Telecirurgia transporta médico por 2.700 km e testa expansão no SUS

24 de Jul de 2026 - 06:15
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Telecirurgia transporta médico por 2.700 km e testa expansão no SUS

Um paciente com câncer de reto estava no centro cirúrgico do Hospital de Amor da Amazônia, em Porto Velho (Rondônia). Parte da equipe que comandou a operação estava em Barretos, no interior de São Paulo, a cerca de 2.700 quilômetros. Em 30 de junho, as duas unidades realizaram o que o Hospital de Amor apresentou como a primeira telecirurgia robótica de longa distância do SUS.

A operação retirou parte do reto e do cólon sigmoide do paciente. Os movimentos feitos pelos cirurgiões no console em Barretos foram transmitidos ao robô Toumai, instalado em Porto Velho. Uma equipe completa permaneceu ao lado do paciente.

Eder Mattos, gerente nacional de Educação em Cirurgia Robótica da Hospcom, resume o ganho. "O médico não precisou sair de Barretos para ir para Porto Velho para realizar um procedimento complexo." O robô usado no procedimento, o Toumai, é produzido na China pela MicroPort MedBot e distribuído no Brasil pela Hospcom.

A telecirurgia transporta o comando do especialista. Todo o restante precisa estar disponível onde o paciente está. O hospital de alta complexidade, o robô, a energia estável, a conexão redundante, a proteção contra ataques cibernéticos, o anestesista, a enfermagem e os cirurgiões preparados para assumir a operação se a máquina ou a rede falharem ficam ao lado do paciente.

Essas exigências constam da Resolução nº 2.311, publicada pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) em 2022. A norma determina que o cirurgião remoto tenha Registro de Qualificação de Especialista na área do procedimento e capacitação específica. O médico ao lado do paciente responde pela assistência direta e deve conseguir continuar a cirurgia em uma emergência. O comando pode ser remoto. A responsabilidade clínica continua ao lado do paciente.

No procedimento entre Barretos e Porto Velho, os médicos alternaram o controle da plataforma. "A troca de comando dura cinco segundos. Então, não interfere em tempo", afirma Gabriel Alencar Coelho, CEO do Grupo Hospcom. "O procedimento reduz custos, mas, acima de tudo, escala a questão da velocidade na formação de médicos", diz ele.

Pelas regras do CFM, o treinamento básico inclui o acompanhamento presencial de dez cirurgias, pelo menos 20 horas em simulador e duas horas de simulação no console. Na etapa avançada, o médico precisa realizar ao menos dez operações como cirurgião principal, sob supervisão de um instrutor. Para ensinar outros profissionais, deve ter feito 50 procedimentos como responsável pelo robô.

As exigências favorecem regiões que já dispõem de um serviço cirúrgico estruturado e precisam acessar um especialista escasso ou acelerar a formação da equipe local. Um município sem hospital de alta complexidade, profissionais treinados e suporte técnico continua fora do alcance.

A NR-1 não regulamenta a telecirurgia, mas alcança as condições in que médicos, enfermeiros, anestesistas, engenheiros clínicos e profissionais de tecnologia trabalham. Desde 26 de maio de 2026, a norma exige que os empregadores incluam os fatores de risco psicossocial relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais.

Uma operação remota distribui tarefas entre duas unidades e exige comunicação precisa, resposta rápida e funções definidas. A avaliação dos riscos precisa considerar a carga mental, as jornadas das equipes e o preparo para assumir o procedimento durante uma falha.

Ao analisar jornadas prolongadas em termos gerais, o médico Hendrick Hoyler, idealizador da MOMA.I, chama a atenção para o efeito da fadiga. "Quando o trabalhador permanece muitos dias consecutivos em jornadas longas, o organismo tem menos tempo para se recuperar. Isso favorece o surgimento de fadiga crônica, dores musculoesqueléticas, estresse e aumenta o risco de transtornos como ansiedade e burnout. Além disso, o cansaço também eleva a probabilidade de acidentes de trabalho."

A conta depende de escala

Em julho de 2026, o Ministério da Saúde incluiu a prostatectomia radical assistida por robô na tabela de procedimentos do SUS. A medida é restrita à cirurgia de câncer de próstata e, portanto, não cobre o procedimento intestinal realizado em Porto Velho. A decisão mostra que a incorporação ocorrerá por procedimento e em hospitais habilitados.

A implantação exige hospitais preparados, equipes treinadas, manutenção e volume de cirurgias. "Se colocar robô no serviço público e ele não for bem implementado, esse projeto vai morrer", afirma Coelho. E acrescenta: "A implementação dos robôs deve ser acompanhada."

O relatório final da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) registrou a proposta de implantação gradual, concentração inicial em centros de alta complexidade, certificação dos profissionais e prioridade para vazios assistenciais. A análise aponta que a condição central é que a economia depende do volume de uso e das despesas que entram na conta.

Mattos sustenta que a redução do período de hospitalização compensa parte do investimento. "Quando você diminui o tempo de cirurgia, diminui o tempo de permanência do paciente no hospital. Isso é redução para o governo."

O relatório da Conitec mostra que essa economia depende das premissas. No modelo apresentado à comissão, a cirurgia robótica começaria a reduzir despesas a partir de 244 procedimentos por ano, mas o cálculo usava um fator de correção de custos de 2,8.

A análise técnica alertou que esse ajuste poderia favorecer a tecnologia. Sem ele, todos os cenários simulados, inclusive o de 400 cirurgias por ano, aumentavam o impacto orçamentário ao longo de cinco anos.

Menor tempo de internação não produz economia automática. O custo por paciente depende da ocupação das salas, do número de especialidades atendidas, do preço dos instrumentos, do contrato de manutenção e do tempo em que o robô permanece disponível.

Reportagem

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