Candidatura própria de improviso causa climão no PT após recuo de Pacheco em Minas

30 de Jun de 2026 - 11:30
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Candidatura própria de improviso causa climão no PT após recuo de Pacheco em Minas

O PT decidiu lançar candidato próprio ao governo de Minas Gerais — e já escolheu quem não quer a tarefa. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos, favorita de Lula para encabeçar a chapa, reagiu à decisão do partido com um posicionamento público no qual classifica a candidatura própria como um "equívoco estratégico".

No comunicado, Marília Campos argumentou que o melhor caminho seria uma aliança ampla, não uma candidatura própria: "A realidade política de Minas e os desafios de 2026 exigem capacidade de diálogo, construção de consensos e alianças amplas. Reproduzir uma disputa fortemente polarizada tende a recolocar no centro do debate conflitos que pouco contribuem para enfrentar os problemas concretos dos mineiros, além de dificultar a formação de uma maioria política capaz de sustentar o projeto democrático liderado pelo presidente Lula”, defende ela. 

O partido não tem nenhum nome com grande viabilidade eleitoral para este ano e ainda não apresentou nenhum pré-candidato oficialmente para o estado que é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, atrás apenas de São Paulo. Ou seja, o caminho para candidatura própria em Minas está relacionado com a tentativa de garantir algum palanque para o próprio Lula no estado-chave para as eleições nacionais.

A decisão sobre o lançamento de um nome próprio para disputar as eleições mineiras foi tomada em reunião com integrantes do PT de Minas na última quarta-feira (24), em Brasília. "O entendimento construído coletivamente reafirma uma resolução decidida há um mês de que o Partido dos Trabalhadores vai apresentar uma candidatura própria em Minas Gerais. As definições sobre esse projeto serão construídas nos próximos dias, a partir do diálogo entre o partido e as forças políticas comprometidas com um projeto democrático e popular para o estado”, afirmou em nota a deputada estadual Leninha, presidente do PT-MG, logo após a reunião.

"Efeito Pacheco" em Minas

A ideia do nome próprio ao PT de Minas é um improviso e arremedo de “plano B”, depois que o favorito de Lula para a missão, o senador Rodrigo Pacheco (PSB), desistiu da disputa após meses de negociações e indefinição. No final de maio, Pacheco anunciou que não vai sair candidato ao governo de Minas Gerais.

E não só isso: Pacheco disse que pretende encerrar a vida pública ao final do mandato como senador no início de 2027.  "Tenho uma vida plenamente realizada e é sempre o momento da gente avaliar ciclos. Há um fechamento de ciclo na política que eu decidi fazer com o sentimento de dever cumprido”, afirmou Pacheco na ocasião durante um evento do Lide, grupo de líderes empresariais fundado por João Doria, ex-governador de São Paulo pelo PSDB.

O ex-presidente do Senado afirmou que a decisão é definitiva e descartou tanto uma candidatura ao Palácio Tiradentes, sede do governo mineiro, quanto uma eventual indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Marília Campos seria "candidatura de sacrifício"

Sem poder contar com um palanque mais centrista em Minas e sem um outro nome aliado ou próprio com chances claras de vitória, o PT optou por lançar uma “candidatura de sacrifício”, alguém que concorre mais para dar suporte a outro candidato, no caso Lula, do que para ganhar em si. A ex-prefeita de Contagem é a representante do PT mais cotada e seria a favorita de Lula para a tarefa.

Marília, no entanto, além de não ter ficado animada com a possibilidade, não dá mostras de que irá ceder. Ela não participou da reunião na capital federal. No comunicado divulgado à imprensa um dia depois da decisão partidária, na quinta-feira (25), ela afirma que sua única disponibilidade é para concorrer a uma cadeira no Senado — no Instagram, por exemplo, a petista continua se apresentando como pré-candidata ao cargo legislativo por Minas Gerais —, para onde tem mais chances de se eleger.

Ela deixou a prefeitura de Contagem em março para dedicar-se à pré-campanha ao Senado. "Trata-se de uma pré-candidatura estratégica porque Minas não possui senadores da base do presidente Lula e porque representa um importante avanço na presença feminina em cargos majoritários”, diz no comunicado divulgado à imprensa. "Essa é a única disponibilidade política colocada por Marília para a disputa de 2026 e o palanque petista capaz de contribuir para a reeleição do presidente Lula no estado".

Ela declarou que as pesquisas eleitorais mostram que o campo progressista ainda não conseguiu consolidar uma candidatura competitiva ao Executivo mineiro. Para ela, em vez de ter candidatura própria, o melhor caminho seria o PT liderar a construção de uma “aliança ampla e competitiva”, que reuniria também PCdoB, PV, PSB, MDB, REDE, PSOL e PDT.

Sondagem eleitoral divulgada pelo instituto Real Time Big Data no dia 21 de maio mostra que o pré-candidato Cleitinho (Republicanos) lidera os três cenários em que aparece, abrindo pelo menos 20 pontos percentuais de vantagem para os demais pré-candidatos. No cenário sem ele, Alexandre Kalil (PDT) lidera.

Nas quatro simulações de segundo turno, todas com a presença de Cleitinho, ele venceria em qualquer situação, seja contra Kalil, Rodrigo Pacheco (PSB), Mateus Simões (PSD) e Gabriel Azevedo (MDB). Para o Senado, Marília Campos (PT) é a mais citada nos dois cenários testados.

Na semana passada, Marília Campos não participou de dois eventos com a presença de Lula em Belo Horizonte e Divinópolis. Cobrada por correligionários, justificou que estava focada na pré-campanha ao Senado e cumpria agenda marcada previamente em outra região, longe dali.

Nos bastidores, no entanto, a ausência foi vista como um recado de que ela não queria ouvir um convite para ser candidata a governadora diretamente do presidente, o que aumentaria ainda mais a pressão interna para que assumisse a tarefa.