O desafio de Flávio Bolsonaro: domar os “pitbulls” e atrair o centro
Às vésperas do início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto pelo PL e adversário do presidente Lula em sua tentativa de reeleição, tem pela frente um enorme desafio: conquistar a maior parcela possível dos eleitores não alinhados aos dois polos ideológicos, o bolsonarismo e o lulopetismo, e dos que ainda não decidiram em quem vão votar ou se inclinam a votar em branco ou nulo.
Em outras palavras, se Flávio chegar como representante da oposição no segundo turno, ele terá de ampliar sua penetração junto aos eleitores moderados do “centro democrático” – chamados pejorativamente de “isentões” pelos integrantes do bolsonarismo raiz – para conseguir vencer o pleito.
Sem eles, que representam 24% do eleitorado, conforme a , qualquer tentativa de derrotar o presidente Lula e o PT está fadada ao fracasso. O levantamento (registro no TSE nº BR-09956/2026, contratada pela Folha da Manhã S/A, e que ouviu 2.004 entrevistados entre os dias 17 e 19 de junho de 2026 e possui nível de confiança de 95% e margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos), no qual Flávio aparecia no segundo turno com 43% dos votos contra 47% de Lula, no limite da margem de erro, até mostrou que ele estava numericamente à frente do presidente entre os eleitores independentes, com 38% das preferências contra 35% das do petista. Mas, numa eleição que promete ser decidida “no olho mágico”, como se diz no jargão do turfe, isso pode não ser o suficiente para levá-lo à vitória.
Além disso, embora a , de acordo a mesma pesquisa do Datafolha, um contingente considerável de eleitores identificados com o grupo resiste, por uma razão ou por outra, a endossar a candidatura de Flávio e a votar num membro da família Bolsonaro.
Ainda que possa parecer inverossímil para muitos integrantes da ala mais sectária e radical do bolsonarismo, que costumam chamá-lo de “direita limpinha” e “direita nutella”, esse grupo tem a sua representatividade e pode ser decisivo nas urnas, junto com os “isentões”, como aconteceu em 2022.
Segundo levantamentos recentes, o bolsonarismo representa, isoladamente, algo entre 20% e 30% dos eleitores, o que só reforça a necessidade de Flávio abrir o “bonde” bolsonarista a “alienígenas”, em vez de ficar preso a purismos ideológicos, para conseguir derrotar Lula e sua turma. O campo da direita simplesmente não tem força para ganhar as eleições sozinho, apesar de ter o apoio de um contingente significativo do eleitorado.
Transferência de votos
Os ex-governadores , de Goiás, pré-candidato à Presidência pelo PL, e , pré-candidato pelo Novo, reuniram-se com Flávio e, conforme o noticiário, acertaram um pacto de apoio entre eles a quem passar para o segundo turno. Mas a transferência de votos de um candidato a outro não se dá de forma automática. Ele terá de atrair esse pessoal para sua órbita na etapa final da disputa, mesmo que, no primeiro turno, eles votem em outros candidatos.
No caso de Renan Santos, ex-líder do MBL e pré-candidato pelo partido Missão, que tem uma posição totalmente refratária a tudo o que envolva o clã Bolsonaro e defendeu o voto nulo no segundo turno em 2022, isso se torna ainda mais relevante. Apesar da pregação de Renan, que deve repetir a estratégia agora se Flávio for mesmo o representante da oposição, é possível que muitos de seus apoiadores, em especial os mais jovens, que formam o grosso do grupo, prefiram votar em Flávio, ainda que de nariz tampado, para evitar a vitória de Lula e do PT.
De certa forma, a própria decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro de escolher Flávio – considerado como o mais moderado da família, com trânsito em diferentes correntes políticas – para representá-lo na disputa, foi uma indicação de que ele sabe bem, até por experiência própria, o quanto isso pode fazer a diferença no resultado final.
A , divulgada por Flávio em suas redes sociais no fim de semana, é um recado claro, para quem ainda tinha dúvidas sobre isso, de que ele deve expandir suas alianças políticas. “O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”, afirmou o ex-presidente na carta.
A grande questão aí é saber se os “pitbulls” do bolsonarismo raiz, que disparam sem trégua o “fogo amigo” contra aliados e eventuais apoiadores, vão, enfim, levantar a bandeira branca. E se, nesta altura do campeonato, isso ainda será suficiente para reconstruir as pontes destruídas pelo grupo ao longo do caminho.
Liderada por seu irmão , que vive nos Estados Unidos e comanda a ala mais ideológica do bolsonarismo, com o apoio de seu outro irmão Carlos, pré-candidato ao Senado pelo PL em Santa Catarina, essa corrente vem causando um estrago considerável na pré-campanha de Flávio, que muitas vezes se deixa levar pelas ideias puristas dos dois.
