Vão te substituir por uma IA? Aqui no Brasil, o risco é outro

10 de Ago de 2026 - 03:45
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Vão te substituir por uma IA? Aqui no Brasil, o risco é outro

A pergunta que muita gente anda se fazendo é "quando a inteligência artificial vai me substituir?". Se você trabalha no Brasil, o novo relatório do Banco Mundial aponta que esse apocalipse não vai acontecer tão rápido. Pelo menos não tão cedo quanto acontece lá fora.

O estudo publicado nesta semana mostra que a automação por IA ameaça quase três vezes mais os empregos dos países ricos do que os nossos. Nas economias mais desenvolvidas, 14,2% das vagas de emprego já estão expostas à IA. Enquanto isso, nas de baixa e média renda, esse número cai para 4,5%.

Só que o motivo não é tão animador. A automação deve acontecer mais rápido e com maior magnitude nos países ricos porque lá o trabalho se concentra em atividades de escritório, de programação a finanças, exatamente as áreas em que a IA avança mais rápido.

Por aqui, boa parte dos nossos empregos ainda estão numa camada em que automatizar sai caro demais para compensar.

Mas é importante entendermos que esse alívio temporário não significa uma vantagem para nós, mas apenas diagnostica o nosso atraso. E nesse ponto tem um segundo dado no relatório que traz uma outra dimensão para reorganizar a conversa sobre trabalho no país.

A gente conversa muito que um dos problemas do Brasil é a sua baixa produtividade. Nesse sentido, o estudo mostra que 16,2% dos empregos por aqui poderiam ter a sua produtividade ampliada pela IA. Esse é um patamar próximo ao dos países ricos, que fica em torno de 18,7%.

Ou seja, o que deveria tirar nosso sono não é apenas a possibilidade de demissão em massa, mas também o risco de deixarmos passar (mais uma vez) o bonde tecnológico que poderia transformar o nosso mercado de trabalho e impulsionar a economia brasileira.

E se a oportunidade está aí, fica então a pergunta sobre o que devemos fazer para agarrá-las. O Banco Mundial oferece uma resposta que já rendeu polêmica: os países em desenvolvimento deveriam parar de gastar bilhões tentando criar o seu próprio ChatGPT.

Eles apresentam um argumento dividido em três tempos. Primeiro, os países deveriam adotar as ferramentas que já existem; depois, adaptá-las à realidade local e, só depois de ter um mercado mais maduro, tentar avançar no desenvolvimento de modelos de fronteira.

Eu comentei nas minhas redes sociais que não achava essa recomendação ruim. Foi o suficiente para receber críticas, como se eu fosse um entreguista. Basicamente, uma turma entende que o Banco Mundial está querendo travar o desenvolvimento das economias médias.

Dependendo do recorte, isso pode ser verdade. Mas não acho que esse seja o caso no desenvolvimento da IA, e vou explicar o motivo. Treinar uma do IA do zero custa bilhões e quase nenhum país tem a infraestrutura mínima para conseguir fazê-lo. Enquanto isso, existe um verdadeiro cardápio de modelos abertos que podem ser usados e melhorados. Para ter soberania, não precisamos reinventar a roda - podemos apenas melhorá-la no primeiro momento.

Os modelos chineses mais recentes são abertos, então dá para construir em cima deles, cortar o custo absurdo de treinar um modelo do zero e adaptar tudo à nossa realidade. Além de tudo, podemos rodar esses modelos em uma infraestrutura local sem virar refém de uma tecnologia fechada.

Isso não resolve o problema, claro, mas é uma forma de encurtar o caminho. Dinheiro e tempo são curtíssimos, então é preciso priorizar. A soberania digital deve ser uma pauta prioritária, mas bancar cada camada sozinho custa caro. Defendo que devemos investir pesado mais para criar uma infraestrutura computacional robusta do que tentar avançar somente no treinamento de modelos de fronteira.

Isso também não pode servir de desculpa para que abandonemos a pesquisa e não tenhamos a ambição de avançar no treinamento dos modelos mais avançados no longo prazo. Até porque nada garante que a própria China venha a fechar seus modelos mais para frente.

Mas o fato é que a IA está se espalhando mais rápido do que qualquer tecnologia de propósito geral que veio antes. O vapor levou cerca de oitenta anos para alcançar os países mais pobres, a internet levou vinte. O ChatGPT levou menos de um ano para que metade do tráfego global viesse de países de renda média.

Se deixarmos o trem da IA passar, vamos perder algo que pode ser mais transformador do que a Revolução Industrial. E a própria ONU alerta que se os países não promoverem a adoção adequada da tecnologia, para transformar seus mercados, podemos viver uma próxima Grande Divergência.

O medo mais comum é o de que a IA venha tomar o nosso emprego. O pavor faz sentimento e precisamos debater e criar políticas para evitar um colapso laboral. Só que ao mesmo tempo não podemos perder de vista que se o Brasil não capturar os ganhos que IA tem potencial de trazer, as consequências serão ainda mais desastrosas.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.