Quem lê tanta notícia?
O sol nas bancas de revista.
Me enche de alegria e preguiça.
Quem lê tanta notícia?
(- Caetano Veloso)
Cada vez menos gente, Caetano, cada vez menos.
O ano era 1967, o jovem Caetano queria uma Coca-Cola, não queria casar, cantava contra a ditadura e, sob o sol de quase dezembro e diante de uma banca, se assustou com a overdose informativa. Que alegria! E que preguiça.
O ano é 2026 e o , estudo conduzido pelo Reuters Institute em Oxford e principal balizador para a indústria de jornalismo acerca das tendências e comportamento de consumo de notícias no mundo, não traz boas novas. Realizado em 48 países, o relatório deste ano foi publicado na última terça-feira. Para quem tem um pouco de curiosidade sobre o tema, recomendo muito a leitura.
Os dados globais apontam que, pela primeira vez, sites e aplicativos foram superados por redes sociais e plataformas de vídeo como principal fonte de acesso à informação - meios tradicionais como jornais, revistas, tv e rádio já haviam sido ultrapassados há alguns anos. Em alguns países, esse número é puxado pela ascensão de influenciadores e criadores de conteúdo que se tornaram mediadores no consumo de notícias (especialmente em vídeo).
Há também um declínio nos níveis de interesse das pessoas pelo jornalismo. Por consequência, cai a confiança das pessoas nas fontes tradicionais. Por fim, na esteira do crescimento de novos canais, é cada vez maior a adoção de chatbots e ferramentas de inteligência artificial para leitura e resumo do noticiário (com o Brasil entre os países onde isso mais cresce).
O caos, em resumo, é esse. Mas, gostaria de me debruçar por alguns parágrafos sobre alguns elementos específicos do mercado brasileiro e especular sobre potenciais motivos que nos colocam nessa situação.
E parafraseando o seu chatbot de IA: "Por que isso importa?"
Porque não existe democracia sem jornalismo profissional. Esse é o ponto mais relevante e que deveria despertar preocupação. Há outros, mas podemos falar deles depois, se você tiver paciência (se não tiver, dá uma disfarçada, ok? Ainda sou novo por aqui e não quero que a turma do UOL saiba que os indicadores de declínio na confiança estão sendo agravados por minha culpa).
No Brasil, há aspectos especialmente preocupantes. Quase metade dos brasileiros (47%) diz que evita as notícias propositalmente. Mais do que uma abstenção, é crescente a aversão ao noticiário. Os fatores do nosso mercado não estão detalhados, mas nos dados globais eles estão relacionados a questões emocionais, como o aumento da ansiedade, o sentimento de sobrecarga de informações, esgotamento e a sensação de que o noticiário tem impacto negativo no humor (durante a pandemia, uma resposta que se destacava era a sensação de impotência diante de fatos ruins).
Outro dado complexo é sobre a queda na credibilidade das fontes. Descendo a ladeira, apenas 36% dos brasileiros dizem confiar na imprensa (ano passado, esse percentual era de 42%). Há um declínio na reputação das instituições jornalísticas de forma geral.
Mas, a queda na confiabilidade e a evasão no acesso são reações conjuntas a um ambiente ruidoso e fragmentado. Difícil dizer qual leva a qual, mas é provável que seja uma relação simbiótica e que se retroalimenta: você consome menos, logo confia menos, logo consome menos e assim vai.
Ao analisar a queda na credibilidade dos veículos, a pesquisa da Reuters elege um fator predominante: "crescente polarização política, o aumento da evasão de notícias e a exposição à desinformação". Essa frase presente no texto foi feita acerca de um entre os 48 países analisados. A Polônia, claro.
Note, os números podem ter nuances aqui e ali, mas há padrões se repetindo em todo lugar. E graças à velocidade como a informação transita no ambiente digital em canais mais fragmentados, isso se acentua. Os fatores que nos fazem querer buscar um certo grau de alienação aqui no Brasil também são, em boa medida, os fatores que motivam cidadãos de outras regiões do mundo.
Lá e cá, os ataques contra grupos de mídia são parte de um esforço articulado de fragilização desse modelo. A ofensiva sofrida pela imprensa por parte de autoridades políticas em todo mundo não é casual, é um método e parte de um esforço contra um dos pilares mais importantes do ambiente social, político e cultural de uma sociedade. A imprensa livre, mesmo que você não goste dela, é quem fiscaliza, cobre e denuncia o poder público.
Mas, nem só ditadores e aspirantes ao posto alimentam a crise da imprensa. Como produto, as ondas de transformação digital das últimas duas décadas também têm sido brutais. Mudou a cadeia de distribuição, a infraestrutura, o modelo de negócios e o formato do serviço a ser oferecido para uma audiência que, mais diluída, altera dramaticamente a lógica da demanda que vigorou por mais de um século. O jornalismo, que sempre foi caro para se produzir, ficou cada vez mais barato para se vender.
Voltando aqui ao Digital News Report, se há queda no interesse pelo noticiário (o consumo) e na credibilidade de quem as produz (a reputação), é importante entender qual é o conceito de notícias que as pessoas têm. E finalmente, qual é a associação que fazem entre a informação que recebem e a fonte que as produz. Porque, na contramão desses dados, o número de brasileiros adultos conectados e o consumo de informação na internet só cresce (88% da população está online, segundo o IBGE).
Somada às crises de interesse e confiança, há um problema de atribuição.
