Após sofrimento mental na família, psicóloga cria IA de apoio emocional
Aos 16 anos, Ana Claudia Zani Ramos foi socorrida após uma tentativa de suicídio e ouviu que aquela situação não era novidade em sua família. Segundo ela, diferentes gerações de mulheres conviviam com depressão, pensamentos suicidas e episódios de sofrimento mental sobre os quais pouco se conversava. Em casa, a repetição dessas histórias era descrita como uma "maldição".
A explicação não lhe bastou. Ana Claudia começou a buscar nos livros e na psicoterapia respostas para o que acontecia com ela e suas familiares. Anos depois, essa procura a levou à formação em psicologia e aos estudos em neurociência. "Eu fui estudando para sobreviver na minha família, para achar as respostas e ter a explicação, para não sucumbir", conta.
Hoje, aos 57 anos, a psicóloga e neurocientista, moradora de São Paulo, é cocriadora da EITA, uma inteligência artificial de apoio emocional acessada pelo WhatsApp. Desenvolvida com o sócio Clésio Souza, a ferramenta utiliza perguntas para ajudar o usuário a observar suas reações e pensar sobre o que fazer diante de conflitos. Os fundadores apresentam o serviço como um treino de autopercepção, com foco na prevenção.
Problema de gerações
Ao reconstruir o passado familiar, Ana Claudia menciona avó, bisavó, tataravó e tia. As lembranças incluem tentativas de suicídio, mortes e internações psiquiátricas. Segundo ela, uma das familiares tinha transtorno bipolar, mas não recebia tratamento adequado. "Meu pai mesmo nunca entendeu quando minha mãe ficava de cama. Ele dizia 'eu faço tudo que posso e não adianta'", destaca.
O silêncio e a dificuldade de diagnóstico dificultaram a compreensão do que estava acontecendo. Mais do que uma história distante, os episódios alimentavam seu receio de passar pelas mesmas situações. Depois de ser socorrida na adolescência, ela decidiu procurar formas de cuidar de si. "Eu pensei que agora vou ficar é viva", relembra.
A psicoterapia entrou em sua vida nesse período, em um contexto também marcado por cobranças familiares sobre seu peso. O acompanhamento, inicialmente previsto em um pacote de quatro sessões associado a um regime alimentar, se prolongou. Ana Claudia conta que permaneceu com a mesma psicóloga por cerca de 20 anos.
Ela associa o histórico familiar a uma alteração genética que, anos atrás, ainda não era tão estudada. "Nunca foi falado [qual gene era]. Até porque naquela época isso era um tabu. Não era normal falar de doença emocional", afirma Ana Claudia. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o comportamento suicida envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.
Criação da ferramenta
Antes de cursar psicologia, Ana Claudia ingressou em administração nos anos 1980. Também passou por cursos de coaching, mas diz ter encontrado limites em uma abordagem concentrada no cumprimento de objetivos. Aos 32 anos, começou a formação em psicologia e, posteriormente, estudou neurociência.
A pergunta que a acompanhava era como reconhecer as próprias reações e lidar com elas. Dessa trajetória surgiu o método que hoje orienta a EITA: estimular a pessoa a perceber o que sente, examinar sua interpretação de uma situação e considerar alternativas antes de agir.
"Mas eu não fiz isso para vender e sim para sobreviver", afirma. Mais tarde, a experiência pessoal e o trabalho com outras pessoas deram origem à proposta de transformar esse processo em uma ferramenta acessível pelo celular.
A ideia de levar o método à inteligência artificial começou a ser desenvolvida em 2024, segundo Clésio Souza, 33, cofundador da empresa e também morador de São Paulo. "As pessoas já estão usando a IA para aconselhamento e desabafo, mas elas são generalistas", diz. A proposta dos sócios foi direcionar esse uso para conversas estruturadas em torno da percepção das emoções. "Não é terapia com IA", ressalta Souza.
