O que acontece se os EUA atingirem uma usina nuclear do Irã?
A guerra entre os Estados Unidos e o Irã não começou com uma bomba nuclear, mas trouxe de volta um medo que o mundo havia aprendido a deixar para trás: o temor de que um conflito regional se agrave até o ponto de um desastre atômico.
Em junho do ano passado, os EUA atingiram Fordow, Natanz e Isfahan, três instalações centrais do programa atômico iraniano. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) informou, na ocasião, que não houve aumento de radiação fora desses locais.
No entanto, apesar do anúncio de um cessar-fogo temporário o conflito militar entre Washington e Teerã prossegue e o impasse sobre o programa nuclear iraniano continua aberto. Em declaração recente, Donald Trump chegou a falar em eliminar uma civilização inteira em uma noite, afirmação que escancarou a tensão que marca as negociações e o perigo de uma escalada rápida.
Assim, a preocupação internacional deixou de ser apenas teórica e o que assusta não é só o que já aconteceu, mas o que pode acontecer no Oriente Médio. O receio agora é de que uma nova ofensiva americana atinja uma instalação ainda mais sensível e amplie a crise em escala global.
Quais os riscos de uma catástrofe nuclear
O tamanho do risco depende do alvo que pode ser atingido. Uma instalação de enriquecimento, um reator de pesquisa e uma usina nuclear em operação não oferecem o mesmo nível de perigo.
É essa diferença que ajuda a entender por que a hipótese de um ataque a uma estrutura nuclear causa tanta apreensão. Em uma guerra convencional, o dano costuma ser medido em destruição militar e perdas humanas. Quando o conflito passa por instalações nucleares, entram na conta também a chance de contaminação, o impacto sobre água e energia e a possibilidade de uma crise mais ampla na região.
"O risco real de contaminação radioativa com efeitos além das fronteiras do Irã existe, mas ele não é uniforme entre todas as instalações nucleares", resume João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em Internacionalização e Estratégia e professor da PUCPR.
Como são as instalações nucleares hoje
Usinas nucleares modernas são projetadas com várias camadas de proteção. Elas possuem estruturas de contenção, sistemas de resfriamento, fontes alternativas de energia e protocolos de emergência.
Se uma barreira falha, outra entra em ação. É o chamado princípio de defesa em profundidade, adotado internacionalmente após os acidentes de Three Mile Island, nos EUA, em 1979, e Chernobyl, na União Soviética, em 1986.
Esses mecanismos tornaram as plantas atuais mais robustas do que as instalações das décadas passadas. Ainda assim, em situação de guerra, a segurança nuclear não depende só de concreto reforçado e equipamentos de reserva.
O professor Nyegray alerta que sistemas sólidos de contenção não garantem imunidade a um bombardeio. O problema pode surgir pelo caminho menos óbvio: "Se um ataque comprometer linhas de transmissão, transformadores, acesso de equipes, suprimentos ou capacidade de resfriamento, o risco de acidente sobe mesmo sem uma perfuração direta do núcleo", diz.
Se o alvo for um centro de enriquecimento
Se o ataque atingir uma instalação de enriquecimento de urânio, o efeito tende a ser mais restrito ao entorno. O risco principal não é necessariamente radiológico, mas químico e localizado, sobretudo se houver dano a cilindros de hexafluoreto de urânio (UF6), substância presente no ciclo do combustível nuclear.
“Em instalações como Natanz ou Fordow, o risco mais provável tende a ser de contaminação localizada e de natureza também química, não necessariamente um desastre radiológico massivo imediato”, explica Nyegray.
O UF6 representa um perigo duplo e é o tipo de substância que não aparece no noticiário até ser tarde demais. Ao reagir com a umidade do ar, ela forma compostos altamente corrosivos, com toxicidade química imediata. Ao mesmo tempo, expõe trabalhadores e áreas próximas à radiação.
Ainda que raramente atinja a escala de uma grande contaminação regional, a liberação dessa substância exige resposta especializada e protocolos rigorosos de contenção. E seus efeitos podem ser letais nas proximidades.
O que muda se o alvo for uma usina em operação
A gravidade muda de patamar quando o alvo é uma usina nuclear em funcionamento. Nesse caso, o reator precisa manter sistemas críticos funcionando sem interrupção, sobretudo os de resfriamento, energia e contenção.
É por isso que Bushehr, a única usina iraniana em operação comercial, concentra tanta atenção. Construída com tecnologia russa e inaugurada em 2011, a usina fica a menos de 300 quilômetros do estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Um dano severo ali poderia afetar o abastecimento de energia, o meio ambiente, rotas marítimas e populações de outros países da região.
"O risco transfronteiriço mais sério está associado sobretudo a uma usina operacional como Bushehr", aponta Nyegray.
O risco de escalada vai além da contaminação
Um ataque a instalações nucleares não amplia apenas o temor de contaminação. Ele também mexe com o cálculo estratégico de governos, endurece posições internas e corrói as regras internacionais de não proliferação.
"Esse tipo de ataque aumenta, sim, o risco de escalada nuclear em sentido amplo, ainda que não torne automaticamente provável o uso imediato de armas nucleares por grandes potências", avalia Nyegray.
Na leitura do especialista, o maior perigo hoje não é uma guerra nuclear no sentido clássico, mas a erosão gradual do regime de não proliferação e uma possível corrida regional por capacidade nuclear. É o fenômeno chamado de “proliferação por insegurança”.
O Irã diz que vai seguir enriquecendo urânio
A tensão permanece alta porque o impasse diplomático não foi resolvido. O governo americano trata o fim do enriquecimento de urânio como uma exigência central. O Irã sustenta que seguirá enriquecendo e que não abriu mão desse direito.
Mais do que um ponto técnico, o enriquecimento se tornou um símbolo político e estratégico. É o que sustenta parte da pressão internacional, alimenta ameaças e ajuda a explicar por que o fim do conflito parece distante.
A memória de um medo antigo
O fantasma de uma crise nuclear fora de controle não é novo. Durante a Guerra Fria, o mundo conviveu por décadas com a possibilidade de que uma disputa entre os Estados Unidos e a então União Soviética superasse os limites do calculável.
A crise dos mísseis em Cuba, em 1962, é o mais próximo que o mundo chegou de um confronto nuclear direto. Documentos revelados décadas depois mostraram que a situação esteve ainda mais à beira do colapso do que se sabia. Um submarino soviético quase lançou um torpedo nuclear sem autorização de Moscou, e apenas a recusa de um único oficial impediu o disparo.
O que mudou é o formato da ameaça. A angústia já não está apenas na hipótese de uso de armas nucleares por grandes potências, mas na vulnerabilidade de instalações sensíveis em meio a guerras regionais e ataques cirúrgicos, hoje feitos por drones e equipamentos não tripulados.
O conflito entre Estados Unidos e Irã reacende essa memória não porque repete a Guerra Fria, mas porque restaura a mesma sensação. Uma ameaça nuclear pode estar distante de apenas um erro de cálculo, de um general, de um diplomata ou de um único oficial dentro de um submarino.