A IA que você usa pode ser desligada pelos EUA. Qual o plano B do Brasil?
O Brasil parou para a Copa, mas tem outra disputa acontecendo no mundo da inteligência artificial. Na semana passada, o governo americano mandou uma carta para a Anthropic, e a empresa teve que desligar da noite para o dia o acesso ao Fable 5, seu modelo de IA mais avançado, para todos os estrangeiros. E nada impede que o mesmo aconteça com outros modelos.
Muita gente falou da velocidade do desenvolvimento da tecnologia e o possível risco que isso pode causar, mas o que me chamou atenção foi outra dimensão do problema. O acesso à fronteira da IA virou questão de soberania, e a disputa pela IA virou um campeonato em que quase todos os países estão jogando com a bola emprestada.
Hoje os principais modelos de IA são desenvolvidos sobretudo em dois polos: EUA e China. O país da América do Norte foca especialmente em modelos proprietários, aqueles que pagamos para usar, como é o caso do GPT da OpenAI ou do Claude da Anthropic. A China, por sua vez, foca em modelos abertos que ficam à disposição de quem quiser adotá-los. E o resto do mundo? A Europa até ensaia um movimento com a startup Mistral, mas o restante, inclusive o Brasil, não consegue competir no desenvolvimento dos modelos mais avançados.
E nesse contexto aconteceu uma reunião fechada com chefes de Estado, incluindo Trump, e os CEOs das principais empresas americanas durante o G7 na semana passada. Eles propuseram a criação de uma coalizão de IA liderada pelos Estados Unidos, com acesso estruturado aos modelos de fronteira e comércio de chips, deixando a China explicitamente de fora. Ou seja, os donos dos modelos proprietários querem agora definir também as regras de quem joga e com qual bola.
Aqui é importante lembrar que ter acesso não é ter a posse. O Brasil, como a maior parte do mundo, depende dos modelos desenvolvidos por essas duas potências para incorporar a IA nos seus setores produtivos, nas empresas, nas universidades e nos serviços públicos. Só que o episódio do Fable 5 deixa claro que essa dependência tem o risco da torneira ser fechada a qualquer momento por uma decisão comercial ou política.
E aí a situação fica ainda mais desafiadora. O pesquisador Jeffrey Ding, no livro "Technology and the Rise of Great Powers", argumenta que nas grandes revoluções tecnológicas quem ganha não é necessariamente quem inventa, mas quem consegue difundir a tecnologia por todos os setores da economia. A eletricidade é o exemplo mais fácil para entendermos. A Inglaterra inventou, mas foram os Estados Unidos e a Alemanha que a espalharam pela indústria, pela agricultura e pelos serviços, e foi então que o jogo virou.
Assumindo a mesma lógica para a IA, ainda que o Brasil não consiga competir no desenvolvimento dos modelos mais avançados, ainda dá para jogar esse jogo se promovermos a adoção. O Plano brasileiro de IA (PBIA) tem muitas ações nesse sentido. Só que a adoção também depende do acesso. E o episódio do bloqueio ao Fable mostra a fragilidade de confiar sua estratégia de transformação por meio de uma tecnologia emprestada.
Diante disso, muitos países passam a olhar para os modelos abertos chineses como alternativa. Tecnologias como DeepSeek, Qwen da Alibaba, e Kimi, embora não superem em capacidade os americanos, custam muito menos e podem ser rodados na infraestrutura do próprio país, sem que tenha um botão em que alguém de fora possa desligá-lo.
Não é à toa que isso preocupa o governo dos EUA. Um relatório publicado pelo Congresso americano, chamado "Two Loops", mostra que sete dos dez modelos mais baixados no Hugging Face, a principal plataforma de distribuição de modelos de IA do mundo, são chineses. E segundo levantamento da Andreessen Horowitz, citado no mesmo relatório, cerca de 80% das startups americanas já usam modelos-base chineses para construir suas aplicações.
Ou seja, o país que acionou o botão de desligar para o resto do mundo já convive com a difusão silenciosa dos modelos do seu principal adversário dentro de casa.
Só que adotar modelos abertos chineses não resolve tudo. Se esses modelos forem rodados em servidores de empresas de fora, como Amazon Web Services ou Google Cloud, a dependência muda, mas não desaparece. Para que a aposta nos modelos abertos tenha consistência, o Brasil precisa de infraestrutura computacional própria. Esse é o primeiro passo que precisamos dar.
Muitas vezes a gente ouve críticas fundamentadas que o Brasil está atrasado e não há nenhum caminho para competir com as big techs. Mas como sempre argumento em palestras, debates e audiências públicas, a palavra não deve ser competição, mas opção. Falar em soberania é pensar em diferentes alternativas para não ficar dependente de apenas um fornecedor. É criar caminhos para que nossos serviços críticos continuem operando em uma situação extrema.
no começo do ano, o MCTI afirmou que um supercomputador dedicado à IA sairia em 2026. Só que em entrevista ao Valor nesta semana, a ministra Esther Dweck já fala em 2027. No Brasil temos o costume de atrasar o que mais importa. Só que a Copa da IA não tem prorrogação.
Opinião
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