Em ata, Copom fecha espaços para cortes de juros; analistas mantêm pé atrás

23 de Jun de 2026 - 14:15
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Em ata, Copom fecha espaços para cortes de juros; analistas mantêm pé atrás

Em ata, Copom fecha espaços para cortes de juros; analistas mantêm pé atrás

Depois de toda a confusão com a decisão de cortar 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (taxa Selic), de 14,5% ao ano para 14,25%, em meio a projeções de elevação da inflação, o Copom (Comitê de Política Monetária) se valeu da ata da reunião de junho, divulgada nesta terça-feira (23), para tentar esclarecer a estratégia criticada no mercado financeiro.

Primeiros sinais vindos dos analistas indicam que o esforço não eliminou inteiramente a sombra de perda de credibilidade ensaiada com o comunicado. Muitos analistas ainda estão com o pé atrás.

Juros curtos "fecham", longos "abrem"

Essa percepção está sendo suportada pelo movimento das curvas de juros futuros. Como se diz no mercado, os ramos curtos (com vencimentos até início de 2027) "fecharam", ou seja, convergiram para a taxa Selic projetada no Boletim Focus, enquanto os ramos longos (para além de 2029) "abriram", negociando juros próximos a 15% ao ano.

A mensagem transmitida, numa tentativa de tradução do "coponês" — o idioma usado pelo Copom para se comunicar com os iniciados — para o português das ruas pode ser descrita mais ou menos como a seguinte:

"A inflação em prazo mais curto está mesmo em alta, mas, calma, pessoal, o ambiente e o cenário estão muito confusos e incertos, tem choque de oferta atuando e outros ameaçando na frente, decisão mais dura sobre juros hoje lá no futuro pode dar inflação abaixo do centro da meta por um bom período, melhor não correr esse risco. Vamos então dar uma enrolada aqui e suspender o ciclo de cortes da Selic no próximo Copom, em agosto, ok?"

Novidades na política de juros

Do ponto de vista mais estrutural, em relação ao ambiente econômico, o Copom reafirmou na ata sua visão de que o cenário de convergência da inflação à meta ficou mais complicado. Mas, de outro lado, ponderou que os juros estão muito elevados há bastante tempo, e que, com isso, bem ou mal, a política de juros acabou impondo freios à atividade econômica, ajudando a aliviar pressões inflacionárias.

Tudo considerado, o Copom está avisando, agora de forma bem mais explícita, que o atual ciclo da política de juros contempla a possibilidade de reduções e interrupções ou mesmo altas alternadas dos juros básicos. A possibilidade de ciclos alternados na marcha dos juros básicos será uma novidade no histórico do Copom.

Também é uma novidade, reafirmada na ata, a decisão de dar peso à atividade econômica, atendendo ao mandato secundário do Banco Central — "suavizar as flutuações da atividade econômica"—, algo que antes só aparecia, burocraticamente, na comunicação do BC com a praça.

Se bem que, com essa argumentação, o Copom tenha deixado espaço aberto para qualquer decisão sobre juros básicos no futuro, a verdade é que, depois da ata, são poucos — mas existem — os que acreditam em continuidade do ciclo de cortes. Já há um certo consenso de que os espaços para reduzir a Selic se fecharam quase completamente. Será só 0,25 ponto até o fim do ano.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.