Gols anulados por um triz: por que aceitamos que máquinas decidam por nós?

14 de Jul de 2026 - 06:45
 0  0
Gols anulados por um triz: por que aceitamos que máquinas decidam por nós?

A bola agora tem eletrocardiograma. Quem assistiu a Portugal e Croácia na semana passada viu, nos acréscimos, a cena que resume esta Copa do Mundo: a Croácia empata no último lance, o estádio explode, e então a transmissão exibe um gráfico com uma linha que treme, como um monitor cardíaco.

O tremor da linha indicava que a bola havia tocado, de raspão, o cabelo de Igor Matanovi?. No vídeo, a trajetória da bola não muda. A olho nu, não muda. Contudo, o chip alojado dentro da bola disse que sim, houve contato, e o contato configurava impedimento. Com o gol anulado a Croácia estava eliminada.

Esse lance é apenas o mais dramático até aqui de uma sequência de eventos que estão colocando em cena o papel da tecnologia na tomada de decisão nessa Copa. O torneio vem colecionando impedimentos milimétricos, marcados pela ponta da chuteira, gols anulados por frações de adiantamento que não representaram vantagem nenhuma na jogada. A linha traçada pelo computador não pergunta se o atacante ganhou algo com aqueles dois centímetros de bico de chuteira. Ela pergunta apenas se os centímetros existem.

Nelson Rodrigues dizia que "se o vídeo diz que foi pênalti, pior para o videotape". O pensamento, resumido na expressão "o videotape é burro", marcou uma geração que aprendia a lidar com as maravilhas de se controlar o tempo através do lance gravado e passível de ser visto e revisto. Não por outra razão o nome que pegou por essas bandas era "tira-teima".

De lá para cá o controle sobre o que realmente se passou no lance do gol ou do impedimento só fez aumentar. Hoje o futebol se joga com sensores inerciais, visão computacional, chip dentro da bola e câmeras em todos os cantos. A nossa aversão ao erro e o controle oferecido pela tecnologia fizeram uma dobradinha que botou as máquinas em campo - e talvez tenha colocado o olhar humano no banco de reservas.

O videotape era burro não porque via mal, mas porque ele, sozinho, não era capaz de interpretar as regras. Hoje o chip detecta o toque no cabelo, mas não sabe dizer o impacto disso para o futebol que estava sendo jogado.

Os professores Urs Gasser e Viktor Mayer-Schönberger, no recente livro Guardrails - palavra em inglês que significa algo como "barreiras de contenção" - fazem a ponte entre esse conceito e a necessidade humana de decidir em um mundo permeado pela objetividade das máquinas. Os autores apontam que toda sociedade precisa de barreiras de proteção para orientar decisões, como as leis, regras e protocolos, mas que a tentação da nossa época é converter essas barreiras em muros de uma prisão, substituindo a interpretação pela automação. O detalhe é que as regras nunca foram desenhadas para serem aplicadas com perfeição milimétrica, mas sim interpretadas, servindo de guia para a decisão.

A regra do impedimento existe para coibir a vantagem desleal do atleta que se posiciona na frente do marcador. A mesma regra deveria valer quando o avanço é de centímetro, sem real vantagem na jogada? Gasser e Mayer-Schönberger insistem que boas guardrails preservam espaço para a decisão, inclusive para o erro humano, porque é nesse espaço que cabem o contexto, a proporção e a possibilidade de rever o próprio critério.

O árbitro nessa Copa é o retrato do que acontece quando as barreiras de proteção que nos dão segurança para decidir, como as regras do jogo, a filmagem da partida e toda a tecnologia embutida, tomam a dianteira e nos alienam. No cantinho do VAR, diante do vídeo acompanhado nos telões dos estádios e nas telas das TVs e dos celulares de milhões de pessoas ao mesmo tempo, o juiz mais homologa do que decide.

Espen Eskås, o norueguês que apitou Portugal e Croácia, não interpretou o vídeo do lance, até porque ele não revelava nada. Ele recebeu o laudo da bola que mostrava alguma forma de contato, imperceptível em todos os ângulos do lance, e o comunicou ao público, como um oficial de cartório.

Aqui mora a mudança mais profunda: durante um século, o futebol conviveu com a culpa do juiz como a válvula de escape para as torcidas frustradas. Reclamava-se, xingava-se, escrevia-se crônicas. O erro do árbitro era humano e, por isso, contestável. Agora a culpa foi transferida para a máquina, e da máquina não se recorre. A objetividade do chip é cruel precisamente porque não oferece interlocutor.

Tudo isso seria apenas assunto de bar se o futebol não fosse, como quase sempre, espelho de grandes questões. A rendição do árbitro ao sensor é a versão nos gramados de um movimento que atravessa a sociedade: a decisão humana desaparecendo, sem luto e sem ajustes, atrás da assertividade das máquinas. Da concessão de crédito à seleção de candidatos para uma vaga, da triagem para exames médicos à indicação do melhor caminho no trânsito: as modernas tecnologias vieram para nos auxiliar a tomar melhores decisões.

Mas isso não significa que deve desaparecer o olhar humano na interpretação do input oferecido pelas máquinas. O caminho mais rápido pode passar por lugares menos seguros. O software que seleciona currículos pode deixar passar um talento fora dos padrões.

No jogo entre Argentina e Egito, a equipe africana teve um gol anulado porque o juiz foi chamado ao vídeo para revisar uma falta lá atrás no início da jogada. Diferente do impedimento marcado quase automaticamente ou do eletrocardiograma da bola, lances como esse talvez representem o momento em que melhor se percebe o trabalho em conjunto entre tecnologia e avaliação humana.

O lance está lá, congelado, filmado por mil ângulos, mas quem determina se o contato foi faltoso, o impacto para o restante da jogada, é a avaliação dos árbitros. Uns serão mais rigorosos, outros menos. E em cima disso vamos criar as nossas narrativas, dissabores e comemorações.

A tecnologia tem tudo para continuar melhorando o futebol nos mais diversos aspectos, mas ela não deve, no que diz respeito à aplicação das regras, virar uma protagonista implacável, que passa por cima da lógica do jogo em nome de centímetro ou do tremular suave do sensor em cena que nem o vídeo capturou. Aqui a tirania dos dados acaba cobrando o seu preço.

Agora a bola tem eletrocardiograma. Resta saber se o jogo ainda tem pulso.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL