O avatar de Bolsonaro é uma brecha nas regras eleitorais das redes?
"Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu, é uma simulação da minha imagem e da minha voz, feita com inteligência artificial." Foi assim que Jair Bolsonaro — ou melhor, uma versão sintética dele — abriu sua participação na convenção do PL no último sábado (25), no Pacaembu, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Na sequência, o avatar emendou: "como todos aqui sabem, eu estou preso e calado". Preso, sim; calado, pelo visto não.
O vídeo do Bolsonaro sintético refletindo sobre a sua condição e pedindo apoio para a candidatura de seu filho foi divulgado diante de milhares de pessoas e retransmitida para milhões nas redes. Se há uma imagem que resume o que a inteligência artificial vai fazer com a eleição de 2026, é essa: o candidato impedido de se manifestar politicamente está lá discursando em alta definição.
Começando pelo que o vídeo acerta. A resolução do TSE sobre propaganda eleitoral exige que conteúdo sintético gerado por IA seja identificado de modo explícito, destacado e acessível. A norma não prescreve uma fórmula, uma frase específica que precise ser pronunciada, mas o aviso na abertura do vídeo parece cumprir o espírito da regra. Ninguém na convenção foi enganado sobre a natureza daquela imagem. E é justamente por isso que o caso é interessante: pela primeira vez, o problema jurídico de um deepfake eleitoral não é a autenticidade. O vídeo é transparente sobre ser falso. A pergunta é outra, e é mais difícil.
Se Bolsonaro não pode se manifestar politicamente nas redes, o seu avatar pode?
Desde julho de 2025, o ex-presidente está proibido de usar redes sociais "direta ou indiretamente", e o STF esclareceu na ocasião que a vedação alcança a utilização de "material pré-fabricado" destinado à divulgação por terceiros. Neste mês, a leitura por Flávio de uma carta do pai em transmissão ao vivo já foi considerada descumprimento das cautelares. Alexandre de Moraes suspendeu as visitas do filho por 90 dias e endureceu as restrições. A PGR, embora tenha defendido a manutenção da prisão domiciliar, reconheceu que a carta tinha finalidade político-eleitoral.
Se uma carta lida por terceiro é material pré-fabricado, o que dizer de um avatar? O Bolsonaro sintético é o material pré-fabricado levado à sua forma final: um que nem sequer precisa do original para produzir conteúdo novo. A carta ao menos exigia que Bolsonaro escrevesse. O avatar dispensa até isso.
PT, PV e PCdoB acionaram o TSE no domingo, alegando uso indevido de IA e propaganda antecipada, e o deputado Lindbergh Farias levou o caso à PGR sustentando que a ressalva na abertura do vídeo não descaracteriza a violação das restrições impostas pelo Supremo. No final das contas a rotulagem resolve o problema do engano, não o problema da interposta pessoa - ou, no caso, da interposta persona.
Há aqui uma novidade que merece registro. O deepfake entrou no vocabulário público como instrumento de ataque: a imagem manipulada sem consentimento para prejudicar o retratado. A regulação eleitoral brasileira foi desenhada com esse fantasma em mente, tanto que a resolução veda o uso de conteúdo sintético para prejudicar ou favorecer candidatura quando coloca na boca de alguém o que essa pessoa nunca disse. Na Índia, há anos, candidatos usam deepfakes de si mesmos para aparecer falando idiomas que não dominam. É um deepfake consentido, quase de estimação. O vídeo do Pacaembu inaugura essa modalidade no Brasil em grande estilo: a simulação não contra a pessoa, mas em nome dela. Prepare-se para ver políticos fazendo discursos que nunca fizeram, com ou sem a bênção deles próprios.
E é aqui que o caso deixa de ser sobre Bolsonaro e passa a ser sobre a eleição. Boa parte da discussão jurídica vai orbitar as perguntas de sempre: ele sabia do vídeo? Autorizou a veiculação? Essas perguntas fazem sentido quando o vídeo é exibido na convenção do partido ou publicado pelas contas oficiais da campanha. Mas a campanha real não vai acontecer aí. Ela vai acontecer nos perfis de aliados, de influenciadores, de militantes e de anônimos, que vão encher as redes de Bolsonaros sintéticos pedindo votos para o filho. Nesses casos a pergunta "ele sabia?" perde o sentido. Não se controla um exército de clones interrogando o original sobre cada um deles.
A contenção desse exército vai depender de como as regras do TSE serão aplicadas pelas plataformas. A resolução deste ano prevê responsabilidade solidária dos provedores que não removerem conteúdo sintético sem rotulagem, e os termos de uso das principais redes já vedam mídia manipulada não identificada. É nas políticas de conteúdo sintético - e na disposição das empresas de aplicá-las em ano eleitoral - que essa disputa vai se decidir. Vai ser especialmente interessante ver como isso vai ser implementado na janela de silêncio para conteúdos criados por IA nas 72 horas anteriores e nas 24 posteriores à votação, determinando pelo TSE, mesmo que os vídeos sejam rotulados. Os clones terão de dormir na véspera da eleição, respeitando a lei seca da IA.
Em "Star Wars", o exército de clones foi fabricado a partir de um único homem, e o mistério sobre quem o encomendou atravessa o filme sem nunca importar de verdade: uma vez que os clones existem, eles marcham. A eleição de 2026 promete repetir o enredo.
Haverá um Bolsonaro original em prisão domiciliar, e uma multidão de Bolsonaros digitais falando por ele em todas as telas do país. Eles podem até abrir o discurso com a mesma advertência de "isso que vocês estão vendo não sou eu". O problema é que, a cada nova aparição, a frase fica menos verdadeira e acaba, dada a condição do ex-presidente, se convertendo no meio pelo qual os eleitores interagem com e reverberam a mensagem de Bolsonaro.
Caberá ao TSE e às plataformas decidir o que fazer com um exército que aparenta não ter general: cada clone jura que não é Bolsonaro. E é exatamente por isso que funciona.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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