Nicolelis sobre chip cerebral de Musk: ?Não dá para competir com a China?

1 de Ago de 2026 - 06:30
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Nicolelis sobre chip cerebral de Musk: ?Não dá para competir com a China?

(Toda semana, e conversam sobre tecnologia no podcast. O programa vai ao ar às terças-feiras no, no, no e no. Nesta semana: Miguel Nicolelis: ; ; )

A Neuralink pode "sumir do mapa" em poucos anos por não conseguir competir com a China, além de esbarrar em limitações biológicas, financeiras e de viabilidade, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis, em entrevista a , o podcast do para humanos por trás das máquinas.

Se estivermos aqui, daqui a três, cinco anos, e você me perguntar, 'por que a Neuralink faliu?', eu vou falar, 'bom, era óbvio, todo mundo que é do ramo sabe'. Não tem como competir. Não interessa o que o Elon Musk faça com a Neuralink. Se a China decidir realmente, e eu acho que eles já decidiram, jogar o peso tecnológico do país e o investimento -que são bilhões de dólares-- a Neuralink não vai nem estar aqui. Ela pode ser viável politicamente, como você falou. Só que ela não é viável economicamente.
Miguel Nicolelis

Pai da tecnologia das interfaces cérebro-máquina, Miguel Nicolelis é reconhecido internacionalmente por pesquisar há quase 40 anos como as áreas da robótica, inteligência artificial e neurociência podem convergir para restituir a capacidade de movimentos de pessoas com paralisias neurológicas.

Para Nicolelis, que desenvolve implantes corticais em pesquisas desde os anos 1990, o principal gargalo dos implantes invasivos segue sem solução: a biocompatibilidade, que faz o dispositivo perder desempenho com o tempo.

Dependendo da qualidade dos neurocirurgiões, da qualidade do material, você estende um pouquinho, mas o troço para de funcionar. Os implantes param de funcionar. Nós temos o recorde até hoje na literatura, que é mais de seis anos de um macaco ainda ter algum sinal útil para você continuar a usar.
Miguel Nicolelis

Ele também aponta um risco prático: depois de meses, os filamentos do implante podem aderir ao tecido por reações inflamatórias, o que torna a retirada perigosa. Para ele, isso pesa na decisão de indicar o procedimento a pacientes.

Se você for tentar tirar, você vai trazer um chunk [pedaço] de cérebro normal. Imagina você fazer isso num paciente que é paraplégico ou quadriplégico.
Miguel Nicolelis

Além do desafio biológico, Nicolelis diz que falta viabilidade econômica: não há neurocirurgiões nem robôs em quantidade suficiente para implantar o dispositivo na escala em que é necessária, além de a intervenção custar US$ 250 mil.

Na visão do neurocientista, a China aparece como o contraponto ao implante cerebral, um método invasivo, por tratar a área neurológica como estratégia de Estado e apostar em métodos não-invasivos, como as interfaces cérebro-máquina, que foram incluídas no planejamento econômico chinês para atender grandes populações.

Falar em IA com consciência só gera medo e amplia valor de big techs, diz Miguel Nicolelis

Atribuir consciência humana a modelos de inteligência artificial não passa de estratégia para gerar medo entre as pessoas e ampliar o valor de mercado das empresas por trás desses serviços, afirma o neurocientista Miguel Nicolelis .

Desde o início da área, os proponentes da inteligência artificial inventam, mentem, usam o hype. Eles usam isso por duas razões básicas. Uma é para instalar o medo. Porque o medo faz com que você ganhe poder. Quem diz que detém um objeto, uma máquina, um instrumento consciente -que ninguém sabe definir, nem eles, nem ninguém-- detém um poder enorme. E segundo: isso aumenta o 'valuation' da sua empresa. Quanto mais lorota você contar, e como o mundo hoje acredita em todos os maiores loroteiros da história, o seu 'valuation' aumenta
Miguel Nicolelis

'Estamos sendo incorporados pela IA, diz o neurocientista Miguel Nicolelis

A inteligência artificial generativa virou parte da economia da atenção e, ao mesmo tempo, um sistema que aprende com as nossas perguntas.

Diante do treinamento dos modelos de IA requererem não só milhões de dados, mas passarem a incorporar também a interação das pessoas, o neurocientista Miguel Nicolelis sustenta que a relação não é só de uso. A tecnologia passa a "absorver" o comportamento humano e a capturar nossa produção intelectual, diz.

O cérebro humano chegou até aqui porque incorporava como parte dele as ferramentas que ele criava, ou seja, as tecnologias. Então, toda a história da humanidade se reduz à produção de tecnologias que foram assimiladas para expandir, de acordo com o cérebro, a mente humana, o footprint humano no mundo. É a primeira vez que nós criamos uma tecnologia que está revertendo o processo. Nós estamos sendo assimilados.
Miguel Nicolelis

Nicolelis viu mulher paralisada voltar a andar na China: 'emocionante'

Para Miguel Nicolelis, ter visto uma jovem voltar a andar no meio de uma praça chinesa lotada de gente foi uma das cenas mais emocionantes de sua vida. Em entrevista a Deu Tilt, o neurocientista apontado como pai da interface cérebro-máquina conta como a China tem apostado nessa tecnologia para restaurar os movimentos de pessoas paralisadas.

A gente sabe, desde 2024, que existem aproximadamente 3,4 bilhões de pessoas sofrendo de pelo menos uma das 37 mais prevalentes doenças neurológicas do mundo. E a China provavelmente tem próximo de 450 milhões de pessoas com problemas neurológicos e eles sabem que não há sistema de saúde público nem privado no mundo capaz de lidar com isso. Eles estão à procura de novas abordagens terapêuticas para tratar esses pacientes.
Miguel Nicolelis

DEU TILT

Toda semana, e conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no e nas. Assista ao episódio da semana completo.