Em lugar de concentrar a atenção no lulopetismo e em cativar o eleitorado de fora da bolha dos convertidos, o grupo perde tempo alvejando lideranças importantes do próprio campo bolsonarista, da direita independente e da centro-direita, o que certamente não contribui em nada para encorpar a pré-candidatura de Flávio.
Entre outros alvos, já disparou artilharia pesada contra a madrasta Michelle Bolsonaro, que comandava o PL Mulher e deixou o posto recentemente; a senadora de Flávio, cuidando da área de direitos humanos em suas propostas; e o deputado (PL-MG), uma das figuras mais populares entre os apoiadores de Bolsonaro, cuja penetração nas redes sociais pode dar uma contribuição significativa para a campanha do filho 01 do ex-presidente.
“Dark Horse”
É certo que Flávio tem os seus próprios problemas, como o conflito que Michelle expôs no vídeo que divulgou nas redes, no qual diz que ele a maltratou e a desrespeitou, depreciando sua atuação – o que também não ajuda a reforçar sua posição junto ao eleitorado feminino, no qual tem bem menos apoio que Lula.
Apesar da surpreendente resiliência de Flávio, a divulgação de seu áudio para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, no qual pedia recursos para a produção do filme Dark Horse, baseado na trajetória política de seu pai, também afetou sua posição como candidato.
O mesmo aconteceu com a desastrosa comemoração do primeiro tarifaço anunciado pelo governo Trump sobre os produtos brasileiros, em meados do ano passado, por parte de Eduardo Bolsonaro, que também teria defendido a adoção da medida junto às autoridades americanas. Sem falar que o episódio ainda serviu de combustível para impulsionar a narrativa eleitoreira de Lula, do PT e de seus aliados em defesa da “soberania nacional”.
Novo tarifaço
A recente participação de Flávio na audiência pública realizada pelo USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) em Washington, para debater a proposta de imposição de um novo tarifaço de 25%, já que o anterior perdeu validade, foi uma bela tacada para tentar reverter os danos causados pela primeira penalização americana em sua pré-campanha.
Em sua fala no encontro, ele defendeu o Pix, apontado no relatório do órgão como um serviço em que há “concorrência desleal” no país, e pediu para o governo dos EUA evitar o novo tarifaço, para não turbinar o discurso “nacionalisteiro” de Lula e sua campanha. Muitos analistas, porém, acham difícil os Estados Unidos segurarem o tarifaço. Logo saberemos os próximos capítulos dessa novela e teremos uma visão mais clara dos eventuais benefícios da ação de Flávio e dos efeitos em sua pré-campanha.
Isso para não falar das velhas acusações das “rachadinhas” que ele teria promovido com funcionários de seu gabinete quando ainda era deputado estadual no Rio. Também pesa contra ele, entre outros pontos, a percepção de que foi para livrar sua pele no Supremo que Bolsonaro atuou para enterrar a CPI da Lava Toga, cujo objetivo era investigar supostos abusos de autoridade e condutas ilícitas de ministros das Cortes superiores, em especial do STF.
Para completar, não dá para negar que Flávio não tem o carisma do pai, mesmo que consiga fazer seu papel relativamente bem. Ainda por cima, tem de enfrentar uma rejeição alta, que cresceu desde o início da pré-campanha, e hoje está até acima da desaprovação de Lula. Nada menos que 48% do eleitorado diz que não votaria nele de jeito nenhum, contra 46% de Lula, ainda de acordo com o mesmo levantamento do Datafolha.
Não por acaso, desde o princípio, uma parcela considerável dos apoiadores de Bolsonaro resistia à indicação de Flávio e defendia a escolha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo –outro bombardeado pela turba digital bolsonarista – para representar o grupo nas eleições. Agora, no entanto, não adianta chorar o leite derramado. Flávio deve ser confirmado como candidato do PL e, ao que tudo indica a pesquisa Datafolha, deve ser o representante da oposição no segundo turno.
Normalmente, ele já precisaria superar seus próprios problemas e as dificuldades naturais que teria para derrotar Lula e para conquistar os votos dos não alinhados, dos indecisos e dos que pretendem votar em branco ou nulo. Se Flávio ainda tiver de enfrentar uma guerra fratricida, provocada por ele mesmo ou por seus irmãos, com o apoio de suas infantarias digitais, sua missão vai ficar ainda mais complicada. Mais que isso até, talvez essa questão acabe por inviabilizar por completo sua vitória nas urnas.
Conteúdo editado por:
É jornalista desde 1983. Foi repórter especial e colunista do Estadão, editor de Economia e repórter especial da revista Época, editor-chefe da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e editor-executivo da revista Exame. Foi também repórter da Gazeta Mercantil e da Folha. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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