A perversão do Centrão
O Centrão nasceu de uma circunstância histórica específica: a redemocratização. Na Assembleia Constituinte de 1987/1988, a expressão designava um agrupamento parlamentar organizado para conter o avanço de propostas consideradas radicais. O conceito não tinha, originalmente, uma carga moral, nem significava ausência de convicções. O centro cumpria uma função: impedir que a Constituinte fosse capturada por qualquer dos polos e construir compromissos mais ou menos consensuais.
Essa vocação encontrou terreno fértil no sistema político criado pela Constituição de 1988. O presidencialismo brasileiro dá ao presidente um mandato fixo, mas não garante maioria parlamentar. A fragmentação partidária tornou a construção de maiorias uma tarefa permanente. Nasceu daí o chamado presidencialismo de coalizão: para governar, o Executivo precisa negociar continuamente com um Congresso formado por diferentes forças, interesses e partidos.
Em uma democracia digna do nome, um centro forte, pragmático e autônomo pode ter um papel relevante: ser a ponte entre posições inconciliáveis, o amortecedor da polarização, o espaço de negociação capaz de impedir que divergências políticas se transformem em crises institucionais. O centro pode ser aquilo que impede a política de virar guerra permanente, ao moderar os extremos e obrigar o governo a negociar.
O centro sequer precisa ser neutro: precisa ser independente. Pode apoiar a esquerda em uma questão e a direita em outra, desde que seu critério seja o interesse público, e não a vantagem oferecida pelo ocupante do poder.
Com o tempo, porém, essa função foi deformada. O Centrão se tornou um método de exercício do poder. A negociação passou a ter cada vez menos como objeto políticas públicas, questões programáticas ou projetos nacionais — e cada vez mais os cargos, verbas, emendas e mecanismos de autoproteção.
A lógica da coalizão foi substituída pela lógica da repartição. O apoio parlamentar virou mercadoria, e o controle de parcelas do orçamento se tornou uma das principais fontes de poder do Congresso. O fisiologismo deixou de ser episódico e se tornou a regra. O Centrão se instalou em uma posição extraordinariamente confortável: sabe que não precisa disputar a Presidência para exercer poder. Basta ser indispensável a quem estiver no Palácio do Planalto.
Em vez de representar uma posição intermediária entre diferentes projetos de sociedade, o Centrão representa hoje uma posição intermediária entre diferentes oportunidades de poder. O critério deixou de ser ideológico e se tornou pragmático: aproximar-se de quem oferece mais ou de quem estiver no poder, não importa se for de direita ou esquerda. O que deveria ser força de equilíbrio pode se converter em linha auxiliar de quem estiver no poder.
Um verdadeiro centro poderia negociar com todos por não pertencer a ninguém. Mas o Centrão se subordina a um lado porque sua identidade não está em uma visão de país, mas na preservação de sua capacidade de barganha. Essa subordinação ocorre por meios tradicionais — cargos, recursos e influência —, mas também por mecanismos mais insidiosos.
Quando investigações policiais, decisões judiciais ou ameaças de responsabilização são percebidas pelos atores políticos como instrumentos de pressão, o medo também se transforma em moeda de negociação. A percepção de que a Justiça pode ser usada politicamente, por si só, já cria um risco institucional. Se parlamentares entendem que sua independência pode lhes custar a carreira ou mesmo a liberdade, a relação entre os Poderes já foi pervertida.
A chantagem judicial, quando de fato ocorre, é especialmente perversa porque substitui o argumento político pela ameaça. Combinada à distribuição seletiva de vantagens, produz uma forma eficiente de cooptação: uns são atraídos pelas vantagens, outros são contidos pelo medo. O resultado é um Congresso formalmente independente, mas, na prática, submetido a uma rede de incentivos e constrangimentos.
A consequência não é apenas a degradação moral da política, mas o enfraquecimento da própria representação. Se partidos e parlamentares podem mudar de posição conforme mudam os ocupantes do poder, o eleitor deixa de saber o que está efetivamente escolhendo. A política perde parte de sua capacidade de produzir compromissos duradouros porque os compromissos deixam de se apoiar em ideias, princípios ou projetos de país e passam a depender das circunstâncias de cada negociação.
A estabilidade política virou sinônimo de conservação de privilégios. O centro, que deveria equilibrar forças, equilibra vantagens. A moderação, que deveria produzir compromissos, produz negócios. A negociação, que deveria aproximar projetos, aproxima interesses. Quando a única convicção permanente é a conveniência, a palavra centro perde seu significado. Talvez esta seja a perversão maior do Centrão: conservar o nome de centro depois de abandonar justamente aquilo que fazia do centro uma ideia politicamente necessária.
Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.
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