Brasil entra na rota de criação dos apps para polêmicos óculos inteligentes
Enquanto apostava bilhões de dólares no e em dispositivos para acessá-los, a Meta encontrou nos óculos casuais com inteligência artificial um . Se e chegaram antes, foi a empresa de Mark Zuckerberg que encontrou a fórmula para torná-los viáveis. Atingir 9 milhões desses aparelhos vendidos é sinal disso, mas são evidências maiores ter e .
Com a popularidade, porém, vieram as inúmeras polêmicas. As crises de privacidade protagonizadas por Facebook, Instagram e companhia no mundo digital colocaram o pé em nossas ruas, praças e elevadores para reviver a incômoda sensação de ser filmado sem consentimento por alguém trajando um acessório casual.
E, se os óculos já respondem a comandos de voz, exibem informações na lente e até permitem executar ações em aplicativos com gestos manuais, agora a Meta está em busca de talentos brasileiros para desenvolver serviços para eles. E vai pagar por isso.
A Meta entabulou uma parceria com o e criou o Programa AI Glasses Brasil:
- Estudantes, desenvolvedores e pesquisadores serão estimulados a criar experiências e propor novas formas de usar IA nos óculos ();
- Com isso, a Meta amplia a comunidade no Brasil engajada com os dispositivos inteligentes;
- As experiências com os óculos restabelecem o fascínio de ancorar na tecnologia ações que mais parecem feitiçaria, como tirar uma foto do que está diante dos seus olhos e enviá-la pelo WhatsApp apenas falando com o aparelho. O que se pode fazer com o dispositivos, porém, é limitado, já que há poucos apps disponíveis, caso do Spotify;
- No fim de 2025, a empresa deu um primeiro passo para reverter esse quadro, ao colocar na rua um kit de desenvolvimento para os aparelhos, o ;
- A Meta quer convencer desenvolvedores a incluir em apps novos ou já existentes funções que dependam da câmera (captura de imagem), do áudio (interação por voz) e da IA dos óculos para funcionar;
- No Brasil, o Programa AI Glasses Brasil será conduzido em fases: 1) capacitação técnica online; 2) maratona online de ideias com palestras, workshops e mentoria; 3) hackaton presencial para os selecionados na sede da Meta, em São Paulo;
- Os trios escolhidos para a última etapa terão os custos de hospedagem e transporte pagos pela empresa;
- Haverá premiação em dinheiro para os vencedores, de US$ 3 mil (cerca de R$ 15 mil) para o primeiro lugar, US$ 2 mil para o segundo e US$ 1 mil para o terceiro; todos os integrantes receberão óculos da Meta.
Estudantes de Harvard criaram um sistema de reconhecimento facial para rodar nos óculos de IA da Meta. Com isso, surgiam nas lentes informações sobre alguém captado pelas câmeras do aparelho. Os dados eram extraídos da internet. Ainda que não tenha sido criado pela empresa, a função acendeu dois alertas:
- indica o grau de falta de privacidade a que podemos chegar se acessórios tão casuais virarem ferramentas de vigilância em massa --já há relatos de agentes do ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos, usando os óculos em batidas contra imigrantes.
- esse soa internamente na Meta, pois indica haver pessoas interessadas em dar ao aparelho outras utilidades --e isso no mundo da tecnologia costuma ser sinal de que algo pegou, ainda que signifique também empreender esforços adicionais para conter condutas inadequadas.
Agora, a Meta quer induzir os desenvolvedores a pensar fora da caixa logo de partida e imaginar soluções para acessibilidade, educação, saúde, turismo, produtividade e criatividade. O primeiro item da lista, aliás, já apresenta entusiastas, visto que pessoas com deficiência visual abraçaram os acessórios, que dá a elas maior autonomia. Num supermercado, por exemplo, não precisam de auxílio para identificar entre diferentes tipos de marcas de sabão em pó ou de biscoitos. Basta perguntar aos óculos.
Paira sobre os óculos inteligentes a sombra do histórico da Meta, que coleciona casos de abusos à privacidade de seus usuários. O último deles foi . Bastava indicar a conta e falar as instruções da alteração, e o Meta IA dava conta do resto. . Depois da repercussão negativa, . Reconhecer é um passo importante, mas melhor mesmo seria aprender com erros do passado, já que o Facebook usou reconhecimento facial durante dois anos para identificar pessoas em fotos, mas .
A despeito da desconfiança em torno da empresa de modo geral, os óculos despertam receios só seus. Muito disso vem da experiência desastrosa do Google Glass, cuja presença deixava quem estivesse próximo desconfiado de estar sendo filmado sem aviso. No caso dos óculos da Meta, um LED começa a piscar para sinalizar gravações. Usuários, no entanto, começaram a contornar o aviso, e a Meta passou a impedir os óculos de gravarem caso o LED fosse danificado ou inutilizado.
Ponto de alerta mesmo é onde ficam guardados as fotos e os vídeos gravados com os óculos. Esses arquivos são obrigatoriamente armazenados nos serviços de nuvem da Meta e usados para a empresa treinar seus modelos de IA. E boa parte desse aperfeiçoamento é feito por seres humanos com acesso a essas imagens, muitas delas íntimas —tem até atividades sexuais.
Não sei se está em vista, mas cairia bem exigir camadas adicionais de privacidade para aplicações criadas pelos brasileiros —e, na verdade, por quaisquer outros.
DEU TILT
Toda semana, e conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no e nas. Assista ao episódio da semana completo.
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