Quando investigar vira exceção

10 de Abr de 2026 - 16:30
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Quando investigar vira exceção

Os documentos da levados à CPI do Crime Organizado comprovaram as informações que já eram graves: transferências de R$ 80 milhões do Banco Master ao escritório da esposa de . Não podem usar mais a desculpa de narrativa política, são dados oficiais que exigem uma apuração rigorosa e imediata.

O que se vê, porém, é o oposto. O presidente do Senado Federal, , que deveria liderar esse processo de esclarecimento, sob o argumento de que estamos em um ano eleitoral. Trata-se de uma inversão inaceitável de prioridades. A lógica implícita é clara: a conveniência política fala mais alto do que o dever constitucional de fiscalizar. Quando o calendário eleitoral serve de desculpa para interromper investigações, abre-se espaço para a institucionalização da impunidade.

Como se não bastasse, novas informações apontam que o mesmo Banco Master bancou viagem do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para participar de um fórum jurídico em Londres. Passagens, hospedagem, locomoção e até alimentação e uma degustação do caríssimo Whisky Macallan pagas pelo banco de . Só uma diária do hotel escolhido passa de R$ 6 mil. A pergunta que se impõe é simples: como garantir isenção na atuação de órgãos de investigação quando há vínculos dessa natureza?

Em Brasília, onde rumores circulam com rapidez, suspeitas sobre a atuação do Banco Master já eram comentadas há tempos. Ainda assim, autoridades que deveriam agir com cautela mantiveram proximidade com a instituição e o próprio Vorcaro. É exatamente o caso do diretor-geral Andrei Rodrigues, da Polícia Federal. Mais grave: o aparato estatal tem sido utilizado para constranger parlamentares que denunciam abusos, invertendo completamente a lógica do Estado de Direito.

Não surpreende, portanto, que uma parcela expressiva da população já veja no próprio Judiciário um fator de enfraquecimento da democracia. Esse dado não pode ser ignorado. A confiança nas instituições é o alicerce de qualquer regime democrático, e sua erosão é sempre um sinal de alerta.

A Constituição de 1988 não conferiu poderes ilimitados a ninguém; ao contrário, instituiu limites justamente para impedir que autoridades se blindem atrás de seus cargos. Quando o se recusa a agir diante de fatos graves, deixa de ser parte da solução e passa a integrar o problema, alimentando um ambiente onde a falta de responsabilização se torna regra.

O que está em jogo não é apenas mais um escândalo, mas a própria credibilidade das instituições. Um parlamento que se omite enfraquece a democracia que deveria proteger e transmite à sociedade a mensagem de que há intocáveis no topo da República. Isso é incompatível com qualquer noção de Estado de Direito. Se há um caminho para reverter esse quadro, ele passa por romper com a inércia e restabelecer o princípio mais básico de uma nação livre: o de que poder sem controle degenera, e autoridade sem fiscalização abre espaço para abusos. O Brasil não precisa de mais silêncio, precisa de responsabilidade e responsabilização daqueles que se julgam intocáveis.

Conteúdo editado por:

Marcel van Hattem é deputado federal e líder do Partido Novo. Bacharel em Relações Internacionais, com especializações em Direito, Economia e Democracia Constitucional. Mestre em Ciência Política pela Universidade de Leiden e em Jornalismo pelas universidades de Aarhus e Amsterdã. Participou do Programa de Liderança Política, Social e Empresarial da Georgetown University, EUA. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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