Todo mundo mente, mas elas mentem de um jeito bem diferente
Este é o episódio 3 da série sobre mentira. Leia aqui o , e o
Episódio 3: Todo mundo mente, mas de jeitos diferentes
Se você se acha sincerão e sem papas na língua, acaba de ser cair para a segunda divisão do clube dos que têm compromisso com a verdade: nós contamos cerca de 2,92 mentiras por dia.
Quem mostrou isso foi Robert Feldman no estudo publicado Journal of Applied Psychology, que traz um experimento: dois estranhos conversam por dez minutos e garantem que não mentiram. Mas quando assistem à gravação da conversa, todos percebem que deixaram escapar ao menos uma mentira.
Existem as mentiras criadas por pesquisas mentirosas e as mentiras patológicas —na psiquiatria, chamadas de transtornos factícios (que têm a mentira como sintoma principal):
- Síndrome de Ganser: o sujeito mente, fingindo loucura ou incapacidade para escapar de julgamento ou alistamento militar.
- Síndrome de Münchausen (sim, existe mesmo): o sujeito simula sintomas para conseguir atenção ou cuidado médico. Quando ocorre "por procuração", mães causam danos a seus filhos (por exemplo, fazem com que bebês ingiram água sanitária) para que sejam internados e tratados.
- Histeria: Rótulo antigo para mulheres chamadas de mentirosas, mas que, na verdade, enfrentam em quadro de "teatro involuntário". O personagem se apossa do sujeito por identificação, deixando-o representar "sem se dar conta disso".
Todas respondem bem à psicoterapia, porque esse tipo de sintoma, em geral, nasce de uma patologia nas gramáticas do afeto: o sujeito acredita que sua autenticidade e sinceridade não são dignas de amor ou consideração quando contrariam a expectativa do outro.
Problema: se não sabemos que estamos mentindo, continua sendo uma mentira?
A mentira tem gênero?
Mas as mentiras mais comuns e difíceis de desmontar estão nos preconceitos, estereótipos e ideologias. Boa parte da psicologia clássica baseia-se em "pessoas-tipo", que agrupam perfis e tendências de forma abrangente e genérica. Isso significa verdadeiras mentiras e verdades mentirosas, porque os grupos de controle não representam a diversidade real da população —nem local, nem regional e muito menos global.
As pesquisas estão impregnadas de mentiras sobre raça, gênero, idade e classe.
Por isso, convém examinar quais preconceitos reproduzimos quando tentamos catalogar a mentira contada por homens e mulheres.
No homem, a mentira costuma ser utilitária e defensiva. Baseia-se em ganhos calculáveis de risco e benefício, funcionando como mecanismo de inclusão em grupo ou construção de imagem. É o famoso "contar vantagem". O homem mente porque acha que será mais respeitado e desejado, como quem possui algo.
A história do "peguei o peixe grande" não serve apenas para ele se sentir o maioral. É defesa de quem tem medo de ser visto como quem não pescou nada. Temendo não ser considerado "suficientemente homem", ele se adianta e performa o super-homem. Convenhamos, toda mulher sabe disso (a não ser que esteja apaixonada).
Para o homem, essa exposição é um risco. É uma insígnia de virilidade que ele coloca abertamente em confronto com o outro. "Colocar o pau na mesa" é arriscar-se a ter o dito-cujo ridicularizado, medido, comparado, confrontado e posto sob suspeita.
Já a mentira feminina tem outra cara — o que não as impede de aprender rapidamente como mentir "masculinamente", enquanto eles ainda tenham dificuldades básicas em assimilar a tecnologia feminina (e costumam reduzi-la a cinismo).
Dizem que a mentira feminina é muito mais letal e desesperadora, porque não é instrumental: é gratuita e desejante. Mentem para descobrir o que o outro ou outra quer. Mentem por solidariedade. Mentem sem saber por que mentem.
Ignorando os riscos, é uma mentira ofensiva e não defensiva. Enquanto o homem mente sobre ter, a mulher mente sobre ser.
Mas é o discurso machista que torna a mentira mais complexa, ambígua e melíflua quando sai da boca de uma mulher. Desde a Inquisição, as mulheres eram colocadas como aquelas que seduziam, provocavam e até criavam desejo nos outros. E aqui temos que questionar o monopólio histórico dos homens sobre o que é mentira.
Assim como eles inventaram a Inquisição, eles inventaram o que significa mentir: dizer a alguém algo que é contrário ao que se pensa, percebe ou acredita. Os inquisidores sempre sabem o que pensam, querem ou defendem —ao contrário de nós, que, claramente, pensamos, queremos e acreditamos em coisas diferentes em momentos diferentes e com pessoas diferentes.
Daí vem a diferença da mentira feminina, rotulada de dissimulação, omissão, malícia, perfídia, veneno.
Como o veneno, não age na hora; precisa se espalhar, causando danos progressivos e generalizados, sem que se saiba exatamente como e por onde ele entrou. Quando nos damos conta, fomos tomados por inteiro.
Ao contrário do "peixe grande", ela escapa pelos dedos e não pode ser pega com uma afirmação direta, sujeita a contraprova ou evidência. Ela acontece naquele encontro específico, com aquela pessoa e naquela constelação única de sentimentos. O que foi dito continha uma verdade local e intransferível, tão efêmera que é difícil de ser preservada ou reapresentada.
O valor real de uma bolsa, a fofoca sobre a vizinha ou a confiança que uma amiga tem na outra. Os antônimos da verdade (inexatidão, irrealidade e ilusão) aparecem para descobrir o desejo do outro —ou dela mesma.
E vale notar: a mentira de uma mulher para outra é completamente diferente da mentira para um homem (ou de um homem para uma mulher). Há também uma variação significativa quando se passa do registro heterossexual para o homossexual.
A mentira para um homem costuma testar se ele, de fato, quer, ama ou é (uma reafirmação em relação a ela).
A mentira para outra mulher é uma forma de descobrir o que ela quer sem dizer o que se quer. É um blefe.
Se os campeonatos de pôquer e truco não fossem algo tão infantilmente masculino, só haveria campeãs.
Quando aplicamos seis tipos de mentira (omissão, distorção, meia-verdade, mentira flagrante, mentira piedosa e mentira fracassada) a cenários de relacionamento, temos mais enganos entre héteros —e isso tem menos a ver com a orientação e mais com fatores estruturais das relações que costumam ser menos menos normativa e com diferentes graus de controle entre homossexuais ou bissexuais.
Mulheres tendem a mentir para lisonjear o senso de self do parceiro e minimizar interesse em outros homens.
Casais do mesmo sexo tendem a ser mais honestos entre si e mais propensos a usar afeto e humor ao negociar tensões da relação.
A única mentira que é estruturalmente específica neste caso é a que oculta identidade (ficar no armário) —uma mentira por omissão ou falsificação de informação, dirigida ao mundo externo, e não ao parceiro, e motivada por custo social e psíquico ou segurança.
Isso não é um traço de caráter, mas é uma resposta racional à hostilidade do ambiente. Em contextos seguros esta a previsão se dissolve.
Feldman, R.S., Forrest, J.A., & Happ, B.R. (2002.) Self-presentation and verbal deception: Do self-presenters lie more? Basic and Applied Social Psychology, 24, 163-170.
Opinião
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