Tereza Cristina avalia chance de ser vice de Flávio e diz que quer presidir Senado

9 de Abr de 2026 - 17:55
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Tereza Cristina avalia chance de ser vice de Flávio e diz que quer presidir Senado

Aos 71 anos, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) afirmou, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, que seu principal projeto político não é disputar a vice-Presidência em 2026, como vem sendo ventilado, e sim disputar a presidência do Senado.  Cotada nos bastidores como possível vice do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e considerada como o nome preferido do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, ela confirmou que não recebeu convite formal para a chapa.

Tereza Cristina classificou as especulações em torno do assunto como parte da construção das alianças. Abaixo, confira toda a entrevista dela à Gazeta do Povo. 

Segundo a senadora, a definição de uma eventual composição de chapa deve ocorrer mais próximo das convenções partidárias, cujo período será de 20 de julho a 5 de agosto — o registro das candidaturas deve ser efetivado na Justiça Eleitoral até 15 de agosto. "Tem muita água ainda para correr debaixo dessa ponte", disse ela.

Tereza Cristina e Romeu Zema estão entre os nomes cotados a vice de Flávio Bolsonaro 

Tereza Cristina e o ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, pré-candidato à presidência pelo Novo, são os nomes mais comentados — mas não os únicos — para a vaga de vice na chapa presidencial do PL. No caso da senadora, pesa a capacidade de atrair votos do centro e do eleitorado feminino, segmentos nos quais há mais resistência ao sobrenome Bolsonaro.

Também conta a favor dela o apoio do setor agro, em meio a críticas após a defesa, pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), das tarifas que chegaram a ser anunciadas pelo presidente do Estados Unidos, Donald Trump, no último ano, a produtos nacionais. Por outro lado, a atuação de Tereza Cristina em uma comitiva aos EUA para então tentar reverter as medidas também gerou resistência dentro do grupo político.

Já Romeu Zema é visto como estratégico por atrair o eleitorado de Minas Gerais, estado detentor do segundo maior colégio eleitoral do país e considerado decisivo na derrota de Jair Bolsonaro em 2022.

Tereza Cristina quer ser a primeira mulher a presidir o Senado 

Sobre os projetos pessoais, Tereza Cristina afirma que não pretende disputar a vice-presidência da República. "Eu gostaria de terminar meu período como a primeira mulher a presidir o Senado. Isso é um projeto que me faz brilhar os olhos”, disse. Ela acrescentou que não pretende buscar a reeleição ao cargo. 

No próximo ano, se encerra o mandato do atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União), que pode tentar a reeleição. Com mais dois anos de mandato como senadora, Tereza Cristina deve disputar a vaga para chefiar a Casa. 

Além dela, o senador Rogerio Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro , também é apontado como interessado no posto. "Temos que ser pragmáticos. Se ele tiver mais votos que eu, eu cedo para ele. Se eu tiver mais votos que ele, ele vai ter que ceder para mim”, afirmou Tereza Cristina, complementando em tom de brincadeira que "por uma questão de antiguidade, ele vai ter que ceder".

Há uma rapidez desnecessária nas comissões (do Senado), e falta profundidade. Por exemplo, melhorar a governança das emendas e acompanhar melhor os gastos públicos.

Tereza Cristina, senadora

Em 2023, Marinho concorreu à presidência do Senado contra Rodrigo Pacheco (PSD-MG), que venceu por 49 votos a 32. Na ocasião, Tereza Cristina atuou na campanha do colega. A eleição para a presidência do Senado exige maioria absoluta: ao menos 41 dos 81 senadores.  

Sobre as prioridades em uma eventual presidência da Casa, ela preferiu não detalhar, mas já preparando o terreno para fazer alianças e, principalmente, não formar desafetos. Ao longo da entrevista à Gazeta do Povo, a senadora evitou críticas diretas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 

A senadora Tereza Cristina (PP-MS) durante sessão no plenário do Senado; ela defende que “está na hora" de a Casa ter uma presidente mulher.

Gazeta do Povo entrevista a senadora Tereza Cristina

A senhora tem sido citada como possível vice de Flávio Bolsonaro. Como vê essa movimentação? Nunca tive nenhum convite. Sou amiga do Flávio, meu colega, trabalhei com o pai dele, mas nunca houve esse convite. Acho que são nomes sendo colocados para ver quem tem mais aderência, porque o que nós precisamos é ganhar a eleição. O meu nome, o do Zema, enfim, estão sendo lembrados. Mas não existe nenhum tipo de conversa.  

