Quem foi o astronauta soviético que ficou preso por 311 dias no espaço

22 de Mai de 2026 - 00:30
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Quem foi o astronauta soviético que ficou preso por 311 dias no espaço

Quando o cosmonauta Sergei Krikalev deixou a Terra em maio de 1991, a missão parecia apenas mais uma etapa do programa espacial soviético. O engenheiro mecânico embarcou rumo à estação espacial Mir para uma permanência prevista de cerca de cinco meses em órbita.

Mas, enquanto ele flutuava a centenas de quilômetros acima do planeta, a Dissolução da União Soviética transformava completamente o mapa político mundial.

Krikalev acabou passando 311 dias consecutivos no espaço e retornou a uma Terra muito diferente daquela que havia deixado para trás. A União Soviética já não existia mais. Sua cidade natal, Leningrado, havia voltado a se chamar São Petersburgo. E o país que financiava sua missão tinha sido dividido em 15 nações independentes.

O episódio transformou o cosmonauta em um personagem histórico conhecido mundialmente como "o último cidadão soviético".

Viagem à órbita virou problema diplomático

Missão espacial virou impasse político. Krikalev decolou em 18 de maio de 1991 do Cosmódromo de Baikonur Cosmodrome acompanhado do cosmonauta Anatoly Artsebarsky e da astronauta britânica Helen Sharman. A missão seguia a rotina tradicional da Mir, com manutenção da estação, experimentos científicos e caminhadas espaciais.

Poucos dias depois da chegada à estação espacial, Helen Sharman retornou à Terra ao lado da tripulação anterior da Mir. Krikalev e Artsebarsky permaneceram sozinhos na missão. Meses depois, Artsebarsky também conseguiu voltar para casa. Krikalev, porém, não pôde deixar a estação espacial como previsto.

A crise econômica e política soviética começou a afetar diretamente o programa espacial. Repúblicas da URSS pressionavam por independência, incluindo o Cazaquistão, onde ficava a base de lançamentos espaciais soviética.

Para agradar o governo cazaque, Moscou decidiu enviar um cosmonauta do país à Mir. Isso alterou a escala das tripulações e adiou o retorno de Krikalev. A missão originalmente planejada para durar cerca de 150 dias acabou se estendendo por mais de 10 meses. "Você se sente como um pássaro", relatou Krikalev.

Mesmo diante da situação incerta, Krikalev costumava demonstrar tranquilidade. Segundo relato publicado pelo The Guardian, o cosmonauta dizia amar a vida em órbita. "A sensação de liberdade que você experimenta na ausência de gravidade. Você se sente como um pássaro capaz de voar!", afirmou.

A astronauta Helen Sharman também relembrou o comportamento calmo do colega durante um momento crítico da missão. Quando a nave se aproximava da Mir, o sistema automático de navegação falhou, obrigando Krikalev a realizar manualmente a manobra de acoplamento. Sharman afirmou que o cosmonauta manteve o controle da situação mesmo diante do risco de colisão.

O colapso da União Soviética visto do espaço

Enquanto a rotina seguia na estação espacial, o cenário na Terra se deteriorava rapidamente. Em agosto de 1991, tanques ocuparam Moscou durante uma tentativa de golpe contra o então líder soviético Mikhail Gorbachev.

A situação piorou quando repúblicas soviéticas passaram a pressionar por independência, incluindo o Cazaquistão, onde ficava a base de lançamentos espaciais de Baikonur. Para atender interesses políticos, Moscou decidiu alterar a escala das tripulações e priorizar o envio de um cosmonauta cazaque à Mir, adiando o retorno de Krikalev.

Do espaço, Krikalev recebia apenas informações limitadas sobre o que estava acontecendo. "Para nós, foi totalmente inesperado. Não entendíamos o que estava acontecendo", relatou, na época. No dia 25 de dezembro de 1991, Gorbachev renunciou oficialmente, encerrando a existência da União Soviética.

Krikalev ainda permanecia em órbita - seu retorno acabou sendo adiado também por questões financeiras. O governo soviético em colapso já não tinha recursos suficientes para manter a operação espacial normalmente.

Ainda no espaço, o cosmonauta reconheceu o tamanho da crise. "O argumento mais forte era econômico porque isso permitia economizar recursos aqui", afirmou, em declaração reproduzida pela Discover Magazine. "Eles dizem que é difícil para mim e realmente não é bom para minha saúde. Mas agora o país está em tanta dificuldade que economizar dinheiro virou prioridade máxima."

Mais de 300 dias no espaço

Ao todo, o cosmonauta passou 311 dias consecutivos no espaço. Especialistas temiam os efeitos da longa exposição à microgravidade, que pode causar perda muscular, redução da densidade óssea e outros problemas físicos.

O isolamento também teve impacto emocional durante a missão. Enquanto ele permanecia no espaço, familiares evitavam comentar sobre a grave crise econômica enfrentada pela população soviética.

Krikalev finalmente retornou à Terra em 25 de março de 1992, pousando no agora independente Cazaquistão. Depois de quase um ano em órbita, saiu da cápsula bastante debilitado. A essa altura, o país de onde havia partido já não existia mais, o que lhe rendeu o apelido de "último cidadão soviético".

Mesmo após a missão histórica, Krikalev continuou sua carreira espacial. Ele participou de missões americanas, ajudou na construção da Estação Espacial Internacional e acumulou mais de 800 dias no espaço ao longo da carreira.