Desertos de notícias são uma ameaça à democracia

4 de Jun de 2026 - 11:00
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Desertos de notícias são uma ameaça à democracia

Ainda que não seja possível estabelecer uma relação de causalidade, é difícil acreditar que seja coincidência o fato de que entre os municípios com menores índices de desenvolvimento humano (IDH) no Brasil também estejam aqueles que não têm nenhum veículo de imprensa apurando e publicando notícias sobre sua região.

Há um nome para isso e ele é tão dramático quanto expressivo: desertos de notícias. E a pesquisa mais importante que desde 2017 acompanha esse cenário anualmente é o , realizada pelo Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo).

Os últimos dados disponíveis são do levantamento de 2025 e me parece oportuno analisar alguns dos números agora, porque, às vésperas de uma eleição, a falta de acesso a informações sobre seu entorno soma-se a outras dificuldades que populações periféricas enfrentam historicamente.

No Brasil, quase metade dos municípios analisados são considerados desertos (9 em cada 20). Em termos de representatividade populacional, isso equivale a 10,2% dos brasileiros - ou 20,6 milhões de pessoas. Se adicionarmos à conta os considerados "quase desertos" (cidades que possuem apenas um ou dois veículos de comunicação), o percentual salta para 32,5%, com o silenciamento afetando 34,8 milhões de pessoas.

Volto ao primeiro parágrafo para reforçar que, além da dura relação com a escassez de condições de bem estar, também não parece ser do interesse do poder público vigente nessas localidades que dados que não lhes sejam favoráveis sejam reportados. E sem investigação, apuração e divulgação adequadas, os fatos padecem na escuridão.

Ao acessar o noticiário diariamente, nossa atenção geralmente se volta para os grandes temas da conjuntura nacional e internacional. Mas, no dia a dia, é a pauta local que nos afeta de maneira mais direta. A linha de ônibus atrasada, a estrada interditada, os eventos nos bairros que nos cercam, as denúncias quanto a conduta de prefeitos e vereadores onde vivemos. O que parecem os pormenores da cobertura de imprensa são parte essencial do serviço que o jornalismo presta aos cidadãos.

A lacuna de informação afeta regiões remotas no interior do país, mas também ocorre em diversas comunidades e regiões periféricas de grandes centros como São Paulo e Belo Horizonte. Tanto os cidadãos carecem de reportagens sobre suas próprias comunidades, quanto o resto do país também deixa de ter visibilidade sobre esses territórios.

Existe uma conexão entre a expansão da corrupção - e suas consequências - e a ausência de imprensa. Sem contar com quem fiscalize as autoridades, o caminho para o aumento de abusos de autoridade e o desvio de recursos se abre.

Nos quase desertos, o poder público, quando não coopta ou se apropria dos raros canais de difusão, se torna seu concorrente, atacando a credibilidade do que se divulga, acusando e perseguindo jornalistas e drenando seus canais de sustentabilidade econômica.

Nos últimos anos, o efeito disso tem se expandido, com veículos e profissionais sendo tratados como alvos de campanhas de desinformação e descredibilização. Esse é um dos fatores que têm levado a um outro fenômeno chamado "news avoidance", quando as pessoas intencionalmente deixam de consumir notícias.

O Brasil está acima da média global nesse índice, com , segundo a última versão do Digital News Report, conduzido pelo Reuters Institute.

Tanto quanto temos debatido o valor do jornalismo em nosso tempo e a importância de seguir defendendo a credibilidade da imprensa profissional, a existência de desertos informativos mostra que em mercados como o brasileiro ainda há uma etapa que antecede esse esforço: lutar pela viabilidade da imprensa profissional.

No Brasil, além do obstáculo político, pesa o econômico. Com modelos de negócios desfavoráveis, muitas vezes a existência de um veículo é inviável. Não há volume de audiência que feche a conta para a venda de assinaturas e não há um mercado publicitário relevante que possa irrigar espaços comerciais nesses periódicos.

Há, no entanto, um dado positivo na pesquisa do último ano: o número de desertos vem diminuindo de 2023 para cá. Nesse período, houve queda de 7,7%, o que significa um acréscimo de 250 cidades com ao menos um veículo de mídia local.