Se houver um convite, a senhora considera?  Isso vai ser decidido lá na frente. Não é uma decisão personalíssima que depende só do convidado. Tem partido, tem alianças, tem muita coisa envolvida. Então tem muita água ainda para correr debaixo dessa ponte.  

O Valdemar Costa Neto (presidente do PL) menciona o seu nome como preferido...  Dele, mas não é ele o candidato. Se fosse, tenho certeza que eu seria convidada. Já conversamos muito sobre isso, mas, enfim, é uma especulação. Agora está na hora de montar chapas, e isso tudo é uma construção. A definição do vice deve acontecer mais perto das convenções, lá em julho. 

Como seria uma chapa competitiva em 2026? 

Os nomes estão postos. No meu campo da centro-direita: Flávio, Caiado e Zema. Tem que ver quem vai ter mais aderência com a população. As pesquisas mostram o Flávio muito bem. Ele recebeu parte do eleitorado do pai, o que não é simples. Isso mostra que o presidente Bolsonaro é um líder mesmo.

A candidatura de Romeu Zema à Presidência depende muito de o partido abrir mão ou não de ter um candidato próprio, certo?  É, porque às vezes tem uma estratégia partidária que não é a que estamos olhando. É fazer mais deputados federais, eleger governadores. Cada partido tem a sua estratégia. O eleitor olha muito o candidato, mas o partido pensa diferente. O Novo deve querer levar a candidatura de Zema até o final, porque isso é bom para o partido. 

Como o Progressistas vê o nome da senhora como vice de Flávio Bolsonaro? Nunca conversei sobre isso no partido. Tenho certeza que agora, passado esse primeiro período, os partidos vão sentar, discutir onde vão coligar, se liberam o partido para votar nos estados, se terá ou não uma verticalização. Posto isso, vão ter os arranjos partidários para fazer chapa de presidente da República. 

As coligações estaduais podem atrapalhar as alianças do Progressistas no âmbito federal? O Centrão está bastante disputado...  Espero que o partido caminhe com um candidato de centro-direita, mas essa decisão não é só minha, será tomada na executiva nacional. Hoje há uma federação com o União Brasil, então são dois partidos, dois presidentes. Isso acaba sendo um complicador a mais. Mas acho que agora essas coisas começam a se definir, mais perto das convenções, em julho.

A senhora acredita que Flávio Bolsonaro representa uma candidatura mais ao centro?  O Flávio, eu acho que é dos filhos o mais moderado. É uma pessoa de diálogo, somos colegas no Senado e é fácil conversar com ele. O meu querido amigo presidente Bolsonaro, meu eterno presidente, é mais sanguíneo, ele é movido pelo fígado. O Flávio não, ele realmente tem um temperamento mais moderado.

A senhora se vê como vice, em seu projeto político pessoal?  Nunca tinha pensado nisso. Já falaram isso na eleição passada e nunca houve convite. Sou muito pé no chão, se acontecer, a gente pensa. O meu projeto é continuar senadora e trabalhar para um Senado melhor. Eu tenho até uma coisa meio ousada. Eu gostaria de terminar como presidente do Senado, a primeira mulher presidente. Isso me faz brilhar os olhos.

Esse projeto é viável?  Tem que trabalhar, não é fácil. Vai ter uma renovação grande no Senado, dois terços renovados ou reeleitos. A eleição é a cada dois anos, então termina a do presidente Alcolumbre no ano que vem. Ele tem direito à reeleição e eu teria dentro do meu mandato mais dois anos para tentar esse projeto.

Esse projeto é viável caso Lula seja reeleito, ou apenas com um presidente de centro-direita?   O Senado não tem muito a ver com o presidente. A influência existe, tanto na Câmara quanto no Senado, especialmente para quem está na base. Mas não é algo completamente inviável. Com bom relacionamento nos dois campos, é possível construir. Não é fácil. É melhor quando se faz parte da base do governo, mas na minha vida nada foi fácil. 

Do que depende essa construção?  Depende de um trabalho que começa agora, com a chegada dos novos senadores. De uma interlocução com os senadores, ajudar os colegas, ter trânsito. Não se pode ter rejeição entre eles, porque são 81 senadores, você precisa da maioria. É relacionamento e credibilidade. Não é simples. 

 A senhora trabalhou para a campanha do Rogério Marinho...   Ajudei na campanha, pedi voto, entrei de cabeça. Em um momento, chegou a parecer possível ganhar, mas não foi o que aconteceu. Tivemos 34 votos e eram necessários 41. Não é fácil. Era um candidato preparado, mas já havia um cenário de oposição, porque o presidente Bolsonaro tinha acabado de perder a eleição. 

