Qual é o lugar do conteúdo quando todo mundo é mídia?

7 de Ago de 2026 - 10:15
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Qual é o lugar do conteúdo quando todo mundo é mídia?

Uma pesquisa divulgada no ano passado pela Influency.me apontava que . Para efeito comparativo, temos 2,3 milhões de professores na educação básica, 1,5 milhão de advogados inscritos na OAB e cerca de 600 mil médicos. Influenciadores já estão entre as atividades mais populares no Brasil, colados a trabalhos essenciais como os de limpeza, transportes e construção civil.

Outra estimativa, feita pela Nielsen e pela YouPix em 2024 e com metodologia diferente, dava conta de , o que faria do Brasil o segundo maior mercado global na categoria.

A diferença entre os dados é enorme, mas serve para eu tentar colocar uma lupa em outro aspecto desse fenômeno: cada vez mais pessoas se percebem como mídia.

Estão nessa lista gente com dezenas de milhões de seguidores (você conhece os @'s) e também gente com poucos milhares e que tem, nessa atividade, um bico. Mas um bico devidamente harmonizado, com filtros e aspirações grandiloquentes.

Essa percepção, amplamente difundida, vem moldando a presença das pessoas nos seus perfis. E a fragmentação do que é fonte de informação talvez ajude a entender por que um número crescente de gente aparece em nossos feeds (amigos e familiares, inclusive) atuando diante das lentes como se estivesse numa performance para uma audiência cativa. Seu primo, corretor de imóveis, está com o telefone apoiado no painel do carro e se grava divagando sobre a vida enquanto dirige, dando conselhos marçalicos a um grupo que soma 278 seguidores.

A presença diante da câmera como se falasse para uma plateia virtual é efeito dessa atuação midiática ajustada ao modelo da rede.

Mas, qual é o lugar do conteúdo quando todo mundo é mídia?

Muito antes de pensarmos na internet, lá em 1964, escreveu em seu livro "Understanding Media: The Extensions of Man" um capítulo intitulado "O meio é a mensagem", argumentando que o meio que transporta a mensagem é indissociável da mensagem em si e acaba, por consequência, transformando seu entorno.

Essa conexão era menos complexa de se fazer em tempos analógicos — papel e texto, por exemplo — mas no ambiente digital sustentado por plataformas as coisas se misturaram um bocado (pense na relação atual entre indivíduo > marca > rede social > dispositivo). McLuhan, no seu argumento, desloca o objeto do conteúdo para a forma.

Essa leitura (que ele admitiu ter herdado de Harold Innis) oferecia um contraponto ao senso comum até então de que o meio é um canal neutro e o que importa é o uso que se faz dele. E borrava as fronteiras entre os diferentes atores no processo de comunicação que haviam sido elaborados por algumas décadas antes: é dele a ideia clássica de que a comunicação segue uma estrutura linear que passa por cinco perguntas fundamentais: quem (emissor), diz o quê (mensagem), em qual canal (meio), para quem (receptor) e com qual efeito (impacto).

Os críticos da ideia de Lasswell argumentaram depois que ele esqueceu de levar em conta um elemento nessa estrutura: o ruído.

Voltando ao McLuhan, algo mais que ele adiciona em seu texto original (e está no subtítulo do livro) é que, nessa dinâmica, "os meios são extensões do homem", uma vez que cada um deles prolonga uma de nossas habilidades — assim, "o livro estende o olho", "a roda amplifica o pé" e ele segue nessa linha até formar uma ideia de que a extensão implica uma espécie de correspondente da habilidade original.

De forma simplista, é isso: não conseguimos dissociar o lugar onde consumimos a informação da informação em si. É o encapsulamento das duas coisas numa só. Em anos recentes, há algum debate sobre o quanto elas de fato se misturam e se distinguem no ambiente digital.

E o que isso tem a ver com seu primo corretor de imóveis?

O problema é que, no momento em que estamos, com pessoas que antes eram emissores se tornando também meio e mensagem, enfrentamos um achatamento ainda maior desse processo. O "conteúdo" que o influenciador transporta é ele mesmo, e o corpo virou meio.

Quando as pessoas viram mídia, emissor, meio e mensagem passam a ser a mesma coisa. E, num contexto em que todo mundo é mídia — ou em que tanta gente se percebe assim —, em que espaço a mensagem, de fato, se forma?

Das mídias de massa para as massas como mídia

Isso é importante para que seja possível fazer essa distinção. Se na era pré-digital a realidade de comunicação era majoritariamente de veículos de massa (a TV, o rádio e mesmo os jornais existiam sob um formato de transmissão), seguindo a lógica de "um para muitos", no estágio atual em que e indivíduos se tornam meios, vivemos em uma lógica de "todos para todos".

Se por um lado o surgimento da web permitiu a democratização na distribuição de informação ao descentralizar o processo e libertar a leitura de posições de quem controlava a difusão, a extrapolação disso deixa essa difusão tão fragmentada que fica difícil distinguir o que é de fato relevante e original do que é, para arrepio do Harold Lasswell, apenas ruído.

Nesse ambiente, fica reduzido e pouco percebido o valor da mídia profissional. O jornalismo, o entretenimento e a produção cultural em diferentes formatos e linguagens são fundamentos de construção de uma sociedade; ainda que precisassem de adaptações à medida que os canais de consumo mudavam, não deixaram de ter valor pela natureza do que representam.

A revisão do argumento de McLuhan nos arrasta para um momento ainda mais crítico deste processo: pessoas se percebendo como agentes de informação, mas cuja informação são elas mesmas. A mensagem se limita ao que fazem, o que são, como estão. É a própria performance, alheia às ideias e centrada no corpo. O conteúdo, no fim, é a pessoa. Isso é uma mudança que extrapola o formato e em si.

À medida que consumimos e criamos, somos também consumidos de alguma forma. E o indivíduo que se sente protagonista deixa de ser espectador e passa a crer, em algum momento, que é dono da mensagem. Ele se consome de autoimagem e periga terminar escutando apenas a própria voz.

[refs]

Essa semana, eu li um perfil do , fiquei procurando os televisores da minha infância com todos os modelos já fabricados (por quê, né?), li mais uma reportagem e ainda estou achando que é mentira que exista um cuja final será em Las Vegas no final do mês.

Comecei a leitura, meio esporádica, do livro de David Remnick, com perfis musicais de figuras como Leonard Cohen, Aretha Franklin e Paul McCartney. E li - e gostaria que você também lesse - sobre a mãe dele. Até!

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.