Lula é isolado no G7 em meio a esforço de líderes para buscar sintonia com Trump
Por
17/06/2026 às 17:50
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou isolado na reunião ampliada do G7, realizada nesta semana na França. Enquanto lideranças mundiais trabalharam para resolver controvérsias com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e apoiar seu esforço para encerrar a guerra do Irã, Lula procurou o confronto e acabou tendo suas pautas ignoradas pelos demais participantes da cúpula.
Enquanto líderes do G7 e países convidados concentraram suas atenções em construir apoio para o acordo de paz com o Irã e dar suporte à defesa da Ucrânia contra a Rússia, Lula adotou um tom crítico à cúpula baseado no velho discurso da esquerda.
"Em nenhuma [cúpula do G7] conseguimos construir respostas coletivas e duradouras. Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos", disse o presidente brasileiro aos demais líderes.
Durante seus discursos, Lula também fez críticas indiretas a posições associadas ao governo Trump. Em uma das intervenções, o petista afirmou que o combate ao crime organizado transnacional não pode servir de justificativa para violações da soberania dos países. A declaração foi interpretada por analistas como um recado às pressões americanas por maior cooperação regional na área de segurança.
Para o estrategista internacional Cezar Roedel, doutor em Filosofia e mestre em Relações Internacionais, o presidente brasileiro apresentou uma agenda desconectada das prioridades que mobilizaram os líderes presentes no G7.
“Lula apresentou uma agenda completamente desconexa com as discussões da cúpula”, observou. Segundo Roedel, a diferença de enfoque revela uma política externa brasileira pouco alinhada às preocupações que hoje orientam as grandes potências.
A diferença de tom chamou atenção porque ocorreu em uma cúpula marcada pelo esforço de diversos líderes para preservar a cooperação com Washington sob o comando de Trump.
A analista política Yolanda Tolentino, especialista em cenário nacional e relações internacionais, também avalia que Lula efetivamente falou em direção oposta ao ambiente predominante da cúpula, marcado por esforços de acomodação à nova administração americana.
"O G7 de 2026 girou em torno da acomodação a Washington, com tentativas de exceção tarifária, alinhamento automático em segurança e ajuste à lógica transacional da Casa Branca por parte da maioria dos líderes presentes. Lula discursou na contramão disso", afirma.
Em seu discurso, Lula também cobrou maior financiamento climático e voltou a defender mudanças em organismos multilaterais. Essas pautas vêm perdendo força na agenda mundial desde que a Rússia invadiu a Ucrânia e Trump assumiu a presidência dos EUA.
O contraste ficou visível também nos momentos protocolares da cúpula. "A perspectiva do presidente brasileiro calcada em elementos desenvolvimentistas de assistência ou segurança social divergiu do tom do evento. O isolamento do presidente também ficou patente em coisas muito evidentes como o fato de o presidente americano não ter falado com ele. A própria posição em que Lula ficou na foto oficial, escanteado literalmente", observou o doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Elton Gomes.
O governo brasileiro rejeitou documentos discutidos durante a cúpula por considerar que o conteúdo refletia posições favoráveis à administração Trump, ampliando o contraste entre Brasília e os demais participantes do encontro.
Além disso, durante a foto oficial do encontro, Lula e Trump evitaram cumprimentos públicos, em meio às tensões acumuladas desde o retorno do republicano à Casa Branca. Ambos também deixam a França sem uma reunião formal para tratar sobre a ameaça de um novo tarifaço e a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.
Lula rejeitou documentos apoiados pelos demais participantes do G7
O governo Lula decidiu não aderir a textos apoiados pelos países do G7 por considerar que os documentos continham formulações excessivamente alinhadas às posições defendidas por Donald Trump. Apenas três dos oito textos que estiveram na pauta da Cúpula tiveram a concordância do Brasil. Como convidado, e não membro pleno do G7, Lula não tem poder de alterar os documentos, por isso apenas endossa ou não os textos.
A divergência ocorreu em temas relacionados à segurança internacional, ao combate ao crime organizado transnacional e à governança global, áreas nas quais a diplomacia brasileira procurou preservar posições tradicionalmente associadas à defesa da soberania nacional e do multilateralismo.
A resistência brasileira reforçou a percepção de que o país ocupou uma posição distinta daquela adotada pela maioria dos participantes do encontro.
Para o estrategista internacional Cezar Roedel, o episódio ilustra o grau de desalinhamento da política externa brasileira em relação às prioridades que orientaram as discussões do G7.
"O isolamento foi notável, com ausência de reuniões bilaterais significativas. Podemos afirmar que o Brasil ocupou uma posição periférica nos principais entendimentos estratégicos da cúpula. Os demais líderes demonstraram uma articulação internacional muito mais proativa", afirmou.
