Senado trava batalha sobre autonomia do BC sob pressão do caso Master e das eleições
A batalha em torno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que amplia a autonomia do Banco Central (BC) entrou em fase decisiva no Senado em meio à turbulência política provocada pelo escândalo do Banco Master e à nova ofensiva do PT contra a independência da autoridade monetária.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) adiou para quarta-feira (27) a votação do texto após pedido de vista. A PEC 65/2023, que dá autonomia técnica, administrativa, financeira e orçamentária ao BC, segue como prioridade para o mercado, oposição e parte do Centrão.
Se virar uma instituição de natureza especial, o BC não mais dependerá do Executivo para orçamento, contratações e estrutura operacional, ganhando ainda mais blindagem institucional do que a obtida na lei da independência proposta no governo anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e efetivada em 2021.
Pressionado, Galípolo defende no Senado projeto apoiado pela oposição
O debate ganhou força após a crise do Master, que expôs fragilidades de supervisão financeira e suspeitas de corrupção de funcionários do órgão regulador. Além dos oposicionistas, a PEC do senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO) é apoiada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Na terça-feira (19), durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, usou o caso Master como argumento para a defesa do projeto relatado pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM), pois daria mais autonomia e recursos para fiscalização.
Galípolo afirmou aos senadores que a autoridade monetária opera “quase no limite” de sua capacidade, com forte déficit de pessoal e dificuldades para acompanhar a crescente sofisticação bancária e de esquemas de lavagem de dinheiro. Ele disse não pedir apoio do Congresso, mas “socorro”.
Analistas avaliam que comando do BC se fortaleceu politicamente na crise
Para Marcus Deois, diretor da consultoria política Ética, a audiência da CAE, conduzida pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), fortaleceu Galípolo e o BC no debate sobre a ampliação da autonomia da instituição. “Renan tentou forçar Galípolo a abandonar a postura imparcial do cargo, mas não conseguiu”, diz.
Na avaliação de Deois, contudo, a PEC dificilmente avançará este ano por ampliar poderes e autonomia do BC no fim de mandato presidencial. “Deve acabar ficando para um pacote mais amplo de reestruturações a ser discutido pelos próximos presidentes da República e do Congresso”, projeta.
O consultor financeiro Júlio Hegedus Netto também avalia que o BC saiu fortalecido do debate no Senado. Para ele, Galípolo transmitiu a imagem de autoridade "disposta a resistir às pressões para preservar credibilidade". Ele avalia que desdobramentos do caso Master pautarão a tramitação da PEC.
Escândalo do Banco Master fortaleceu argumentos em favor da autonomia
Nos bastidores, aliados da PEC exploram o caso Master como prova de que o BC requer mais autonomia para resistir a pressões políticas e econômicas. O relator da proposta, senador Plínio Valério (PSDB-AM), disse que o escândalo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro fortaleceu esses argumentos.
Uma das mudanças negociadas na tramitação da PEC amplia o poder do BC sobre fundos financeiros, concentrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Essa mudança em especial foi articulada após as investigações do caso Master e contou até com a participação de parlamentares governistas.
Ao mesmo tempo, a PEC passou a enfrentar resistência crescente dentro do PT e de setores da esquerda. O partido já vinha promovendo nova ofensiva contra a autonomia do BC por meio de propostas legislativas que buscam um recuo, recolocando a instituição sob total influência do Executivo.
PT investe em projetos para tirar autonomia do BC obtida em 2021
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), apresentou um projeto na direção oposta à da PEC, limitando a independência do BC e voltando a vinculá-lo ao Ministério da Fazenda. A justificativa é de que o sistema financeiro não pode ser conduzido apenas sob lógica técnica e de mercado.
Críticos da iniciativa petista no Congresso e no mercado financeiro afirmam que a proposta de retrocesso na autonomia do BC ameaça a credibilidade jurídica e institucional do país, tanto no plano doméstico quanto externo, já abalada após os prejuízos causados justamente por ingerências externas.
Esse choque político afetou diretamente a tramitação da PEC no Senado. Governistas receiam que a ampliação da autonomia ao BC logo após um escândalo envolvendo falhas de supervisão possa desgastar ainda mais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ajudar as falas liberais da oposição.
Para analistas, PEC deve avançar ao menos no Senado e parar na Câmara
Apoiadores da PEC da autonomia plena do BC sustentam que o caso Master evidencia a necessidade de que o órgão seja mais forte e menos vulnerável à pressão externa, além de mais bem equipado tecnicamente. A avaliação de líderes do Senado é de que a PEC tem boa chance de avançar na CCJ e no plenário.
Em paralelo, a PEC enfrenta forte lobby contrário de entidades sindicais de funcionários da instituição. Elas afirmam que a proposta abre caminho para a “privatização” do BC ao transformar a autarquia em uma empresa pública de natureza especial e ao flexibilizar o regime jurídico dos servidores.
Os sindicatos alegam que há risco maior de captura do órgão pelo mercado financeiro e por grupos econômicos organizados. Após o caso Master, o discurso sindical ganhou ainda mais força, com dirigentes afirmando que o escândalo financeiro revela o perigo de submeter o BC à pressão de lobistas.