Direito às armas e livre mercado inspiram Confederação 9 de julho

25 de Mai de 2026 - 17:15
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Direito às armas e livre mercado inspiram Confederação 9 de julho

Um grupo de ativistas do interior paulista decidiu que não quer depender — por ora — de partido nenhum para pautar a política brasileira. Em março de 2025, um advogado de Taubaté e um engenheiro de Araçatuba colocaram no papel uma estrutura permanente, descentralizada e com ambição nacional, que definem como o contraponto ao que a esquerda construiu em décadas.

Ao contrário do Fórum de São Paulo — a articulação criada por Fidel Castro e Lula em 1990 —, ela não quer ter sede fixa, presidente único nem uma capital que concentre poder. Quer se espalhar pelo país a partir de São Paulo — e, para isso, escolheu um nome que carrega história.

O 9 de julho é a data da Revolução Constitucionalista de 1932, quando o estado de São Paulo, segundo um dos fundadores, se levantou sozinho contra as tropas de Getúlio Vargas em defesa de uma constituição. O levante perdeu militarmente, mas ganhou o que queria: o país voltou ao regime constitucional. Os fundadores enxergam nesse episódio o símbolo de resistência ao poder centralizado.

O modelo ainda deve ser replicado em outros estados, cada um com sua própria data de resistência: em Minas Gerais, o 21 de abril, execução de Tiradentes; na Bahia, o 2 de julho, feriado que celebra a Independência da Bahia; no Rio Grande do Sul, o 20 de setembro, início da Revolução Farroupilha. Datas que, não por acaso, marcam momentos em que o poder local enfrentou e resistiu ao poder central.

A bandeira do movimento traduz a mesma lógica em imagem. Quinze listras pretas e brancas e 15 estrelas amarelas representam as regiões administrativas de São Paulo — e o desenho remete deliberadamente à bandeira do M.M.D.C., o movimento armado que organizou a resistência paulista em 1932 e cujo nome reúne as iniciais dos quatro primeiros estudantes mortos no conflito. No centro, o mapa do estado em azul sobre fundo vermelho.

Confederação 9 de julho fez intercâmbio com base de Javier Milei

A Confederação 9 de julho foi fundada pelo advogado Rodrigo Duque, de Taubaté, e pelo engenheiro civil Rodrigo Andolfato, de Araçatuba — região de agronegócio forte e eleitorado historicamente conservador, terreno fértil para uma iniciativa que mistura armamentismo, economia da escola austríaca e desconfiança do poder central.

A proposta é montar uma estrutura permanente que una clubes de tiro, institutos da escola austríaca e intelectuais da direita em torno de uma pauta mais ampla: menos Estado, liberdade econômica, descentralização do poder e direito irrestrito à legítima defesa. "A esquerda foi de forma silenciosa para as universidades, para a igreja, para os movimentos sociais. A gente precisa fazer o mesmo", diz Duque.

O modelo de inspiração vem da Argentina. O Foro Alberdiano Internacional — batizado em homenagem a Juan Bautista Alberdi, o jurista argentino cujo livro Bases y puntos de partida serviu de referência para a Constituição argentina de 1853 — é a estrutura ligada ao La Libertad Avanza, o partido de Javier Milei que venceu as eleições argentinas em 2023, com uma plataforma de corte radical de gastos e desregulamentação da economia.

Em novembro de 2024, o grupo trouxe uma comitiva de políticos argentinos à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) para o lançamento da Frente Parlamentar Brasil-Argentina, coordenada pelo deputado Lucas Bove (PL-SP) — e foi nessa ocasião que Andolfato recebeu o diploma de embaixador-geral do foro no Brasil. Foi dentro dessa estrutura que ele ensinou economia da escola austríaca a políticos do La Libertad Avanza e absorveu o arcabouço doutrinário que deu origem à Confederação 9 de julho.

Economia da escola austríaca entra como base doutrinária do movimento

Andolfato é o responsável por dar ao movimento uma coluna vertebral intelectual. Engenheiro civil com mestrado pela Unesp e doutorado pela USP, ele se define como economista autodidata da escola austríaca — corrente que rejeita qualquer intervenção do Estado na economia e vê no livre mercado o único mecanismo legítimo de geração de riqueza.

Segundo ele, qnquanto os monetaristas da escola de Chicago aceitam que o Estado manipule a oferta de moeda para fins de política econômica, os austríacos consideram isso o "maior crime que existe". Para Andolfato, a Selic, o Banco Central e qualquer instrumento de política monetária são ilegítimos por natureza.

