Como a IA já ajuda a prender de assassinos a ladrões de celular no Brasil
Os moradores reclamaram do cheiro, a polícia foi averiguar e encontrou um corpo dentro de uma mala em um bairro de Goianira (GO). Por mais de uma semana, o mistério consumiu a cidade na região metropolitana de Goiás até um sistema de inteligência artificial entrar em cena. Após rastrear o paradeiro de veículos envolvidos no crime, a polícia chegou a quatro suspeitos, presos temporariamente.
A tecnologia parece de série policial, mas foi criada por uma empresa brasileira. A startup Pax está presente em mais de 200 cidades de Goiás e Paraná, além de rodar pilotos em Bauru (SP) e Fortaleza (CE). Casos como o citado acima não são pontuais. Entre os 6 mil solucionados, nas contas da empresa, estão a recuperação de dezenas de celulares com direito à detenção do ladrão em outro estado, prisão em flagrante de motorista bêbado que matou ciclista e a localização de homem que matou a namorada e se passou por ela para pedir dinheiro a conhecidos.
Se, por um lado, a empresa atrai investimento de R$ 200 milhões de fundos norte-americanos que veem nela o futuro da segurança na era da IA, por outro, desperta a desconfiança de órgãos de controle, que chegaram a suspender contratos devido à problemas na licitação e preocupações com o uso de dados pessoais.
Segredo da investigação
Criada no início de 2025, a startup brasileira Pax desenvolveu uma plataforma de inteligência artificial desenhada para centralizar e conectar o mar de dados fragmentados que as forças de segurança pública já possuem, mas raramente conseguem cruzar com agilidade.
A plataforma reúne dados públicos e informações acessíveis por forças de segurança, como mandados de prisão, boletins de ocorrência, registros de tornozeleiras eletrônicas, históricos criminais, dados de geolocalização e imagens de câmeras urbanas.
Na prática, a ferramenta atua como assistente de investigação acionado por linguagem natural: em vez de navegar por telas complexas e bancos isolados, o policial pergunta, seja por texto ou por áudio, para a plataforma localizar padrões e suspeitos.
Nos bastidores, a organização das informações ocorre porque o sistema recorre a um tipo de IA chamado de VLMs (Modelos de Linguagem de Visão), que usa visão computacional para descrever em texto o que há em frames de vídeos e depois converte tudo em representações matemáticas (os embeddings, no jargão da área).
A partir daí, outro sistema entra em cena para criar correlações (visuais, técnicas, sociais etc) entre esses dados - são as ontologias e grafos, no termo técnico. Assim, é possível, por um lado, associar informações de situações físicas a bases externas (quais veículos com placas de outros municípios circularam por determinada rua entre 22h e 23h, por exemplo) e, por outro, buscar por detalhes mínimos (carros com adesivos na porta, capacetes de determinadas cores ou veículos com engates de reboque).
O sistema não traça previsões nem estabelece pontuação de suspeitos.
Outro módulo do sistema extrai e digere dados brutos de smartphones apreendidos, nos moldes do que faz a israelense Cellebrite. Isso permite buscas por termos ou fotos dentro de aparelhos celulares, sem que o investigador gaste dias analisando arquivos manualmente.
Os policiais não precisam ser treinados para lidar com a ferramenta, mesmo que diversas novas funções sejam adicionadas diariamente. Algumas rotinas mais recorrentes da vida policial viram botões na interface da plataforma ou ações automáticas. Veja alguns exemplos:
Mandados de prisão: policiais costumavam atualizar várias vezes por dia a página do Banco Nacional de Mandados de Prisão do CNJ em busca de novas remessas. Agora, quando sai um mandado, a plataforma localiza o endereço vinculado ao CPF e avisa em segundos o agente mais próximo, com mensagens como "mandado de prisão a três quadras de você".
Endereço provável: encontrar a residência não é fácil, porque, além de o criminoso não atualizar cadastro, um CPF pode ter diversos endereços associados. O sistema observa onde veículos usados pelo suspeito param de rodar à noite e de onde saem pela manhã, e diz aos agentes qual dos endereços fica mais perto desse ponto. Em Goiás, esse recurso viabilizou a prisão de um condenado por estupro de vulnerável com paradeiro até então desconhecido.