Há alguns anos, quando a pesquisa da Reuters ainda apontava essa queda de maneira mais discreta, participei de uma pesquisa para apurar o interesse por notícias por parte de usuários de internet. Além da análise de dados com padrões de comportamento, visitávamos algumas pessoas em suas residências para entender e questionar sobre seus hábitos.
Acompanhei um grupo de engenheiros nessas visitas aqui em São Paulo. A primeira pergunta era se liam notícias online. A maioria dizia que não ou raramente. Mas, quando questionadas sobre onde obtinham informações sobre o trânsito, cotidiano, política e lançamentos de cinema, a resposta era que o faziam nas redes sociais. De que fontes? E nessa hora, pedíamos que abrissem seus celulares (quase sempre iam para o Instagram, TikTok ou WhatsApp) e mostrassem como isso acontecia na prática. O acesso era feito a partir de recomendações de amigos em links, republicações e, ora essa, pela sugestão automatizada de perfis de sites como Folha, G1, CNN e UOL.
Ali havia - ainda há - um ponto: se informam, sim, mas não onde achamos que o fazem. E ainda: leem, claro, mas não atribuem o consumo à marca de nenhum veículo. As pessoas evitam a ideia de veículos tradicionais, não necessariamente o conteúdo que publicam. Talvez porque o esforço de marca nunca tenha sido um trabalho relevante feito pela empresa, talvez porque o sentimento de saturação construa também uma tentativa de evitar a fonte ou percebê-la como irrelevante (ou questionável) no contexto em que isso aparece.
Bom, preciso atualizar o argumento aqui: somada às crises de interesse e confiança, há problemas de atribuição e de valor percebido.
Porque se a percepção de que os fatos estão amplamente disponíveis de forma gratuita e que a fonte que a provê é irrelevante dentro desse contexto, então é um erro tentar vender esse tipo de serviço de forma puramente transacional.
Se um veículo de mídia quiser competir pelos gastos com informação e entretenimento digital, vai perder. Na lógica do consumidor, esse bolso já está cheio com as assinaturas de streaming, jogos e música. Não cabe no orçamento o acesso a notícias que, em sua percepção, podem ser lidas de forma gratuita em outros canais. No fim do mês, ninguém troca um Dorama pela novela do judiciário.
Lembro quando participei de um evento sobre jornalismo em 2016 e um dos participantes era dirigente de um pequeno jornal europeu que havia se tornado sustentável financeiramente com venda de assinaturas. Celebridade na rodinha que o enchia de perguntas, ele dizia que depois de uma análise detalhada dos dados de audiência, fizeram exercícios econômicos e se deram conta de que seus leitores mais jovens eram justamente os com maior predisposição para pagar preços mais altos de assinaturas.
Ao investigar o motivo, descobriram que esse público percebia no veículo uma marca que era porta-voz de valores e causas que lhes eram caras. O que aumentava sua reputação. O valor se justificava pelo alinhamento de visão de mundo e, a partir disso, abria espaço para a construção de uma relação direta entre a marca e seus leitores. Essa descoberta mudou o diálogo com os leitores e moldou a criação de novos produtos e serviços que atendiam a esse público de forma direta (o que contribuiu ainda para reduzir a dependência de redes sociais, busca e agregadores para geração de tráfego).
Eu não sei a quantas andam as vendas de assinaturas desse veículo hoje em dia, mas me apego aqui a outro ponto do relatório dando conta de que quase metade (46%) das pessoas que dizem pagar para acessar notícias alegam motivações baseadas em valores para isso (como, por exemplo, apoiar o jornalismo porque isso é importante para a sociedade). Em grande medida, não é nesse tipo de argumento que se escoram as mensagens dos veículos em sua batalha pela garantia da credibilidade, reputação e valor.
A constatação de uma tendência não deveria implicar em resignação. Segue necessário o esforço educativo da população, permanece fundamental olhar para o jornalismo como um negócio a ser promovido e também urgente o investimento em defesa - e conscientização - de seu valor como bem comum para ampliar o debate público. Mas, provar relevância passa pela promoção do diálogo. E diálogo, ninguém precisa de pesquisa para contar que tem faltado.
É contra o vento que Caetano caminhava em 1967. E os que sopram hoje contra o ecossistema jornalístico não são poucos e nem fracos. Há ajustes de posicionamento e linguagem a serem feitos. Às vésperas do inverno, as bancas, as poucas que restam, estampam notícias que buscam um lugar ao sol.
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Bem, a , né? Minha produtividade está seriamente comprometida nesses dias. E eu só penso no Vozinha e em como era sua vida em Cabo Verde , torço mais do que gostaria para a Argentina e engrosso o coro para que - e brilhe - na próxima sexta-feira.
Em ritmo de futebol, estou lendo do Sérgio Rodrigues e recomendei para um amigo e faço o mesmo aqui com o maravilhoso do Nick Hornby - um livro de futebol legal até pra quem não gosta de futebol.
Falando em livros, sobre leituras saiu esta semana. É também uma pequena crônica sobre esperança em tempos de guerra.
Ando animado com a chegada da temporada final de , apreensivo com a nova de e usando minhas filhas como desculpa para ver . A newsletter do autor e ilustrador irlandês é uma carta mensal graciosa (em casa, temos quase todos os livros dele).
Para salvar minha paternidade da lama, descobri (e curti, compartilhei e salvei) que ao criar laços de afeto entre pais e filhos por serem, ahãm, receptivas, afáveis, bem-humoradas e descontraídas. Snif... Nunca imaginei, nunca saí em minha defesa. Mas agora é a ciência que está dizendo.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.