Como noticiar o fim do mundo?

11 de Jun de 2026 - 11:00
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Como noticiar o fim do mundo?

Essa história está mal contada!

Desde que estreei essa coluna, sempre que preciso decidir o tema que vou tratar na semana, me pego com algumas perguntas em mente: esse tópico interessa a mais alguém além de mim?

Ao abordar esse ponto, a quem me dirijo, afinal? Além da minha esposa e amigos, quem estará do outro lado da tela - e em que momento - lendo o que escrevi? E sem respostas para nenhuma dessas dúvidas, escolho alguma questão particular ou uma ideia para tentar elaborar.

Nessa toada, muitas vezes, grandes assuntos, os mais críticos, vão se diluindo e perdendo na correria das pautas do noticiário e seus escândalos, celebrações, tragédias, finais de novela e até - caramba, quem diria - guerras. A urgência do cotidiano acaba calando o que é importante pensarmos coletivamente. E há assuntos que nos afetam a todos e estão escanteados no debate público.

Porque isso é algo que ainda me intriga, mesmo depois de quase três décadas trabalhando nessa indústria: nem sempre o assunto mais importante a ser informado e discutido pela sociedade é o assunto sobre o qual as pessoas querem ler ou debater.

Mesmo que existam explicações, nada parece justificar a alienação a que voluntariamente nos submetemos para esquecer - ou ignorar - o fato de que há questões existenciais em jogo.

A emergência climática nos confronta com um risco concreto de colapso de ecossistemas, sofrimento em massa e migração forçada de centenas de milhões de pessoas caso mudanças estruturais não sejam realizadas. Alguns desses efeitos já estão acontecendo. e a previsão de chegada do fenômeno El Niño no segundo semestre deve agravar as condições meteorológicas por aqui com aumento de secas e regime de chuvas irregulares.

Por que falamos tão pouco sobre isso?

Falamos muito menos do que deveria ser dito na mídia de forma geral. Sei que existe a lógica da audiência, da dinâmica de funcionamento dos algoritmos, a pauta do dia a ser definida, o anunciante, o dono da lojinha e o escambau. Tem uma crise na sustentabilidade do jornalismo como negócio que rende cada vez menos e temos também cada vez menos interesse do público no noticiário. Mas também existe o e fatos incontestáveis que deveriam permear uma tentativa razoável de manutenção intencional do que precisa ser discutido. E isso é papel de quem se propõe a informar e promover o debate.

Há o argumento de que ninguém acessa notícias sobre meio ambiente. Pouca gente lê os artigos de quem nos ensina sobre o tema. Mas, se o assunto é chato demais para despertar atenção dos leitores, há uma dose maior de culpa em quem informa e menor em quem (não) lê. Convenhamos que uma noite de eliminação em A Fazenda não é exatamente um tema excitante, mas aposto um Chicabon que o Chico Barney tem mais audiência do que o professor Carlos Nobre aqui no UOL quando discorrem sobre seus tópicos de especialidade.

O tema não é de todo desconhecido da população. Uma pesquisa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) revelou que de que as mudanças climáticas estão acontecendo. Em 2024, logo após as enchentes que afetaram o Rio Grande do Sul e deixaram 185 pessoas mortas, reportou a curiosidade crescente das pessoas sobre o tema a partir de dados extraídos do Google Trends. De lá para cá, o interesse geral por temas relacionados a "aquecimento global" na busca do Google segue aumentando (na ordem aproximada de 20% no período). Mas um problema descrito na reportagem permanece: as pessoas não sabem por onde começar a agir.

Na contramão dos dados de busca na internet no Brasil, um realizado em 31 países mostra que, desde 2021, o interesse no assunto vem diminuindo. Embora a preocupação com o meio ambiente continue alta, há uma queda no sentimento de responsabilidade individual, com as pessoas transferindo a expectativa de liderança para governos e empresas (), condicionando seu envolvimento a ações concretas por parte do poder público e privado. O sentimento é de ceticismo, o que acaba levando a uma inércia em termos de iniciativas.

O interesse e consequente esforço que dedicamos ao tema são pontuais, vinculado aos eventos assustadores e tragédias que testemunhamos com frequência cada vez maior. E o aumento desses episódios, em vez de mobilizar, acaba normalizando a tragédia, de forma que buscamos formas de adaptação e não de correção.

Hoje, há quem diga que o que vai mesmo acabar com a humanidade é a inteligência artificial. Há quem diga que justamente porque as transformações do clima vão acabar com tudo, alguns magnatas bilionários estão acelerando o desenvolvimento de IA como se não houvesse amanhã porque, já diria Renato Russo, "na verdade não há" (a-aa, ele completaria) e que, por isso, já que tudo isso aqui vai acabar em breve, querem uma IA geral super poderosa que os ajude a viver fora da Terra. Veja bem, "os" ajude.

Eu acho que essa história está mal contada.

O ponto sobre o papel do jornalismo nesse esforço de mobilização diz respeito também a assuntos específicos de interesse geral. Mas, qual foi a última notícia que você leu sobre as secas amazônicas, queimadas no Pantanal, inundações em Pernambuco ou reconstruções no Rio Grande do Sul depois das enchentes? Questões ambientais entram no fluxo contínuo de todas as demais pautas como se fossem comparáveis em termos de importância, mas é preciso existir uma hierarquia que coloque o tema no centro da cobertura diária de forma a converter os picos de atenção que acontecem durante eventos extremos em compreensão permanente.

Convenhamos, é um assunto chato. Mesmo um obcecado pelo assunto, como eu, faço um esforço danado quando começo a ler artigos que despejam diante dos meus olhos termos como: neutralização de carbono, energia limpa, índices pluviométricos, gás metano (se bem que "arroto de boi" é algo bastante peculiar), COP... Pronto, vem um bocejo, uma rolagem no feed e já estou de novo em uma coletânea de memes que me distanciam de precisar pensar nisso, só por hoje.

