Como a mentira se tornou ferramenta de sobrevivência na era digital

30 de Mai de 2026 - 09:45
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Como a mentira se tornou ferramenta de sobrevivência na era digital

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Episódio 1: Todo mundo mente?

Sim, o tema é clássico. Mas a mentira como vício moral corrompe um pouco seu sentido mais feroz e radical.

Mentimos também porque intuímos que a verdade nos escapa, ela sempre chega faltando pedaço.

"Everybody lies", como diz o Dr. House. Não é só uma afirmação sobre o cinismo ou a hipocrisia humana, mas uma indireta sobre nossa paixão pela verdade.

Desde a Antiguidade grega e latina, a mentira social é dividida em 3 faces: a ética (a vida individual), a moral (a vida comum) e a política (a vida coletiva).

Gosto muito de um conceito do século 2: a pahresia, problema filosófico de saber como, quando e sob quais condições devemos ser livres para falar. Falar de forma franca nunca foi uma recomendação geral, mas pacientemente construída.

Falar sinceramente é bem diferente de tentar definir, filosoficamente, qual a verdade.

A pahresia é um evento raro, que costuma acontecer nas relações estruturadas na mentira, como o amor e o apaixonamento, onde cabe a verdade. Era um exercício muito interessante: supunha que, na relação, primeiro tentamos adivinhar o que o outro quer ouvir e dizê-lo, para, só depois, poder dizer o que realmente queremos — sem que isso seja apenas uma reação ao desejo do outro.

É o falar livre que cria algo novo. Lembra a disciplina verbal que os surrealistas exigiam de seus adeptos: diga o que quer e escute o que não quer.

A loucura e a encenação

No século 16, Erasmo de Roterdã dividiu a humanidade em dois grupos: os loucos-loucos e os loucos-sábios.

  • Os loucos-loucos não percebem que a relação social é uma grande loucura: falamos uma coisa pensando outra, damos a entender o contrário do que acreditamos, fingimos e nos enganamos o tempo todo.
  • Os loucos-sábios fazem exatamente a mesma coisa, mas sabem que a vida é uma loucura e se ajeitam com isso.

Logo depois, no século 17, veio a ideia do mundo como um teatro. A vida social é uma ficção, que tem suas próprias regras, e devemos contar bem a mentira para nela encontrar alguma verdade.

Daí, a mentira bifurca-se em dois caminhos:

  • Mentira "branca" (afetiva): Ligada ao amor.
  • Mentira "desonesta" (utilitária): Ligada a trabalho ou negócios, feita para ludibriar e obter vantagem.

Como no clássico "Ligações Perigosas", de Pierre Choderlos de Laclos, a mentira funciona como um jogo para descobrir o real desejo do outro. É o que Cazuza cantava em "mentiras sinceras me interessam".

A relação amorosa apenas concentra o que está disperso no cotidiano. Em alguns casos, esse jogo nos conduz à verdade; em outros, resulta apenas em comédia social e sofrimento inútil.

A verdade e a mentira na era digital

Em 1873, no ensaio "Sobre Verdade e Mentira no Sentido ExtraMoral", Friedrich Nietzsche colocou a mentira ao lado da nossa arrogância — inclusive à arrogância de crer que detemos a verdade.

Para ele, a mentira, assim como a loucura, não podem ser erradicadas da humanidade, porque o intelecto existe como instrumento de sobrevivência, não de verdade.

Nietzsche ironizava: imagine que, em algum canto remoto do universo, o intelecto humano foi inventado. Durou pouco e ninguém sentiu falta.

"A verdade é uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos... ilusões das quais se esqueceu que o são."

Ou seja: a verdade é uma mentira que envelheceu.

Mas hoje, com a linguagem digital, o inverso também é real: a mentira é uma verdade que envelheceu.

É um fato que perdeu o contexto, a autoria e a intenção original, sendo eternizado em um frame ou ângulo que convém a alguém.

A relação entre verdade e mentira é de perda e distorção.

Não que a verdade seja só convenção social ou sobrevivência. Os humanos criaram códigos compartilhados para viver em grupo e combinaram que certas metáforas seriam tidas como "verdades" — mas depois esqueceram o combinado.

É por isso que Martin Heidegger definirá a verdade como desesquecimento.

Somos como um jogador que esconde as cartas e esquece que as escondeu, passando a acreditar piamente que não as tem.

E se a dissimulação for a função original da nossa mente? Talvez sejamos animais tão exóticos que, em vez de mentir apenas para enganar predadores e sobreviver, levamos o mecanismo tão longe que passamos a dissimular para nós mesmos.

Aqui, a própria psicologia se divide:

  • De um lado, os que veem a mentira, a poesia e a metáfora como meras ilusões de nossa condição de seres de pensamento.
  • De outro, os que entendem que erros, enganos e ficções são a própria matéria-prima de nossa constituição como seres de desejo.

Essa dinâmica é ilustrada na tela de Édouard Debat-Ponsan (1898), inspirada no mito de Demócrito: "A verdade está no fundo de um poço".

Na história, a Mentira atrai a Verdade para a beira da água e sugere um banho. Quando a Verdade tira a roupa, a Mentira as rouba e sai correndo pelo mundo. A Verdade, nua e crua, corre atrás dela, mas o mundo prefere a Mentira, que agora circula bem-vestida e socialmente adequada. Quando a Verdade aparece em sua nudez, causa horror e vergonha. Por ser dura e difícil de confrontar, preferimos o conforto da água morna da Mentira.

O quadro ganha contornos nitidamente políticos quando olhamos seu contexto: foi pintado durante o Caso Dreyfus, o oficial judeu falsamente acusado de traição na França. A mentira funciona porque mobiliza a indignação e os preconceitos. Ela é rápida, acelerada e se veste com roupagem de obviedade.

Em 1906, Dreyfus foi inocentado graças à intervenção de Émile Zola e seu célebre manifesto "Eu Acuso", que escancarou a hipocrisia militar francesa.

Apesar de reabilitada, a verdade jamais foi plenamente "restaurada" porque o agir envergonhado daqueles que se desculpam por falsas acusações é sempre uma verdade difícil de engolir.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.