CEO da F1 defende que fãs não se importam se ultrapassagem é 'real'. Será?

31 de Jul de 2026 - 13:45
 0  1
CEO da F1 defende que fãs não se importam se ultrapassagem é 'real'. Será?

A grande mudança do regulamento que estreou neste ano na Fórmula 1 é o aumento da dependência da energia elétrica por parte dos carros, a ponto da potência que vem da bateria ser fundamental para termos ultrapassagens durante as provas. Até porque, o dispositivo anterior para ajudar na diferença de velocidade que gera a chance de manobras, o DRS, que era aerodinâmico, não existe mais.

Mas o CEO da Fórmula 1, Stefano Domenicali, defende que a transmissão não precisa informar o nível de bateria de um piloto em relação ao outro quando eles estão disputando posição. E citou até uma conversa com o criador de Guerra nas Estrelas, George Lucas, para justificar seu ponto de vista.

Perguntado se a informação sobre as baterias não seria um contexto importante para os torcedores entenderem o que está acontecendo na pista, Domenicali disse:

A verdade é exatamente o oposto, porque ninguém está interessado em como você pilota o seu carro.

As pessoas querem saber se você está ultrapassando ou não. Essa é a grande maioria do público. Concordo que algumas pessoas focam nesse aspecto, que é muito importante. É como quando se acionava o DRS: as pessoas não estavam interessadas na causa específica da ultrapassagem.

Tive uma conversa incrível e interessante com George Lucas. Ele estava na Hungria e me deu uma visão fantástica sobre como os novos fãs acompanham a Fórmula 1; ele nos ofereceu uma perspectiva valiosa sobre como podemos realmente simplificar as coisas, pois os novos fãs não compreendem a realidade dos bastidores. Eles ficam fascinados pelo fato de haver muita ação.

Sem dúvida, é preciso que aqueles que se concentram nesses detalhes técnicos tenham as informações corretas, mas a grande maioria das pessoas — acredite em mim — só quer ver o que acontece na pista. Elas não estão interessadas no ângulo de abertura do acelerador ou na pressão de frenagem durante uma ultrapassagem.

Se você pensar em uma ultrapassagem incrível entre Max [Verstappen] e Lewis [Hamilton] na Curva 1, na Hungria, aquilo é uma obra de arte que as pessoas querem ver, algo que está diretamente ligado à qualidade dos pilotos.

No fim das contas, trata-se de uma estratégia que o piloto utiliza para maximizar o desempenho do carro, seja na frenagem ou na potência de aceleração gerada pela eletrificação. É isso que está acontecendo. Claro, para um nicho de nossos fãs, esses dados são relevantes e, naturalmente, estão disponíveis. Mas, como eu disse, para a grande maioria, é essa a informação que chega.
Stefano Domenicali, CEO da F1

Temporada começou com informações sobre bateria disponíveis

O curioso é que a posição da categoria mudou ao longo da temporada. Nas primeiras provas, a informação do estado de carga da bateria de cada piloto estava disponível, juntamente de outras que ajudam justamente a entender como o carro está sendo pilotado - pressão nos pedais de aceleração e frenagem, velocidade, marchas. Quando havia DRS, a tela também mostrava se ele estava sendo acionado ou não.

Por que somente o estado de carga, de uma hora para a outra, não é mais interessante para o público? Por que não dar toda a informação e deixar para que o espectador selecione o quão profundamente ele quer entender o que está acontecendo?

Enquanto o DRS era algo possível de ser visto fisicamente - a asa estava aberta ou não - o estado de carga da bateria não é. E se tornou conveniente para a F1 esconder essa informação para que ela não entre na avaliação do espectador sobre o quão realmente espetacular é aquela manobra.

A ultrapassagem citada por Domenicali foi mesmo incrível, mas também houve um elemento de bateria ali. O próprio Verstappen, quando recebeu recentemente um prêmio pela melhor ultrapassagem do mês, por uma manobra, novamente, em Lewis Hamilton, no GP do Canadá, disse. "Eu só apertei meu botão e tinha mais potência que Lewis."

Ninguém tem a obrigação de assistir qualquer esporte de maneira analítica, tentando entender exatamente o que faz um atleta ou equipe melhor do que o outro. Domenicali está certo em dizer que muitas pessoas só querem ser entretidas, estão em seu momento de lazer, e não há nada errado nisso.

Mas, ao contrário do que ele diz, a informação sobre o estado de carga das baterias não está disponível. Nem ao vivo, nem quando você assina o aplicativo da F1 - algo que é pensado justamente para os fãs mais hardcore. Por que será?

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.