Seu autor de referência é Ludwig von Mises, cujo livro Ação Humana ele considera um divisor de águas — e cujo guia de estudos oficial, originalmente publicado nos Estados Unidos, foi traduzido pelo Instituto Liberal da Alta Noroeste (Ilan), fundado por Andolfato em Araçatuba.

Esse arcabouço teórico é o que diferencia a Confederação 9 de Julho de um movimento puramente armamentista. A ideia é formar politicamente as bases — nos clubes de tiro, nos eventos regionais, nos podcasts — a partir de uma doutrina que conecte liberdade individual, descentralização fiscal e direito às armas como partes de um mesmo projeto.

"Quando falo de economia, ninguém quer conversar, mas todo mundo que é atirador já entende de liberdade. A gente começa por aí", explica Andolfato.

Armas como instrumento de resistência ao Estado

Para os fundadores, o direito de se armar vai além da legítima defesa individual. A tese, inspirada na segunda emenda da Constituição norte-americana, é que uma população armada é a única garantia real contra governantes que tentem suprimir liberdades. "A polícia não adivinha onde o ladrão vai atuar. E quando governos despóticos tentam cercear a liberdade, só a população armada pode resolver", defende Duque.

É essa leitura que conecta o armamentismo à pauta mais ampla do movimento — e que explica por que os fundadores veem nas restrições impostas pelo governo Lula (PT), não apenas uma política pública equivocada, mas uma ameaça deliberada às liberdades individuais.

Para Duque, as condenações dos presos do 8 de janeiro são parte do mesmo padrão. "Foi uma excrescência jurídica, uma afronta à liberdade. O MST já invadiu o STF, já invadiu o Congresso, e ninguém foi preso por terrorismo", diz ele.

Para além das armas, Duque aponta o pacto federativo como o problema estrutural que a confederação quer enfrentar. "O estado de São Paulo paga quase 40% da conta, mas quem decide é quem não paga", argumenta. A solução defendida é a mesma que Milei tenta implementar na Argentina: municípios arrecadam, estados e União recebem uma parte — e não o contrário.

Estrutura confederada e planos eleitorais para 2028

O formato do movimento replica, intencionalmente, a doutrina que prega. Não há sede nacional fixa nem presidente único. A Confederação 9 de julho é formada por associações regionais — cada uma correspondente a uma das 15 regiões administrativas originais do estado de São Paulo — que elegem seus próprios conselhos e contribuem com mensalidades iguais para manter a estrutura central. "Um real, um voto. Não importa se a associação da Grande São Paulo tem 20 milhões de habitantes e a minha tem 1 milhão", resume Andolfato.

Por ora, o movimento lista cinco associações regionais em seu site, nas cidades de Araçatuba, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, São Paulo e Taubaté. O Instagram do movimento chegou a 40,2 mil seguidores sem impulsionamento, de acordo com os fundadores. A filiação custa R$ 50 por mês — valor simbólico considerado simbólico pelos fundadores. A proximidade com o PL vai além da simpatia declarada: a esposa de Duque é presidente do PL Mulher em Taubaté, cidade onde mora o fundador.

Presencialmente, o movimento aposta em eventos nos clubes de tiro — que quer transformar em embaixadas da confederação nas cidades —, com datas já marcadas em Taubaté e Catanduva.

Nenhum membro de diretoria executiva, conselho deliberativo ou conselho fiscal pode se candidatar a cargo político — sob pena de expulsão. Para 2026, o movimento não pretende lançar candidatos próprios nem dar apoio institucional a partidos — o que seria vedado pela legislação eleitoral. A estratégia eleitoral é de longo prazo, mas o horizonte imediato já tem nome: os fundadores dizem abertamente que, como pessoas físicas, apoiam Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência — o candidato que, na avaliação deles, mais se aproxima dos ideais do movimento na ausência do pai.

Para 2028 e 2030, o plano é mais ambicioso: identificar candidatos em todos os níveis que defendam a pauta da Confederação 9 de julho, elegê-los e tratá-los como "funcionários" — mandatários que responderiam à base e não a partidos.

O modelo que inspira essa estratégia também tem nome: Antonio Gramsci, o teórico marxista que defendeu a conquista da hegemonia cultural como caminho para a transformação política. "A maior inveja que temos é não ter um Gramsci do nosso lado", diz Andolfato.

Para ele, a saída é usar as mesmas ferramentas: ocupar setores da sociedade — clubes de tiro, programas de TV, institutos de pesquisa — com o discurso da escola austríaca, da mesma forma que a esquerda fez.

No horizonte mais distante, o movimento não descarta dar um passo além. Andolfato admite que, se o modelo se consolidar, a intenção é criar no Brasil um partido nos moldes do La Libertad Avanza argentino. "Não vai dar tempo para 2026", pondera. Mas a arquitetura já está sendo pensada.