Máquina que acertou 4 vezes já sabe quem vai ganhar a Copa; dá pra confiar?
Toda Copa do Mundo começa com a mesma pergunta: quem vai ganhar?
A gente escuta comentaristas, lê análise estatística, olha ranking, histórico, tudo para ir bem no bolão da firma. Mas, nos últimos anos, um personagem improvável entrou nessa disputa pela previsão do futuro, uma empresa da área de jogos. Estou falando da EA Sports, empresa por trás do FC, o antigo FIFA. Ou fifinha, para os íntimos.
A empresa acaba de divulgar sua previsão para 2026. O curioso é que a EA construiu uma reputação nada desprezível por ter acertado os campeões das últimas quatro Copas. Espanha em 2010. Alemanha em 2014. França em 2018. E Argentina em 2022.
Você deve ter lido um monte de pessoas que também acertaram os últimos vencedores, então o que faz a EA Sports diferente delas?
O ponto mais importante é que a EA tem um modelo do mundo do futebol riquíssimo em detalhes, com atributos individuais de cada jogador, entrosamento, esquema tático, e um motor que simula os jogos lance a lance. Então, para chegar no resultado, a empresa não usa apenas dados estatísticos, mas roda uma simulação de cada jogo centenas de vezes e pega o resultado mais frequente.
Isso é bem diferente de perguntar para o ChatGPT, por exemplo. O chatbot não simula nenhuma partida. Ele prevê a próxima palavra com base em tudo que já foi escrito sobre os favoritos, acabando por refletir o consenso da imprensa esportiva, mas sem testar qualquer time em campo. A EA joga o torneio de verdade, dentro do computador, muitas e muitas vezes.
Só que mesmo com todo esse rigor e poder de processamento, uma simulação não te entrega o futuro, mas apenas um mapa do possível. Quando a EA crava um campeão, o que ela está dizendo, na verdade, é que das centenas de torneios simulados, aquele time foi o que apareceu mais como vencedor. Estamos falando de uma distribuição de probabilidades que muita gente confunde, erroneamente, com profecia.
Precisamos entender essa tecnologia como uma caixinha de muitos universos. Cada jogo simulado é uma realidade, mas vivemos em apenas uma. E o futebol é um esporte mágico porque basta um detalhe do jogo para quebrar qualquer ideia de determinismo.
A Copa de 2022 é um bom exemplo disso. A EA cravou logo de cara que a Argentina seria campeã. Só que essa previsão quase foi pro beleléu quando, aos 123 minutos da prorrogação da final, o goleiro argentino fez um verdadeiro milagre ao defender com a perna esticada um chute cara a cara do atacante francês.
Um gol ali, e a França levaria a taça. A sequência de acertos da EA acabava, e a gente não estaria conversando sobre isso agora. O acaso e o preparo também ajudam a confirmar estatísticas.
E nessa equação não podemos esquecer como nós, humanos, interpretamos essa confiança. A gente tem uma tendência natural de lembrar do que confirma e esquecer do que contradiz. Em 2018, a EA não só acertou a França campeã, como também previu que o Brasil seria eliminado pela Bélgica antes mesmo da Copa começar.
Só que essa mesma simulação colocou a Alemanha na final, sendo que a equipe caiu na fase de grupos. O primeiro fato virou a confirmação; o segundo, ninguém se lembra. É o viés do retrospecto em ação. A sequência de quatro acertos parece inevitável e fica na memória porque estamos coincidentemente vivendo na timeline que deu certo.
Simulações são, talvez, uma das ferramentas mais interessantes que temos para entender futuros possíveis. Estamos conversando sobre futebol, mas essa é uma técnica que será cada vez mais utilizada na economia, na geopolítica e nas guerras. É por isso que não podemos esquecer que o acaso está sempre presente, e que o futuro ainda não existe para ser previsto com perfeição.
A EA Sports fez um trabalho sério, com muitos dados e alta tecnologia.
Se você está curioso para saber qual é a previsão para 2026, eu conto. Espanha.
Agora é só esperar para saber se ainda estamos vivendo na timeline que o computador simulou.
Ou, se em algum momento dessa Copa, um morrinho no gramado vai mudar tudo. Na minha timeline, Portugal leva.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.