Pela primeira vez, desde que o estudo começou a ser realizado, temos mais comunidades com cobertura jornalística do que sem no país. A redução se deve ao surgimento e contabilização de rádios comunitárias no Atlas e ao crescimento de empreendimentos digitais - metade dos veículos online são descritos como blogs ou iniciativas individuais. São mobilizações que têm funcionado para ajudar a aliviar esse problema.

Nascidos nas redes sociais, esses criadores independentes dominam a linguagem e formato dessas plataformas e dialogam de forma direta com a população onde estão inseridos. É um caminho possível, mas é importante que recebam suporte.

Além das questões financeiras, há pontos críticos de segurança (profissionais sendo ameaçados, agredidos e assassinados), de apoio jurídico, de baixa formação em princípios editoriais, de infraestrutura de produção e poucas alternativas de distribuição. Ainda que devagar, para que o número de desertos siga diminuindo, é importante que essas novas vozes sejam formadas e que as atuais sejam apoiadas.

O jornalismo local, que em muitos países é detentor dos maiores índices de confiança e credibilidade por parte dos leitores (novamente citando a pesquisa do Reuters Institute), é o primeiro que se beneficia da possibilidade de surgimento de novas iniciativas de mídia em pequenas cidades.

Em um contexto de "plataformização" do consumo de informação geral, o cuidado com os fatos e apuração locais segue relevante. Instrumentos para mitigação desse problema deveriam ser prioridade que congregasse veículos regionais de grande porte, grupos de mídia nacionais, empresas de tecnologia, associações, universidades e o poder público interessado.

O Atlas da Notícia menciona algumas que servem como exemplos para avançar. Há diversas tentativas surgindo a partir da criação de iniciativas de jornalismo cívico, com domínio de territórios em perfis de redes sociais, newsletters e boletins por WhatsApp e podcasts.

Mesmo usando estruturas de terceiros e plataformas digitais, a atuação independente não precisa ser amadora. Grupos de mídia de grande porte se beneficiariam - e beneficiariam a sociedade e também a novos profissionais - ao abraçar a ideia de servir a audiências mais distantes, dando espaço a vozes locais em sua cobertura.

Formar jornalistas em suas próprias cidades, com emprego em suas regiões, é um dos passos necessários para que possam exercer sua profissão sem precisar mudar para um grande centro onde fatalmente a cobertura se concentra em temas que passam longe dos pormenores das micro-regiões. E a partir de conteúdo e audiência desse entorno, fomentar o ecossistema empresarial dos arredores para que tenham, nos veículos da região, espaço para realizar negócios.

Sobretudo, a promoção de iniciativas locais é um instrumento de inclusão e fortalecimento democrático. A redução dos desertos apontada no último ano é um indicador positivo, mas ainda insuficiente. O jornalismo, como direito essencial, deveria estar em pauta. Mas a expansão da cobertura nessas regiões depende de suporte estrutural à produção profissional independente e de apoio à adoção das ferramentas digitais que facilitem a criação e distribuição de conteúdo. Pluralidade é um esforço de rede.

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Por motivos de , essa semana eu li, assisti, escrevi e escutei muito menos coisas do que faço em média. E, caramba, a vem aí. Falando em Copa do Mundo, preciso avisar que e, a depender das escalações, isso pode comprometer minha produtividade aqui na newsletter.

Ainda assim, queria recomendar o penúltimo episódio do podcast (que já indiquei aqui antes) para que você também se veja diante do tipo de coisa realmente estranha em que alguns cientistas birutas estão trabalhando: treinando neurônios em laboratórios para construir bio computadores (isso aí, computadores movidos e neurônios). Medo.

Para aliviar a carga, comecei a ver o na Netflix, estou lendo atrasado ao do David Foster Wallace e passei o domingo me deliciando - e gastando os tubos - na , que acontece na Praça Charles Miller em São Paulo, até o dia 7/6. Cecília ganhou autógrafos da Eva Furnari e para um antigo fã da Bruxinha Zuzu, isso valeu a semana toda.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.