Comboio: veículos que andam juntos podem indicar crime encomendado ou ações mais estruturadas, como roubos a banco. O policial informa um carro, e o sistema identifica se há outros automóveis que costumam acompanhá-lo.
Placa fria: o sistema faz cruzamentos para detectar se um veículo usa placas sem registro no Detran e informar o policial de outras características que possam identificá-lo.
Prisão em 24 horas
Fundada pelo empresário cearense David Peixoto, ex-sócio da empresa de educação Arco, a Pax nasceu da soma de uma aspiração pessoal (o executivo é filho de agente penitenciária e irmão de policial), um propósito (enxergar a segurança pública como um problema a ser resolvido) e uma oportunidade (ineficiência crônica do aparato policial brasileiro).
Por meio de conexões pessoais, Peixoto articulou com o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e as forças policiais goianas um piloto na cidade de Luziânia (GO).
Segundo a empresa, em seis meses de operação do sistema, os batalhões da cidade registraram alta de 80% na resolução de casos, acompanhada de queda de 27% nos roubos, furtos e homicídios.
A dissuasão acontece. No momento em que aumenta a ação policial de tal forma que há a percepção de que, se você cometer um crime, vai ser identificado, isso se reflete na redução drástica dos crimes naquela região
David Peixoto, CEO da Pax
Hoje, o sistema da Pax funciona em duas centenas das 645 cidades de Goiás e Paraná.
Alguns casos são anedóticos. Em Paranaguá (PR), a polícia chegou a dois suspeitos de um homicídio em menos de 24 horas devido a um detalhe inesperado. Depois de os atiradores fugirem, a única pista eram a imagem de uma câmera mostrando o carro usado na fuga. Como o veículo era comum (Fiat Línea), fora roubado e tinha placa fria, as informações sobre ele não levavam a lugar nenhum. Só um ponto era distintivo: a lanterna de freio queimada. Com ele, o sistema rastreou o trajeto do carro pela cidade e chegou aos envolvidos no crime.
Rápida também foi a prisão de um suspeito de feminicídio em Aparecida de Goiás (GO) em abril. Após uma discussão com a namorada de 22 anos, o homem de 25 anos fugiu de casa em uma moto. A jovem foi encontrada morta por asfixia. Com o celular dela, ele disparou mensagens para familiares e amigos pedindo para transferirem dinheiro para a conta dele.
Acreditando ser a filha, a mãe enviou R$ 180. Desconfiados, os conhecidos da jovem acionaram a polícia, que usaram a plataforma para traçar os caminhos prováveis da moto e, em menos de 24 horas, prenderam o suspeito.
Em Goianira (GO), a busca demorou mais de uma semana. Após achar o homem morto na mala, a polícia identificou se tratar de um entregador de farmácia e encontrou uma moto registrada em seu nome, mas desaparecida. Configurou a IA para avisar caso as câmeras da cidade detectassem o veículo, o que ocorreu dias depois. Ao abordar o motociclista, descobriu que ele havia adquirido a moto ao trocá-la por um carro. Com placa e outros dados do novo automóvel na mão, a polícia o monitorou pelas câmeras até achar onde ele era estacionado e identificar as pessoas associadas ao motorista.
Ao enquadrá-las, encontrou dois capacetes do entregador morto e o celular dele, que, formatado, estava sendo usado por um dos suspeitos. As evidências levaram o quarteto ser preso.
Já a recuperação de mais três dezenas de celulares começou em Goiás e só terminou na Bahia. Durante um show de Gusttavo Lima, diversos participantes relataram furtos de smartphones. Ao acionar o "Buscar meu iPhone", uma delas viu que o destino de seu aparelho era um prédio, o que geralmente é um beco sem saída para a polícia devido à quantidade de unidades.
Os agentes passaram a buscar por carros que houvessem circulado com frequência no entorno do prédio e pelos arredores do show. Encontraram apenas um só, registrado no nome de um homem, já investigado por furtos semelhantes em outros eventos. Usando imagens de câmeras, traçaram o percurso dele até a cidade de Brumado (BA), a 1,1 mil quilômetros de distância da capital goiana. Em parceria com a polícia baiana, encontraram com o sujeito quatro celulares e mais 28 escondidos em um compartimento secreto.
