Ele previu a crise de 2008 e agora diz que "bolha da IA" explodirá em 2027
Michael Burry, investidor que ficou famoso por prever a crise imobiliária de 2008 (e virou personagem do filme 'A Grande Aposta'), disse nesta semana que a "bolha da IA" pode estourar antes do que ele imaginava. O alerta ecoa um temor que aparece em diferentes cantos do mercado: muito dinheiro girando rápido demais em torno de promessas que ainda não viraram lucro consistente.
O alerta de Michael Burry
*Burry escreveu em sua newsletter que está "adiantando os prazos" do seu cenário pessimista para a IA e, por isso, quer mais "alavancagem" (um jeito de potencializar ganhos - e perdas) nas apostas contra ações do setor, de acordo com o Gizmodo.
*O investidor está trocando algumas de suas posições vendidas por opções de venda, todas com vencimento em algum momento dentro de 2027, o que significa que ele espera que as ações despenquem de suas máximas no decorrer do ano - antes, ele esperava que isso fosse ocorrer em 2028.
*Burry renovou suas apostas contra Nvidia, Palantir, Oracle e o Nasdaq 100, e agora espera que sua tese pessimista sobre a IA se concretize no prazo de um ano, em vez de até 2028.
*Entre os alvos citados estão nomes ligados ao boom de IA e infraestrutura, como Nvidia, Palantir, Oracle, além de apostas contra índices e fundos de semicondutores.
*O investidor já havia virado notícia no fim do ano passado quando comparou o atual mercado de IA com a bolha da tecnologia do início dos anos 2000.
*O pano de fundo do argumento atual é simples de entender: se o setor parar de gastar - ou desacelerar - a engrenagem pode perder força. Segundo o próprio Burry, em frase citada pelo Business Insider, "se os gastos pararem ou desacelerarem, tudo desmorona".
*Ele afirmou ainda que uma quebra no mercado que impeça os IPOs da OpenAI e da Anthropic seria "bom para a humanidade". "Pelo bem da humanidade, os mercados deveriam despencar fortemente e evitar os IPOs da OpenAI e da Anthropic", escreveu ele no X na terça, acrescentando que os dois laboratórios destruiriam 'trilhões de dólares em capital'.
*No noticiário recente, esse medo aparece ligado a um fenômeno que críticos chamam de "financiamento circular": empresas e investidores se financiam e se retroalimentam para comprar os mesmos produtos e serviços, criando uma sensação de demanda que pode ser mais frágil do que parece. Concretamente, é o caso da Nvidia, que ao mesmo tempo que investe em empresas de setor também é quem mais recebe dinheiro do "boom da IA" por causa dos seus chips.
*Outro exemplo citado é o peso do investimento em IA nos balanços: o Google chegou a registrar fluxo de caixa livre trimestral negativo no último balanço, atribuído ao gasto pesado com IA - algo inédito na história da empresa como companhia aberta.
Existe bolha realmente?
*Até o Banco da Inglaterra entrou na conversa. Em entrevista à BBC, o presidente da instituição, Andrew Bailey, disse que dá para ver "alguma correção de preços de ativos em algum momento" e alertou que "todo mundo está precificado para ser vencedor" - mas, na vida real, "nem todo mundo vence".
*Um ponto que reforça o argumento dos céticos é o descompasso entre gasto e retorno: a CNN cita o economista Torsten Slok, da Apollo, dizendo que "o capital pode preencher a lacuna por um tempo, mas não indefinidamente" - e que o risco é o retorno (ROI) não aparecer rápido o suficiente para sustentar a gastança.
*Há também o medo de que uma "temporada" de receitas decepcionantes já seja suficiente para virar a chave. Um relatório da Ares Management, citado pela CNBC, diz que bastaria um período em que a receita de IA frustre o investimento que a banca para que conselhos de empresas decidam realocar capital - e os contratos já preveem essa possibilidade.
*Do outro lado, há quem diga que chamar tudo de bolha é exagero. Em texto no Yahoo Finance, o colunista Marc Guberti argumenta que parte do crescimento vem de fundamentos mais sólidos, como contratos de vários anos que dão previsibilidade a fabricantes de chips e reduzem o risco de um "vai e volta" típico do setor.
