Como a fé blinda o cérebro contra a dor e reduz a mortalidade
O ditado “Ora que melhora” não era apenas uma superstição de avó. A ciência está mostrando que o poder da oração é mais do que um placebo, e que a fé tem a capacidade de, se não promover cura, melhorar a vida de quem reza.
O que antes era percebido pela sensibilidade natural das pessoas passou a ser atestado por equipamentos, dados e medições detalhadas. Foi assim com o time comandado pelo neurocientista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que decidiu escanear o cérebro de freiras durante um período de oração profunda.
As religiosas foram submetidas a um exame de cintilografia de perfusão cerebral, também conhecido pela sigla em inglês SPECT. Quando comparados a um grupo de controle, composto por pacientes não religiosos, os resultados – publicados na revista Perceptual and Motor Skills, em 2003 – indicaram um aumento de fluxo sanguíneo em partes do cérebro ligadas ao foco, à empatia e às decisões morais.
Ao mesmo tempo, os cientistas perceberam que em outra porção do cérebro, responsável pela percepção espacial e pelas informações sensoriais como o tato e a dor, houve uma redução na atividade. Assim, a oração e a fé, segundo o estudo, têm potencial para diminuir sensações de desconforto e possibilitam que o fiel consiga se desconectar do mundo ao seu redor.
Estudo durante 20 anos mostra ação da fé e oração na prevenção de mortes
Outro , capitaneado pelos pesquisadores Tyler J. VanderWeele e Shanshan Li, da Universidade de Harvard, buscou entender se havia relação entre a frequência a cultos religiosos e a mortalidade entre mulheres. Mais de 74,5 mil mulheres participaram do levantamento, cujos dados foram coletados em um período de 20 anos.
Desse público total, 17,8 mil pacientes disseram que nunca iam a templos ou igrejas nem acompanhavam qualquer tipo de serviço religioso. A maioria das participantes do estudo era católica ou protestante e participava de algum tipo de atividade religiosa ao menos uma vez na semana.
Segundo o estudo, as mulheres que frequentavam cultos religiosos com mais frequência tendiam a apresentar menos sintomas depressivos, eram menos propensas a serem fumantes e mais propensas a serem casadas. O resultado, publicado na revista JAMA – uma das publicações mais respeitadas no meio científico –, indicou que a frequência a cultos religiosos uma vez por semana ou mais foi associada a uma sobrevida maior durante o período do estudo.
De forma mais detalhada, após um ajuste de uma série de variáveis – como doenças pré-existentes e estilo de vida – o que a pesquisa identificou é que a frequência a um culto religioso mais de uma vez por semana foi associada a uma redução de 33% na mortalidade por todas as causas, em comparação com mulheres que nunca frequentaram cultos religiosos.
Os estudiosos fazem uma ressalva, de que não há uma implicação direta entre o resultado da pesquisa e uma eventual indicação para que profissionais da saúde endossem e prescrevam a participação em cultos religiosos. Ainda assim, para os cientistas, essa participação, entre aqueles mais religiosos, deve ser incentivada como uma forma de participação social.
“A frequência à prática de cultos religiosos foi associada a um risco significativamente menor de mortalidade por todas as causas, por doenças cardiovasculares e por câncer entre mulheres. A religião e a espiritualidade podem ser um recurso subestimado que os médicos poderiam explorar com seus pacientes, conforme apropriado”, destaca o estudo.
Quem ora tem menos chance de morrer por "desespero"
Outra pesquisa na mesma linha foi mais específica, e buscou uma relação entre a frequência a cultos religiosos e as mortes relacionadas a drogas, álcool e suicídio entre profissionais de saúde nos EUA. O levantamento, também feito por cientistas de Harvard e publicado na JAMMA, analisou o que foi descrito pelos pesquisadores como “mortes por desespero”.
Entraram nessa categoria as mortes por suicídio, fatalidades decorrentes de doenças hepáticas crônicas e cirrose e os envenenamentos não intencionais por overdose de álcool ou drogas.
Os mais de 100 mil participantes, homens e mulheres profissionais de saúde, responderam, logo no início do estudo, a uma pergunta simples e direta: "Com que frequência você vai a reuniões ou serviços religiosos?". Entre as mulheres, 60% do público estudado, houve 75 mortes por desespero, e entre os homens esse índice foi bem maior, mais de 300 fatalidades.
Após todos os ajustes metodológicos, os pesquisadores identificaram resultados semelhantes aos da pesquisa anterior entre os homens. Entre aqueles adeptos da oração, o risco de ocorrência de morte por desespero caiu 33%. Mas entre as mulheres o resultado foi surpreendente: uma redução de 68% no risco dessas mortes.
O estudo considera que a manifestação do desespero ocorre em todas as camadas sociais. Entre as faixas mais pobres, essa condição pode estar associada às privações materiais. Entre os de maior escolaridade, por outro lado, o fator de risco pode estar associado ao esgotamento mental ligado ao trabalho, algo que segundo a pesquisa aparece duas vezes mais em profissionais da saúde do que entre a população em geral.
“Para algumas pessoas, a participação religiosa pode servir como um importante antídoto e um recurso para manter um senso de esperança e significado. A religião também pode estar associada ao senso de paz e uma perspectiva positiva. Esses recursos podem fornecer estratégias saudáveis de enfrentamento do estresse e reviver um senso de significado em momentos difíceis e, assim, neutralizar vários processos associados ao desespero”, conclui o estudo.