Brasil 'dormiu no ponto' ao não negociar tarifas antes, diz ex-secretário
O Brasil "dormiu no ponto" ao não negociar com os Estados Unidos antes do prazo para a decisão sobre tarifas, avaliou Lucas Ferraz, sócio da Global Intelligence Analytics e ex-secretário de Comércio Exterior, no Mercado Aberto, do Canal UOL.
A discussão ganhou urgência com a proximidade de 15 de julho, data citada no programa como limite para o presidente Donald Trump decidir se aplica tarifa de 25% ao Brasil. Ferraz disse ver pouca chance de Washington desistir da taxação e apontou alternativas.
Desde 2 de abril de 2025, quando foi anunciado o chamado Liberation Day, o Brasil teve muito tempo para negociar com os Estados Unidos. Naquela época, o Brasil tinha ficado com a tarifa de 10%, que estava no chamado nível basal. O Brasil estava muito bem relativamente aos seus pares. A União Europeia tinha ficado com a tarifa de 20%, a China tinha ficado com a tarifa acima de 30%, o Brasil estava lá com 10%. E o governo brasileiro dormiu no ponto.
Lucas Ferraz
Para o ex-secretário, o governo brasileiro tenta expor aos americanos os "malefícios" de tarifas, mas o Brasil também mantém alíquotas altas em setores como automóveis e máquinas. Ele disse que isso pesa na relação bilateral.
O governo brasileiro vai numa linha muito interessante de expor ao governo americano os malefícios causados por tarifa, seja a questão da disrupção de cadeias de suprimentos internacionais, de criação de ineficiências operacionais na indústria americana e, em última instância, prejudicando o próprio consumidor. Mas o nosso país também é muito pródigo em impor tarifas.
Lucas Ferraz
Ferraz afirmou ser "cético" quanto à hipótese de os EUA desistirem de aplicar as tarifas. Segundo ele, além dos 25% discutidos, há uma segunda investigação que poderia elevar a carga total, atingindo parte relevante das exportações brasileiras ao mercado americano.
Confesso que sou um tanto cético em relação à possibilidade dos Estados Unidos simplesmente desistirem de aplicar essas tarifas, tanto da primeira investigação de 25%, quanto da segunda investigação que adicionaria mais 12,5%, totalizando 37,5%.
Lucas Ferraz
Ao comentar o argumento do governo Lula de que a tarifa média cobrada sobre produtos americanos seria de 2,7%, ele disse que o número "não é falso", mas "distorcido" por refletir o que de fato é importado. Para Ferraz, a média simples mostraria uma tarifa maior.
Esse dado de 2,7% não é um dado falso, ele é um dado distorcido, porque você considera a chamada tarifa efetiva, que é a arrecadação das tarifas sobre o valor importado. Quando você cobra tarifas muito altas, por exemplo, sobre automóvel, que é 35%, a tendência é que você não compre nada que tem tarifa muito alta dos Estados Unidos. Se a gente olhar a média simples, a nossa média tarifária em relação aos produtos americanos está acima de 12%.
Lucas Ferraz
Como alternativa, ele disse que o empresariado brasileiro tenta ampliar a lista de isenções junto ao setor privado norte-americano. E defendeu que o Brasil deveria ter aberto negociação para dar mais acesso ao mercado brasileiro, como, segundo ele, fizeram Japão, Coreia do Sul, Índia, União Europeia, Reino Unido e Argentina.
O que o governo americano espera é mais acesso ao mercado brasileiro. O governo americano quer uma negociação bilateral, quer um acordo preferencial, e se for acordo preferencial, o governo brasileiro pode reduzir tarifa apenas para os Estados Unidos, como os países fizeram.
Lucas Ferraz
Questionado sobre a trava do Mercosul, Ferraz disse que haveria instrumentos para avançar e chegou a sugerir uma coordenação do bloco para um acordo preferencial com os EUA. Na visão dele, faltou iniciativa do Brasil para liderar esse movimento.
O Mercado Aberto vai ao ar de segunda a sexta-feira no UOL às 8h, com apresentação de Amanda Klein, antecipando os principais movimentos do mercado financeiro.
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