Cientistas criam célula sintética que cresce e se reproduz: 'É só o começo'
Cientistas da Universidade de Minnesota anunciaram a criação de uma célula sintética capaz de se alimentar, crescer, se reproduzir e até competir por comida. As informações são do jornal americano The New York Times.
O que aconteceu
Equipe liderada pela bióloga Kate Adamala diz ter montado, a partir de dezenas de ingredientes, um sistema que reúne várias funções típicas de células. "A vida não é binária. Por isso, hesito em chamar isso de 'vivo'. Não há uma linha clara [de onde começa a vida], por mais que a gente gostaria que houvesse", afirmou Adamala ao New York Times.
A célula foi batizada de SpudCell, por lembrar uma batata, e ainda não é considerada "totalmente viva" A pesquisadora resumiu o desafio de fazer o mecanismo de divisão celular funcionar: "Mas, quando funciona, funciona". Os autores publicaram online um sobre a criação e dizem que o estudo está em revisão para publicação em uma revista científica.
Especialistas que não participaram do trabalho avaliam que o avanço está em juntar, num mesmo "pacote", processos que antes apareciam separados em protótipos. "É impressionante que ela tenha conseguido juntar tudo isso", disse John Glass, biólogo do J. Craig Venter Institute, ao NYT.
Outro pesquisador descreveu o resultado como uma célula "construída", e não nascida, mas que se comporta como células reais. "É uma célula que foi construída, não nasceu. Ela é montada, mas faz o que células fazem", afirmou Drew Endy, biólogo da Universidade Stanford, ao jornal americano.
Como a SpudCell foi montada
Receita do experimento combina uma "sopa" de moléculas com componentes de membrana que se juntam espontaneamente em bolhas, aprisionando parte do conteúdo. Nesse arranjo, algumas bolhas acabam com a mistura certa de genes, proteínas e outras moléculas para tocar reações químicas parecidas com as de células naturais.
Para dar conta de tarefas básicas, a equipe usou genes emprestados de um vírus e da bactéria Escherichia coli e escolheu 36 genes ligados a funções como copiar DNA. Com alimento adicionado ao frasco, as células absorveram pequenas moléculas por canais na superfície e também "comeram" bolhas menores carregadas de proteínas ao se fundirem com elas.
Divisão celular foi induzida por uma proteína que gruda na superfície e força a membrana a dobrar para dentro até a bolha se partir em duas. Em poucas horas, as células já tinham crescido o suficiente para se dividir e continuar o ciclo.
Em testes de competição, uma versão que se liga melhor às "bolhas-lanche" passou a dominar a mistura após algumas gerações. Para cientistas, esse tipo de disputa pode acelerar o desenvolvimento de versões mais sofisticadas.
Limites e próximos passos
Apesar do avanço, a SpudCell ainda depende de ribossomos prontos —a "fábrica" molecular que produz novas proteínas— porque não consegue montá-los sozinha. Por isso, o sistema funciona por um número limitado de gerações antes de parar.
Adamala diz que, nesse ponto, o sistema não "morre", mas deixa de operar como deveria. "Eu não quero dizer que ela morre, mas ela para de funcionar", afirmou.
Em vez de patentear a criação, Adamala e Endy articulam uma comunidade aberta de pesquisadores e criaram uma organização sem fins lucrativos chamada Biotic. "Estou colocando o trabalho da minha vida nisso", disse Endy, ao defender que o grupo ajude outros laboratórios a reproduzir a receita e a tornar as células mais autônomas.
Pesquisadores dizem que células sintéticas podem ajudar a responder perguntas básicas. O feito pode ajudar a compreender quantos genes são necessários para uma forma mínima de vida, além de abrir espaço para aplicações futuras.
O grupo também discute como reduzir riscos de uso indevido, já que versões futuras poderiam ser adaptadas para produzir substâncias específicas, como armas biológicas. Endy defendeu antecipar o debate: "Podemos ter essas conversas agora, em vez de esperar que outra pessoa faça isso e aí a gente só reaja."
Para explicar o estágio atual, Endy comparou a SpudCell aos primeiros passos da aviação, quando o voo ainda era curto e rudimentar. "O Wright Flyer voar por 12 segundos não te dá um Boeing 737. Isso é só o começo", afirmou.