Rogério Marinho está bastante interessado na presidência do Senado. Como seria essa disputa pela vaga?  Temos que ser pragmáticos. Se ele tiver mais votos que eu, eu cedo para ele. Se eu tiver mais votos que ele, ele vai ter que ceder para mim. Por uma questão de antiguidade, ele vai ter que ceder (risos).

Se a senhora fosse presidente do Senado, qual seria a primeira coisa que pautaria?  Não vou te contar (risos).

O impeachment dos ministros do Supremo Tribunal Federal, talvez?  Se houver, sim. O impeachment é uma ferramenta do Senado, está na Constituição. A missão do Senado é abrir ou não. Mas abrir não quer dizer dar sequência, tem que ter legalidade, uma série de requisitos. Não é uma plataforma. A ideia é fazer o que for certo. O que precisar ser feito, será feito.

Além disso, acho que está na hora de o Senado pensar em ter uma presidente mulher. Já são mais de 200 anos de Senado e nunca tivemos uma mulher na presidência. A mulher tem uma maneira diferente de pensar, às vezes é o modo de fazer. Pensamos como os homens, sabemos o que fazer como os homens, mas a forma é um pouco diferente.

O impeachment é uma ferramenta do Senado, está na Constituição. A missão do Senado é abrir ou não, mas tem que ter legalidade, uma série de requisitos. A ideia é fazer o que for certo.

Tereza Cristina, senadora

A senhora poderia citar algum tema que gostaria de priorizar?  O Senado precisa discutir mais os temas. Hoje, às vezes, há uma rapidez desnecessária nas comissões, e falta profundidade. Por exemplo, melhorar a governança das emendas do Congresso Nacional e acompanhar melhor os gastos públicos. Se eu fosse presidente do Senado, eu iria me debruçar para ter uma lei em que pudéssemos fazer esse acompanhamento.  

Por quê?  Porque não se pode pulverizar os recursos. O país é potencialmente muito rico, mas no dia a dia ainda é pobre e precisa de muita coisa. Precisa de infraestrutura, cobrar resultados na educação, qualificar os gastos na saúde. O Senado precisa estar mais atento a isso, junto com os órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União. E melhorar a percepção da população sobre o trabalho do Congresso Nacional.

A sua iniciativa de criação do Instituto Diálogos nasce para aprofundar debates que não encontram espaço no Congresso?  É ter um fórum de debate mais profundo sobre temas de interesse nacional. Às vezes, no Senado, não se consegue discutir com a profundidade necessária. O instituto não é para fazer lei, é para discutir. Se saírem ideias, muito bem. A ideia é aprofundar temas, como geopolítica, com participação de vários setores e produção de conteúdo qualificado.

Tereza Cristina fala sobre risco de desabastecimento no Brasil

Em 2022, a senhora lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, com a meta de reduzir a dependência externa de 85% para cerca de 50%, até 2050. Quatro anos depois, vemos poucos avanços. O que aconteceu?  Acho que, primeiro, faltou vontade política. Já tivemos uma crise séria lá atrás, com a guerra da Rússia e Ucrânia, e não aprendemos nada. O que foi feito depois disso? Nada. Hoje estamos repetindo 2022 pior, com risco de alta de preços e problemas nas rotas. O Brasil não avançou em política pública e continua dependente de mais de 80% de fertilizantes importados.

Há risco real de desabastecimento?  Não é um risco real, mas existe uma possibilidade, e isso já acende o farol amarelo. Não é algo imediato, é uma sequência de fatores: rotas comprometidas, navios parados, preços subindo e usinas afetadas. Além disso, países estão segurando estoques. Por isso, o Estado brasileiro deveria ter um comitê de crise para avaliar alternativas e evitar esse cenário.

Estamos repetindo 2022 pior, com risco de alta de preços e problemas nas rotas. O Brasil continua dependente de mais de 80% de fertilizantes importados.

Tereza Cristina, senadora

A sua gestão foi marcada por pragmatismo na abertura de mercados. Hoje, há críticas de que o governo prioriza alinhamentos ideológicos. Como isso afeta o agro e a segurança comercial do Brasil?  Países não têm amigos, têm interesses. O Brasil precisa olhar para os seus interesses, ainda mais sendo uma média potência. É preciso equilibrar relações com parceiros como China e Estados Unidos. A China é fundamental, por exemplo, para a soja, e os Estados Unidos, além de parceiros, são grandes investidores no Brasil. É um jogo de xadrez muito fino, que exige estratégia e pragmatismo. 