Existe uma ameaça existencial dobrando a esquina, mas preferimos ler sobre a trivialidade do cotidiano. Só para eu ganhar a aposta do picolé, segundo dados de busca extraídos do Google Trends, o termo "A Fazenda" do que "mudanças climáticas" ao longo de todo o ano de 2025. O agro é pop.

A pesquisa da Ipsos traz um outro dado que pode refrescar um pouco o horizonte. No Brasil, a maioria dos cidadãos mantém esperança em soluções que resolvam a crise climática: 54% dos brasileiros discordam da afirmação de que "já é tarde demais" para fazer algo a respeito.

Mas aí, poxa, em nome do progresso, governantes e empresários defendem a expansão na exploração de combustíveis fósseis, aumento na capacidade de produção industrial e investimentos massivos em infraestrutura e consumo de energia para financiar o desenvolvimento de inteligência artificial sob argumento de que isso permitirá que alcancemos recursos e conhecimento para encontrar alternativas ao colapso que foi, veja só, provocado justamente por esses mesmos instrumentos. Fico com a sensação de que estamos tentando sair de um buraco usando uma pá.

O ponto de maior progresso, talvez, seja justamente o ponto de retorno.

Os cientistas falam do risco iminente de nos aproximarmos do ponto de não retorno (tipping point), o limiar crítico a partir do qual um sistema sofre alterações profundas e irreversíveis. Isso vale para desmatamento de florestas, degradação de barreiras de corais, derretimento de calotas polares etc. Uma vez ultrapassado esse limiar, o sistema já não consegue retornar ao seu estado original, mesmo que as causas sejam interrompidas.

Em meados da década de 1940, C. S. Lewis escreveu algo que, de tempos em tempos, me baliza pessoalmente e que me parece conveniente agora: "Todos nós queremos o progresso. Progredir, porém, é aproximarmo-nos do lugar aonde queremos chegar. Se você tomou o caminho errado, não vai chegar mais perto do objetivo se seguir em frente. Para quem está na estrada errada, progredir é dar meia-volta e retornar à direção correta; nesse caso, a pessoa que der meia-volta mais cedo será a mais avançada." (...) "Penso que, se examinarmos o estado atual do mundo, é bastante óbvio que a humanidade cometeu algum grande erro. Tomamos o caminho errado. Se assim for, devemos dar meia-volta. Voltar é o caminho mais rápido."

Como conviver em um relacionamento não degradante com a terra que nos nutre? A abundância de recursos à qual nos acostumamos historicamente suprimiu a noção de quão frágil pode ser nossa existência. E tem sido difícil conciliar a dimensão do problema com a capacidade de comunicá-lo amplamente e o interesse geral em atuar para corrigi-lo.

A resposta não é simples e não há uma solução rápida. A conscientização necessária traz consigo um custo pessoal, há uma dimensão de mudança comportamental que não estamos tão dispostos a bancar e esse é um dos motivos pelos quais deixamos de nos perceber como agentes. Outro fator agravante é a percepção de que as coisas acontecem devagar, de forma que os eventos se acumulam sem nos darmos contas de que já estamos na fervura.

É preciso semear um outro tipo de visão de mundo, talvez. E é nesse estágio que tudo volta a ter alguma conexão com o que acredito ser um papel desempenhado pelos atores de comunicação na sociedade. Para além do destaque necessário para os casos já evidentes da tragédia que enfrentamos, conseguir aprender a contar histórias em outros formatos para que, além da dureza do noticiário, achar formas de despertar esperança.

Conhecer, firmar parcerias com agentes de educação, apoiar-se em , (como nesse exemplo da Rainforest Connection), atrair e formar novos leitores, apoiar e em nossos canais. Existem bons exemplos e tentativas em vigor, que ainda soam como um trabalho de resistência, mas cabe a quem tem voz a responsabilidade de encontrar formas mais didáticas de noticiar, informar e engajar sua audiência.

Em 2023, . Passamos alguns dias hospedados num trecho isolado da floresta. Durante o dia, passeávamos de barco pelos afluentes do Rio Negro ou caminhávamos em trilhas pelas matas. Lembro-me de ter na mente um trecho de um livrinho do Ailton Krenak chamado que havia lido há pouco: "Fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade."

Naquela viagem, tanto quanto fui profundamente afetado pela consciência de pequenez diante da imensidão em que estávamos e do sentimento de pertencimento a partir de uma cosmovisão distinta, fui também tocado ao observar minhas filhas transitando por aquela paisagem e, aos poucos, sendo transformadas por ela, envolvidas pela terra e inserindo-se naturalmente como parte de um todo.

Crianças são a esperança em si. Talvez nossos filhos encontrem respostas para as perguntas que temos e desejo profundamente que tenhamos tempo para formar uma geração consciente a ponto de assumirem o controle dessa transformação.

A nós, ainda cabe plantar. Ainda quero ter histórias para contar.

[refs]

Essa semana eu li novamente sobre meio e mensagem, terminei de ler (falarei dele na minha sobre livros) e jogan? digo, pesquisando em um . Tenho testado (e gostado muito) do como recurso para transcrever áudio em texto. Se você está entre as pessoas que olham para o oba-oba em torno da inteligência artificial com certa rabugice, talvez goste .

Fui correr a meia maratona do Rio de Janeiro e gastei (ainda mais) horas lendo sobre corrida e lembrei na New Yorker que é uma joia - o livro dele sobre corrida, que já recomendei aqui antes, é muito interessante mesmo para quem não corre.

Finalmente, se assim como eu, lá pelo meio do texto você passou a cantarolar Legião Urbana, .

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.