Escola de drones: por que o PCC não ataca São Paulo pelo ar
Por Carlos Eduardo da Silva
26/08/2026 às 05:00
- Dê de presente
Segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro, dezenas de pessoas entraram em fila, no início de agosto, para assistir a uma aula em uma quadra do Complexo da Penha. O tema era a operação de drones, e os instrutores, conforme a investigação, eram traficantes do próprio complexo. Nos mesmos dias, circularam vídeos de granadas lançadas contra carros, telhados e uma festa de rua.
Autoridades policiais do Rio relataram que a convocação para o primeiro desses encontros circulou abertamente nas redes sociais e que a aula chegou a ser adiada por causa da chuva, mesmo com os participantes já reunidos. Em fase anterior, a competência técnica do Comando Vermelho vinha de fora: a Polícia Federal prendeu, dentro de um quartel em Niterói, um cabo da Marinha apontado como responsável por desenvolver os dispositivos de acoplamento e treinar criminosos na operação dos equipamentos. Aquele era um fornecedor externo, e prendê-lo interrompia a cadeia. Uma turma que se remarca depois da chuva forma dezenas de operadores por vez e, a partir deste momento, o especialista que introduziu a técnica deixa de ser indispensável.
O segundo indicador está no chão. Ruas inteiras foram cobertas no Complexo do Alemão e no Rebu, em Senador Camará. O coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), criada este ano pela Polícia Civil, atribui as estruturas à tentativa de barrar artefatos lançados por facções rivais e observa que elas também prejudicam o monitoramento policial. Ao cobrir vias públicas para reduzir os ataques, a facção altera unilateralmente um espaço de uso coletivo.
As denúncias acompanham a mudança. O Disque Denúncia recebeu o primeiro relato de drone com granada em 2023 e quatro ocorrências em 2024; contagens posteriores chegaram a 73 denúncias envolvendo traficantes e 14 envolvendo milicianos.
A Polícia Civil investiga hoje 18 ocorrências. No ataque a Vargem Grande, o equipamento decolou de uma cobertura alugada no Recreio dos Bandeirantes, a dois quilômetros do alvo. Os ataques são um fato documentado, com perícia e prisões em andamento. O curso permanece como alegação policial sustentada por registro visual, e a suspeita de treinamento na guerra da Ucrânia segue como avaliação de inteligência.
Em São Paulo, o quadro é outro: o PCC opera drones há anos, em duas frentes documentadas: a entrega de celulares e outros materiais a presos e a vigilância de alvos. Penitenciárias brasileiras passaram a instalar equipamentos antidrone. Investigações do Ministério Público de São Paulo apontaram o uso de drones e de geolocalização pelo setor da organização encarregado de monitorar autoridades, entre elas um promotor de Justiça e um diretor de presídio. O acesso ao equipamento e o domínio da operação estão demonstrados. Não há, até aqui, registro público de ataque com explosivo lançado por drone atribuído ao PCC em São Paulo.
Passei 23 anos investigando o crime organizado em São Paulo, em unidades especializadas da Polícia Civil. Nas escutas, matar dependia de autorização, e pedir autorização levava muito tempo. Operação que atraísse resposta policial de grande porte gerava prejuízo, e prejuízo, naquela estrutura, é falta grave. Uma organização assim não entrega a decisão sobre o uso de explosivo a um soldado com controle remoto em cima de uma laje.
A diferença está no modo como cada facção governa o que controla. O Comando Vermelho sustenta o poder por meio da exclusão armada do território: manda quem consegue contestar a entrada do rival e impor custo à incursão policial. O drone estende esse perímetro para cima e resolve um problema concreto: atingir a posição inimiga sem atravessar a rua dominada por terceiros. O PCC organiza mercados, arbitra dívidas e mantém mecanismos de cobrança. Tudo isso depende da continuidade dos negócios, e uma granada lançada sobre uma festa de rua produz vítimas aleatórias, atrai uma operação policial de grande porte e desorganiza o comércio que financia a estrutura.
As duas organizações já empregam drones para vigilância e transporte. No Rio, os ataques deixam feridos e produzem imagens que mobilizam uma resposta policial imediata. Em São Paulo, os usos documentados do PCC permanecem, até aqui, ligados à logística prisional e ao monitoramento de alvos.
A parte mais visível da resposta recente segue a imagem do Rio: detecção, bloqueio de sinal, coordenadoria especializada, compra de equipamento antidrone. Contramedidas técnicas atuam sobre o vetor aéreo sem necessariamente alcançar a estrutura logística e econômica que o emprega.
A regulação do espaço aéreo tem um limite parecido. Um marco novo entrou em vigor entre junho e julho deste ano, com o RBAC 100, da Anac, e a ICA 100-40, do Decea, que somam o cadastro do equipamento no Sisant, a autorização de voo no Sarpas e a homologação na Anatel.
Esse circuito garante rastreabilidade quando o operador e a aeronave ingressam nele, enquanto o piloto clandestino parte de fora. Em São Paulo, o que se deve acompanhar é o momento em que o drone passa da entrega a presídios para desempenhar funções regulares na logística dos mercados ilícitos. Esse emprego dificilmente produzirá as imagens que hoje tornam o caso do Rio tão visível.
Carlos Eduardo da Silva é Policial Civil aposentado, com 23 anos de atuação em unidades especializadas de São Paulo, como o Departamento Estadual de Investigações Criminais (DEIC) e o Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (DENARC).
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