*Esse mesmo argumento aposta que a demanda pode ir além dos grandes grupos de tecnologia: com IA ficando mais acessível, empresas menores também entram na fila por capacidade de computação - o que manteria a procura por chips e data centers aquecida por mais tempo.
*Em outra linha, Annie Lowrey, da The Atlantic, chama a atenção para um detalhe que muda o "jeito" da bolha: desta vez, quem está inflando o balão não é só o investidor pessoa física, mas corporações gigantes, com muito caixa e acesso a crédito - o que pode tornar o ciclo mais longo, embora não necessariamente menos doloroso se houver estouro.
IAgora?
O alerta do Burry funciona como aquele barulho de motor que faz você baixar o volume do rádio: não prova que o carro vai quebrar, mas acende uma preocupação. O que aparece é um mercado em que a promessa (IA em todo lugar) corre na frente do lucro (quem paga e quanto paga), e isso deixa o sistema sensível a qualquer "freada" nos investimentos.
Três sinais práticos ajudam a entender por que esse debate pode ficar mais quente nos próximos meses. Primeiro, a IA "de graça" está ficando cada vez mais limitada: ferramentas que antes pareciam um buffet liberado agora funcionam mais como franquia de celular - você usa rápido a cota e, para continuar, precisa pagar ou aceitar restrições. Isso é um empurrão para monetização, mas também pode esfriar o entusiasmo de quem testava por curiosidade.
Segundo, há a possibilidade de novas ondas de dinheiro com empresas de IA se preparando para vender ações na bolsa. OpenAI e Anthropic se preparam para movimentos recordes no mercado que podem atrair ainda mais capital. IPO (oferta inicial de ações) costuma ser um "teste de realidade": quando a empresa precisa convencer investidores públicos, a cobrança por receita e margem fica mais dura.
Terceiro, a pressão competitiva aumenta com modelos abertos - especialmente de grupos chineses - que podem reduzir preços e acelerar uma "guerra de custo" na IA. Se o cliente passa a ter alternativas mais baratas, a pergunta deixa de ser "dá para fazer?" e vira "dá para cobrar?". Para quem vende infraestrutura, isso pode manter a demanda; para quem vende aplicativos e assinaturas, pode apertar as margens.
No fim, "bolha" pode ser um rótulo simplificador para um cenário mais provável: algumas apostas vão dar muito certo, outras vão sumir do mapa - como Andrew Bailey lembrou ao citar que o primeiro líder de busca não foi o Google, e sim a Netscape. Para o humano comum, a consequência mais concreta é esta: a IA deve continuar avançando no dia a dia, mas o mercado pode ficar mais instável no caminho, com mudanças rápidas de preço, planos pagos mais agressivos e uma seleção natural de quem realmente entrega valor.
O que o mundo está dizendo sobre isso
Como poderia haver uma escassez contínua? A capacidade de produção da China vem aumentando consistentemente e não há absolutamente nenhum problema de escassez. Os preços dos contratos estão atualmente oscilando em níveis elevados, com alguns preços subindo e outros caindo.
Jason Chen, CEO da Acer, em entrevista à mídia taiwanesa (via CNBC)
Estamos preparados para o fato de que, acredito, haverá alguns choques nos mercados e teremos de lidar com eles. Precisamos garantir que o sistema seja resiliente.
Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra (via BBC News)
Eu acredito plenamente que a tecnologia é transformadora. Mas isso não significa que, em algum momento, não haverá uma euforia irracional.
Max Gokhman, chefe de IA e ativos digitais na empresa de investimentos Franklin Templeton (via CNN)
A tecnologia ainda não foi aperfeiçoada, mas essas competições dão uma ideia do que será possível nos próximos 5 a 10 anos. Data centers de IA, chips de memória e outros componentes essenciais alimentam esses robôs. Quanto mais robôs os países produzirem e os consumidores comprarem, mais forte será a demanda por IA.
Marc Guberti, colunista do Yahoo Finance
Reportagem
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