Na avaliação do especialista, a recusa em aderir aos documentos reforçou uma postura que já vinha sendo percebida ao longo do encontro. "O isolamento e a total desconexão foram política, diplomática e também temática", disse.
Ambiente da cúpula favoreceu aproximação com Washington
A edição deste ano do G7 ocorreu sob forte influência do retorno de Trump ao centro da política internacional. Diversos líderes buscaram construir canais de diálogo com Washington em temas considerados prioritários para as economias desenvolvidas, como comércio, energia, defesa e tecnologia.
Apesar de, por fim, terem se cumprimentado, Lula e Trump também trocaram críticas durante as entrevistas coletivas que concederam ao final do evento.
Trump disse que o Brasil se tornou um "país complicado e perigoso politicamente". Ele também mencionou os "Bolsonaros", mas confundiu os filhos do ex-presidente.
"Acabei de me despedir dele [de Lula] e ouvi que prenderam o Bolsonaro Jr [...] O prenderam porque fez uma declaração no Texas. Ou prenderam, ou querem prendê-lo", afirmou Trump, segundo a declaração publicada pela BBC.
Trump aparentemente se referia ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, mas confundiu a condenação no STF com prisão. Na terça-feira (16), Eduardo foi condenado pelo Supremo por coação no curso do processo, em razão de sua atuação nos Estados Unidos para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo, mas não foi preso.
Além disso, o presidente americano também parece ter confundido Eduardo com o senador Flávio Bolsonaro, que é o pré-candidato da direita à Presidência em 2026.
Ao ser questionado sobre as declarações do presidente dos Estados Unidos, Lula devolveu as críticas. “Acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil, e ele sabe disso. É por isso que eu ”, disse o petista, referindo-se ao possível novo tarifaço e à classificação de facções como terroristas.
Roedel avalia que a opção de Lula por criticar o protecionismo e defender reformas na arquitetura internacional durante seus discursos acabou sendo percebida como uma posição de confronto indireto com os Estados Unidos.
“Diversos líderes presentes procuraram construir entendimentos pragmáticos com a Casa Branca. Lula preferiu fazer críticas ao protecionismo e defender sua reforma da governança global, sem autoridade e barganha para isso. A atitude foi interpretada como uma crítica aos americanos”, afirmou.
Embora o contexto tenha privilegiado os Estados Unidos, Lula acabou voltando sua agenda diplomática para encontros com autoridades europeias e japonesas. Assim, o isolamento de Lula ocorreu principalmente no plano político, em razão do desgaste acumulado na relação entre Brasília e Washington.
"O resultado dessa tensão acumulada ficou visível na foto oficial da cúpula: Lula e Trump não trocaram uma palavra, antes ou depois do registro", afirma a analista política Yolanda Tolentino.
O mundo mudou, mas o discurso brasileiro permanece
Quando participou de uma reunião ampliada das grandes potências pela primeira vez, em Évian, na França, em 2003, Lula encontrou um ambiente em que temas ligados ao desenvolvimento, combate à pobreza e governança global ocupavam espaço central nas discussões multilaterais.
Mais de 20 anos depois, a agenda internacional passou a ser fortemente marcada por disputas geopolíticas, rivalidades estratégicas, segurança energética, tecnologia e defesa.
Para Roedel, a diplomacia brasileira continua apostando em conceitos que perderam relevância relativa diante das novas prioridades internacionais.
“Lula tentou repetir, mais uma vez, a defesa do que sua política externa entende como Sul Global. Ao mesmo tempo, o evento evidencia um desafio crescente para essa estratégia. O sistema internacional atual está cada vez mais estruturado por disputas de poder, segurança e rivalidade”, afirmou.
Segundo ele, discursos voltados ao desenvolvimento enfrentam hoje concorrência crescente de temas considerados mais urgentes pelas grandes potências.
Para Gomes, o principal problema de Lula não foi apenas a relação com Trump, mas o fato de o discurso brasileiro estar desconectado dos temas que dominam o debate internacional contemporâneo.
"O discurso do presidente brasileiro não está em consonância com o espírito do tempo, que versa fundamentalmente sobre geopolítica, novas tecnologias, governança transnacional e disputas de poder entre as grandes potências", afirmou.
Nesse contexto, argumenta o analista, a defesa de pautas tradicionalmente associadas ao desenvolvimento, à assistência social e à reforma da governança global acabou ocupando espaço secundário.
"Enquanto líderes discutiam questões associadas à geopolítica e à segurança internacional, o Brasil apresentou uma agenda diferente daquela que mobilizava os principais participantes da cúpula", disse.
Você pode se interessar
Encontrou algo errado na matéria?
Use este espaço apenas para a comunicação de erros