Cristiano Ronaldo e a Copa: do craque sem um time ao time sem o craque
Cristiano Ronaldo construiu — ainda constrói — uma das mais sólidas e longevas carreiras da história do futebol. Em Portugal, qualquer discussão sobre quem foi o melhor jogador de todos os tempos esbarra numa pergunta que é quase um pedágio para seguir a conversa: e o Cristiano Ronaldo?
Não há dúvidas sobre a capacidade, dedicação e competitividade de um jogador que desafia o tempo e deve ser tornar o primeiro a marcar mil gols em jogos oficiais.
Mas, em seis Copas disputadas, o camisa 7 mais famoso do futebol moderno nunca teve um momento de glória à altura do que conseguiu nos maiores clubes do mundo.
O primeiro gol em mata-mata só saiu na semana passada, em cobrança de pênalti diante da Croácia, num jogo em que Portugal só venceu depois que ele saiu de campo. A maior atuação de Ronaldo em Copas foi num duelo de fase de grupos, um 3 a 3 contra a Espanha, em 2018, quando marcou todos os gols portugueses.
É pouco para o tamanho do português.
A despedida, após a derrota por 1 a 0, também para a Espanha, nos faz olhar para trás. E, agora que as seis Copas de Cristiano Ronaldo já são parte do passado, cabe a pergunta: por que ele nunca brilhou no maior palco do futebol mundial?
Não há apenas uma resposta. Um caminho para achar uma lógica em tantas decepções é colocar lado a lado os momentos da carreira do CR7 e a qualidade da seleção de Portugal.
O resultado é um desencontro futebolístico notável: a história de um craque que não tinha um grande time; e depois, de um grande time que não tinha mais seu craque.
Para ser justo, é preciso fazer um parêntesis sobre 2006. Na melhor Copa da história de Portugal desde 1966, Ronaldo ainda não era o dono do time. A camisa 7 e a faixa de capitão estavam com Luís Figo, o líder da primeira geração dourada dos portugueses no futebol visto pela TV a cores.
Nas Copas de 2010, 2014 e 2018, Cristiano vivia seu auge: a primeira Bola de Ouro veio em 2008, ainda no Manchester United, e a última em 2017, sua quarta como jogador do Real Madrid. Só que, se as bolas douradas se acumulavam na estante, a geração portuguesa já não tinha o mesmo brilho.
Foram três Copas em que o Mundo esperou que Cristiano Ronaldo colocasse o time nas costas e o levasse ao título. Mas, mesmo em seus melhores momentos, o CR7 nunca foi esse jogador. Primeiro na ponta, depois como centroavante, o português sempre foi uma arma letal em times bem organizados, nunca o farol que ilumina uma equipe com limitações.
Nos três melhores Mundiais de seu principal jogador, a seleção portuguesa teve técnicos conservadores, que tinham mais medo de levar gols do que vontade de fazê-los. Carlos Queiroz, Paulo Bento e Fernando Santos jamais conseguiram reproduzir em seus times as condições que levavam Ronaldo a ser artilheiro na elite europeia. Em parte pelo próprio estilo de jogo, mas também porque não havia tanto talento disponível.
Quando Portugal, enfim, voltou a ter uma geração de jogadores acima da média, a melhor versão de Cristiano já era um quadro na parede. Em 2002, o time de Bruno Fernandes, Bernardo Silva e Ruben Días já funcionava melhor com outro atacante, Gonçalo Ramos, autor de três gols contra a Suíça nas oitavas de final, e titular na queda diante de Marrocos, nas quartas.
A multidão de fotógrafos diante do banco de reservas de Portugal, captando um raro registro de Ronaldo na reserva, foi o resumo do que a seleção havia se tornado. Àquela altura, imaginava-se que aquele era o adeus do atacante à Copa do Mundo: reserva, perdendo espaço, e abrindo caminho para uma nova geração.
A escolha de Roberto Martínez como treinador para o ciclo da Copa de 2026 parecia indicar uma renovação: o técnico que comandou a melhor geração da Bélgica seria o responsável por montar a equipe de Portugal, dando mais espaço para os mais jovens. Os dois títulos de Champions League do PSG, com Vitinha, João Neves e Nuno Mendes titulares absolutos, eram um selo de qualidade a mais.
Só que, em nenhum momento, Cristiano Ronaldo saiu dos planos do treinador; nem tirou o Mundial de seus objetivos pessoais, que incluíam recordes individuais e uma obsessão por, finalmente, brigar pelo título.
Foi assim que, com seu melhor time neste século, Portugal teve de jogar sempre para o camisa 7. Cada passe que não ia na direção de Ronaldo era acompanhado de uma reclamação. As jogadas dos meio-campistas e atacantes miravam o mesmo destinatário. E, como sempre tinha o mesmo destino final, Portugal tornou-se um time previsível.
Cristiano virou um elefante na sala, que o treinador só ousou tirar de campo por 9 minutos, contra a Croácia. Foi sem o astro em campo que Gonçalo Ramos, atuando como centroavante, marcou o gol da vitória por 2 a 1.
A despedida de um dos maiores atacantes da história do futebol mostra como a Copa do Mundo pode ser cruel. Perdido entre as duas melhores gerações do futebol português na era moderna, Cristiano Ronaldo se despede sem jamais ter disputado uma final; e com uma marca que atesta sua longevidade: é o único jogador a marcar gols em seis Mundiais.
Opinião
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