Em maio, uma ação rápida localizou um motorista que atropelou um ciclista no meio da madrugada e não prestou socorro em Goiânia. Como estava escuro e o carro em alta velocidade, os policiais usaram a plataforma até encontrar imagens em que a placa fosse visível. Chegaram na casa do condutor antes de ele descartar as 15 latas de cerveja e a tempo de aplicar o teste que constatou a embriaguez. Foi preso em flagrante. Enquanto isso, o ciclista era levado para o hospital, onde morreu.
Quanto menos câmeras, melhor
Segundo Peixoto, desenvolver IA no Brasil não é fácil. Ainda que a Pax esteja em cerca de 200 cidades, já passam por seus servidores cerca de 47,5 milhões de imagens por dia -é a metade do que o Instagram processava diariamente no Brasil há dez anos.
Como a empresa não possui o dinheiro da Meta, a saída é usar a criatividade para ser eficiente. Os vídeos viram fotogramas, muitas vezes já dentro da própria câmera, e só as pequenas fotos trafegam pela rede. A imagem completa só é acessada quando precisa ser usada em alguma investigação. Isso ocorre com 0,02% do material, diz a empresa.
A mesma lógica vale para as ruas. Como o sistema se apoia fortemente em imagens, a Pax chega a analisar a mancha criminal e o fluxo de pessoas para sugerir às secretarias onde instalar ou para onde mover câmeras. A decisão final é da polícia, e Peixoto diz rejeitar o modelo chinês, que ele descreve como uma câmera para cada duas pessoas.
Segundo levantamento da LCA, feito a pedido da empresa, cada câmera conectada à IA da Pax é, em média, 102 vezes mais eficiente na resolução de casos do que os dispositivos tradicionais de filmagem, porque é capaz de extrair mais correlações mesmo com menos imagens. A comparação foi feita com o Smart Sampa, da capital paulista.
Contratar é outro gargalo, pois a competição é com os grandes laboratórios, diz o CEO. Quatro a cada dez pessoas da equipe trabalhavam no exterior. São brasileiros que toparam ganhar menos devido ao propósito da empresa. Exemplo disso é um engenheiro que se mudou de Londres para São Paulo após recusar uma proposta milionária da Anthropic.
Vigias dos vigias
Após ação civil pública do Ministério Público, a Justiça chegou a suspender temporariamente o contrato de R$ 183 milhões em Goiás, mas já liberou para prosseguir. Para a procuradoria, houve triangulação contratual (a estatal Gotech foi contratada e subcontratou a Pax sem licitação), o repasse excedeu o limite para ações do tipo (foi de 60%, e o máximo é 30%), o tratamento de dados biométricos em larga escala compromete a privacidade da população e há dependência tecnológica (a empresa não repassou o código-fonte).
Após abertura de caso no TCE-SP (Tribunal de Contas de São Paulo), a Secretaria de Segurança Pública informou a rescisão amigável de um acordo entre Prodesp e Pax. O contrato era de R$ 476 milhões. O órgão de controle também viu triangulação contratual e considerou o plano de negócios "genérico demais" para haver divisão de recursos tão grande entre a empresa e a estatal.
"Nenhuma decisão de tribunal ou de órgão de controle constatou irregularidade na atuação da empresa, e não há decisão em vigor que interfira na continuidade dos projetos", afirma a Pax, em nota.
O sistema é executado nos servidores ou na nuvem do próprio governo, o que, segundo a empresa, mantém as bases de dados da segurança pública sob custódia estatal.
A Pax dá a qualquer policial uma capacidade de investigação que antes pouca gente tinha.
Mas há barreiras para evitar abuso da plataforma. A primeira delas é a restrição de ações com base no perfil, função e hierarquia do policial. O segundo dos gargalos é o uso ser condicionado a um caso concreto, inserindo um boletim de ocorrência ou declaração por escrito de que investiga um crime. A terceira delas é cada clique ficar gravado e associado ao CPF do agente.
Reportagem
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