Golpes usam anúncios falsos com IA para anunciar Desenrola Brasil nas redes
Golpistas estão usando anúncios falsos nas plataformas da Meta para enganar pessoas que procuram renegociar dívidas pelo novo Desenrola Brasil.
O que aconteceu
Levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou 544 anúncios fraudulentos entre 1º de abril e 14 de junho. O estudo aponta que as peças foram veiculadas por 48 páginas e exploram políticas públicas voltadas à população.
Distribuição dos anúncios ocorreu em várias frentes do ecossistema da empresa. Os pesquisadores afirmaram que "Esse padrão mostra que os fraudadores se beneficiam da infraestrutura de anúncios da big tech para ampliar o alcance de suas campanhas, distribuindo-as simultaneamente por diferentes plataformas e aumentando a exposição dos usuários aos golpes".
Outros serviços também foram usados para espalhar as peças, com destaque para o Messenger e a Audience Network. O Messenger distribuiu 73% dos anúncios falsos, a rede de parceiros Audience Network respondeu por 67,1%, o Threads por 55,7% e o WhatsApp por 4,8%.
Quase metade dos anúncios promovia um suposto programa chamado "Libera Brasil". Em média, as peças ficaram no ar por três dias, mas o NetLab registrou um caso mais longo: "O caso mais grave foi o de um anúncio que permaneceu no ar por 22 dias promovendo o falso programa Libera Brasil".
Uso de inteligência artificial apareceu em parte relevante do material analisado. O NetLab aponta que 38,1% dos anúncios fraudulentos usaram IA, incluindo vídeos com indícios de manipulação (deepfakes), e que 72% recorreram ao uso indevido do nome e da imagem do governo e de marcas privadas conhecidas.
Procurada, a Meta disse que combina tecnologia e checagem humana para combater violações. "Usamos uma combinação de tecnologia e revisão humana para identificar e remover conteúdos violadores, o que temos feito em relação ao Desenrola Brasil", afirmou a empresa.
A companhia também declarou que atende pedidos das autoridades brasileiras. "A Meta reforça ainda que coopera e responde a requisições das autoridades brasileiras nos termos da legislação aplicável.", disse.
Por que esse tipo de golpe se espalha
Relatório do NetLab destaca que o estelionato eletrônico cresceu e virou um medo recorrente no país. O documento cita dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicando que o Brasil passou a registrar mais ocorrências desse tipo de crime do que de roubos e que o receio de cair em golpes on-line supera o medo da violência urbana.
Estudo também lembra que a publicidade pode financiar campanhas fraudulentas em grande escala. O relatório menciona documentos internos acessados pela agência Reuters e noticiados em novembro de 2025, segundo os quais 10% da receita da Meta em 2024 (US$ 16 bilhões) teriam vindo de anúncios ligados a golpes e itens proibidos.
Histórico de ações no caso
Governo federal já havia acionado a empresa após a primeira fase do Desenrola Brasil. Em julho de 2023, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, entrou com uma medida cautelar para que anúncios falsos fossem removidos assim que identificados.
Meta também já foi multada após mapeamentos anteriores do NetLab. Em novembro de 2024, depois de um novo levantamento sobre anúncios fraudulentos nas redes da empresa, a Meta recebeu multa de R$ 9,3 milhões.