Perguntas para interromper o impulso
Na prática, o usuário pode enviar uma mensagem de texto ou um áudio sobre o que está vivendo. Uma discussão familiar, uma dificuldade profissional ou um momento de raiva, por exemplo. Disponível 24 horas por dia, a EITA responde ao relato e faz perguntas para explorar a situação.
Em vez de encerrar a conversa com uma orientação, o sistema procura estimular a reflexão sobre o que incomoda, como a pessoa reagiu e quais ações estão ao seu alcance. "A EITA vai te acolher e depois vai te fazer uma pergunta", resume Souza.
Os criadores defendem o uso durante situações concretas, quando ainda há tempo de reconsiderar uma reação. O objetivo declarado é que esse exercício ajude o usuário a reconhecer padrões e, progressivamente, lidar com suas emoções com mais autonomia.
Segundo a empresa, a ferramenta não realiza diagnósticos nem prescreve tratamentos. Os responsáveis também afirmam que ela identifica sinais de risco nas conversas e orienta a busca por ajuda. Essa função, porém, não equivale a uma avaliação clínica nem garante a identificação de todas as situações de perigo.
A plataforma informa ainda que adota mecanismos para desestimular dependência, como incentivar o contato com pessoas próximas e restringir o uso quando necessário. A existência desses recursos, por si só, não demonstra sua eficácia na prevenção de uso excessivo.
O que muda em relação às IAs generalistas
A diferença apresentada pelos fundadores está no propósito da conversa e nas instruções que orientam as respostas. Enquanto ferramentas generalistas atendem a pedidos de diferentes áreas, a EITA foi configurada para aplicar o método de Ana Claudia ao diálogo sobre emoções e conflitos.
Souza afirma que a equipe trabalhou na forma como o sistema responde e utiliza o histórico das interações. A intenção é dar continuidade às conversas e considerar informações compartilhadas anteriormente, em vez de tratar cada relato como um episódio isolado. Esse direcionamento não significa, por si só, que a ferramenta seja mais precisa ou mais segura do que outras IAs.
A distinção também importa para interpretar a palavra "prevenção", recorrente nas falas dos criadores da plataforma. Segundo eles, ajudar alguém a refletir sobre uma discussão é uma proposta diferente de demonstrar redução do risco de depressão, ansiedade ou comportamento suicida.
Como foi usar a EITA
Durante a reportagem, simulei situações de brigas, estresse momentâneo e conflitos profissionais e familiares. Nas respostas observadas, a ferramenta sugeriu ações e perguntas que estimulavam a reflexão antes de uma decisão impulsiva. Em situações apresentadas como de risco, orientou a procura por ajuda.
Em um dos exemplos, descrevi um ambiente de trabalho com assédio moral e perguntei se deveria procurar outro emprego. A resposta evitou reduzir a decisão a permanecer ou pedir demissão imediatamente: "Vale, sim, considerar outro trabalho. Mas você não precisa decidir entre ficar sofrendo e pedir demissão amanhã".
Na sequência, a EITA sugeriu atualizar o currículo, retomar contatos e buscar vagas enquanto preservava a renda. Também propôs avaliar por quanto tempo seria possível se manter sem salário e procurar orientação profissional caso o trabalho estivesse afetando o sono, o corpo ou as atividades diárias.
A conversa terminou com uma pergunta: "O que pesa mais hoje: o ambiente estar insustentável ou o medo de não encontrar algo melhor?". O movimento exemplifica a proposta descrita pelos fundadores: oferecer uma resposta inicial e devolver ao usuário uma questão para examinar.
Houve uma pequena demora nas respostas, perceptível para uma ferramenta que propõe apoio no momento do conflito. O histórico ficou disponível na conversa, permitindo retomar as mensagens anteriores. Essa continuidade também torna relevante esclarecer como os relatos são armazenados, utilizados e protegidos.
Minha impressão foi a de um recurso para desabafar e organizar pensamentos entre sessões de terapia, quando uma situação não pode esperar até o próximo encontro.