A atual gestão do Ministério da Agricultura afirma ter acelerado a abertura de mercados. O que é mérito atual e o que é herança do seu trabalho?  Nunca medi, mas isso são políticas de Estado, não é um problema de um governo. Abrimos algumas coisas quando chegamos, mas demos continuidade a outras. Devo ter deixado muitas coisas que esse governo caminhou, graças a Deus, porque temos que pensar em políticas de médio e longo prazo. O importante é manter o Brasil como fornecedor confiável, especialmente em momentos de crise. Precisamos avançar mais, inclusive na ampliação das importações, para ter o comércio bilateral cada vez mais avançado.  

A senhora falou dos comércios bilaterais, mas teremos agora o acordo do Mercosul com a União Europeia. Os acordos multilaterais ainda têm força?  Acho que esse foi o último grande acordo que o mundo assinou e viu ser assinado. Devem surgir outros, mas em outro formato, muitas vezes bilaterais dentro de blocos como o Mercosul. Um acordo como esse da União Europeia, nunca mais. E, na parte agrícola, ele é até tímido, com cotas limitadas. É muito pequeno para o tamanho das nossas exportações de proteína para o mundo, mas abre oportunidades para o Mercosul com os 27 países da União Europeia.

Como a senhora vê as oportunidades que o Brasil tem nas terras raras e como isso vem sendo aproveitado pelo atual governo?  Terras raras são uma moeda de troca importante para grandes acordos. O Brasil tem cerca de 22% das reservas conhecidas, e pode ter mais. A China tem 40%. A questão é: qual é o plano estratégico para isso? É um ativo que o mundo todo quer, e precisa ser pensado como projeto de país. 

O que falta para o Brasil aproveitar esse potencial?  Falta um projeto estratégico nacional. Esse tema precisa ser discutido com clareza e passar pelo Senado. É preciso definir como usar esse recurso em benefício do país. Hoje, não há uma estratégia consolidada para aproveitar esse ativo que poucos países no mundo têm. 

As terras indígenas são um entrave para essa exploração?  Há um problema de regulamentação. A Constituição permite mineração, mas isso não está regulamentado. E nem se conhece totalmente o potencial nessas áreas. O Brasil é muito rico em subsolo, com diamante, ouro e outros minerais, e precisa organizar melhor esse debate.

Como garantir que os indígenas sejam beneficiados?  Os indígenas precisam concordar com a exploração e participar da decisão. Também é necessário definir como essa riqueza será distribuída. Hoje, muitas vezes, poucos se beneficiam. É preciso criar mecanismos para que o retorno chegue à comunidade, com transparência e organização. 

 Qual é o próximo passo para avançar nessa regulamentação?  O tema está sendo estudado no Senado, estão sendo realizadas audiências públicas e análise de modelos internacionais. A ideia é construir um projeto de lei para regulamentar a exploração e colocar para votação no plenário ainda este ano.

A ideia é construir um projeto de lei para regulamentar a exploração de terras raras e colocar para votação no plenário este ano.

Tereza Cristina, senadora

O atual governo aprovaria?  É um projeto de Estado, que precisa ser bom para qualquer governo e resolver um problema estrutural do país. Quando o presidente Bolsonaro estava no governo, ele recebia muitos indígenas que gostavam muito dele. Não são todos os que pensam como esse governo, por isso precisamos pensar no todo. A lei é feita para melhorar a vida da maior parte da população, e não para uma categoria. 

Sobre a regularização fundiária, tivemos avanços nos últimos anos?  Conseguimos avançar na questão secular da regularização fundiária das áreas de fronteira. Fui relatora no Senado e, após muita discussão, chegamos a um texto aprovado pela maioria. Porém, o presidente Lula vetou praticamente a lei toda. Agora precisamos derrubar o veto, o que exige uma sessão conjunta do Congresso — e sessões conjuntas são raras. Se eu for presidente do Congresso, farei mais sessões, porque não podemos represar assuntos importantes do Brasil. 

Este governo tem um defeito: não quer entregar o título fundiário, prefere manter as pessoas reféns do governo.

Tereza Cristina, senadora

O governo Lula parece querer dominar essa pauta por causa do apoio político do MST, certo?  Exatamente. O Brasil precisa de uma lei ampla de regularização fundiária, especialmente para o Norte do país. No governo anterior, titulamos mais de 470 mil áreas, muitas ocupadas desde os anos 1970, 80 e 90, que nunca receberam títulos definitivos. Este governo tem um defeito: não quer entregar o título, prefere manter as pessoas reféns do governo. Hoje a entrega é mínima, e há famílias há 30, 40 anos sem a titularidade definitiva das suas áreas.