunos com potencial habilitação para prática clínica.

Como a psicanálise não é regulamentada pelo estado, escolas e associações de psicanálise, que hoje regulam a formação de psicanalistas, correm para estabelecer critérios públicos que separem profissionais bem formados dos que passaram por cursos duvidosos que se aproveitam da nova demanda por serviços de saúde mental.

Essa pressão mobiliza discussões sobre métodos científicos e eficácia de tratamentos, além de recomendações (ou contra recomendação) de psicoterapias específicas para condições clínicas específicas —e que ainda estão sob debate, como autismo, transtorno de déficit de atenção, neurodivergências e altas habilidades.

Tudo isso em meio ao apelo popular por regras contra o uso excessivo de telas, os discursos de ódio e o mercado predatório de testes diagnósticos rápidos e terapias virtuais.

Tendo participado, direta ou indiretamente, de vários desses debates, vou trazer nesta minissérie um mapa das principais linhas de força —como uma reportagem de campo, em que investigo o cruzamento de problemas a partir da psicanálise, do lugar de professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), analista membro da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano, comunicador digital e integrante dos grupos de trabalho sobre Discurso de Ódio e Saúde Mental Digital junto aos ministérios dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Saúde.

Episódio 1: Uberização da psicanálise

Há mais de 20 anos pesquiso a presença e a extensão da psicanálise brasileira.

Orientei teses e publiquei artigos sobre a cultura de condomínios, o impacto das ideias de Freud no modernismo e a história da psicanálise no Brasil. Essa investigação tenta entender como a psicanálise é assimilada pela cultura brasileira, sua implantação no capitalismo e, agora, suas transformações diante da expansão digital.

Entendo que a psicanálise deve ocupar o debate público, então divido meu tempo entre a academia e o aprofundamento do debate em aulas públicas, rodas de conversa, projetos culturais e colaborações em jornais e revistas.

Acompanho a relação da psicanálise com a educação, as políticas públicas, o direito e a mídia. Denuncio tentativas de reduzir a psicanálise a uma técnica psicoterapêutica ou pseudocientífica e critico abordagens mercantis, adaptativas ou religiosas, tradicionais ou neoliberais.

Frequentemente, isso envolve ações de denúncia, enfrentamento e resposta àqueles que fazem da psicanálise apenas uma técnica psicoterapêutica ou forma de pseudociência. Critico também as perspectivas meramente adaptativas ou mercantis, bem como sua combinação com formas religiosas e educativas, de cunho tradicional ou neoliberal.

Participo constantemente, presencial e digitalmente, de debates acadêmicos e ações junto a todo tipo de associação, grupo de estudo ou evento organizado em torno da psicanálise.

Aqui a preocupação central é atuar junto a comunidades para democratizar o ensino, diversificar o acesso, incluir pessoas interessadas na psicanálise, insistindo em boas práticas de formação.

Trata-se, nesses casos, de dialogar com as pessoas sobre experiências de sofrimento, psicoterapia e psicanálise, tal como venho fazendo em meu canal no YouTube, mas também nas inúmeras redes clínicas, projetos de escuta e intervenção e coletivos de psicanálise.

Penso que foi essa presença que me levou ao Fórum do Campo Lacaniano, junto à Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, que aconteceu em setembro, na Câmara dos Deputados, em setembro de 2025.

Na ocasião, discutiu-se a impertinência dos cursos de graduação em psicanálise, em processo de regularização pelo Ministério da Educação.

Entre os argumentos favoráveis, destacam-se dois:

  • A criação de graduações reconhecidas poderia substituir cursos irregulares amplamente comercializados, principalmente em formatos digitais e Ensino a Distância (EaD), inclusive com prática clínica, supervisão e análise pessoal, mas sem controle institucional.
  • Esses cursos poderiam democratizar e diversificar o acesso à formação, atendendo à demanda crescente por cuidados em saúde mental, diante da insuficiência das escolas tradicionais.

Esses argumentos, porém, são falaciosos. Eles confundem estudo da psicanálise —legítimo e aberto a qualquer instituição acadêmica— com habilitação, certificação ou reconhecimento estatal.

Misturam, proposital ou inadvertidamente, formação de pesquisador ou docente universitário, formação como especialista ou terapeuta e formação universitária genérica com habilitação para a prática clínica psicanalítica.

O problema das pseudoformações

Criar graduações não resolve o problema das formações irregulares — ao contrário, o agrava.

Currículos padronizados, baseados em créditos acadêmicos, contraria o fundamento da psicanálise. Nem o cumprimento formal do "tripé" — análise, supervisão e estudo teórico — certifica psicanalistas.

Essa garantia só vem da qualidade da formação, não dos indivíduos formados. A democratização da psicanálise não deve ser confundida com acesso ao consumo, engajamento midiático ou proselitismo religioso.

Sim, aos cursos livres de extensão. Sim, à presença da psicanálise nas universidades e nos programas de pós-graduação. Mas não às graduações em psicanálise, e não às pseudoformações.

É preciso entender como a psicanálise é traduzida e pasteurizada longe dos grandes centros e como o processo de pseudoformação acontece no Brasil profundo —feito às pressas, majoritariamente à distância, iludindo pessoas com o título de psicanalista.

Vale lembrar: psicanalistas serem professores em tais cursos —ou em tantos outros— não habilita o graduado ou pós-graduado a praticar a psicanálise, só a psicoterapia.

Nas propostas enviadas ao MEC, o "Bacharelado em Psicanálise", gerado no governo Bolsonaro, é enquadrado como um curso experimental na área de Teoria da Informação e da Sociedade —sequer entram na área da saúde.

Em 23 de janeiro de 2026, a portaria 3/2026 da Seres (Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior), do MEC, mudou o nome dos curso para "Estudos Teóricos Psicanalíticos e Sociais (Bacharelado)". Isso tira de vez da formação clínica e coloca na área de Ciências Sociais, Comunicação e Informação.

Ao suprimir o nome "psicanálise" do título e reposicioná-lo nas ciências sociais, o governo ratificou a distinção que as escolas de psicanálise sustentam há séculos: uma coisa é o estudo acadêmico e teórico de uma tradição de pensamento; outra, completamente diferente, é a formação do analista que trata pacientes.

Ainda assim, as universidades particulares voltaram à carga com recursos e manobras jurídicas. O objetivo é restabelecer a marca "psicanálise" para mantê-la ambígua o suficiente para captar uma massa de pessoas em transição de carreira, interessadas em complementar renda ou achar atividade profissional rápida e agradável.

O fenômeno da uberização da psicanálise não seria um problema se significasse apenas a quebra de um monopólio elitista.

O perigo está no inverso: a proliferação de analistas "feitos às pressas".

A combinação entre a ausência de qualificação clínica e o excesso de confiança narcísica ameaça transformar a representação social da psicanálise em uma várzea sem freios.

Percebe-se assim que a regulamentação pode servir tanto para a reserva de mercado quanto para a precarização.

Daí a importância em distinguir entre regulamentação, regulação e formação.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.