Por que o mercado gosta de Flávio Bolsonaro?

5 de Out de 2026 - 16:30
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Por que o mercado gosta de Flávio Bolsonaro?

A euforia do mercado financeiro com o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno é, por enquanto, uma aposta. Investidores esperam que, se eleito, ele adote uma política mais dura para conter gastos e o avanço da dívida, embora o candidato ainda não tenha detalhado como fará esse ajuste.

Há também um componente político por trás dessa reação. Economistas e analistas ouvidos pelo UOL apontam que a rejeição ao PT ajuda a explicar o entusiasmo, ao lado da proximidade de Flávio com nomes de perfil liberal e de um Congresso mais favorável à direita.

A expectativa ainda precisa ser comprovada na prática. Mas investidores preveem que uma gestão Flávio dê mais ênfase ao controle das despesas do que o governo Lula, que buscou melhorar as contas também pelo aumento da arrecadação. Pai de Flávio, Jair Bolsonaro, porém, terminou o mandato após flexibilizar o teto de gastos.

Dívida está no centro da preocupação

A trajetória da dívida pública está no centro da preocupação do mercado. Lucas de Aragão, sócio da casa de consultoria política Arko Advice, afirma que há tempos investidores cobram uma política fiscal capaz de estabilizar e depois reduzir a relação entre dívida e PIB.

Os números ajudam a explicar essa preocupação. A dívida bruta correspondia a 73,8% do PIB no fim de 2023 e chegou a 82,5% em julho deste ano, ou R$ 10,9 trilhões, segundo o Banco Central.

A situação fiscal também tem impacto sobre os juros e as empresas. Para Aragão, o risco maior nas contas públicas ajuda a manter as taxas elevadas. O crédito mais caro pressiona empresas endividadas, limita investimentos e contratações e, no limite, afeta a Bolsa. "Então o mercado gosta de uma visão de uma política fiscal mais austera", afirma.

Uma melhora das contas públicas produziria o efeito inverso. Segundo Aragão, um cenário fiscal mais organizado pode abrir espaço para juros menores, valorização do real e inflação mais baixa, favorecendo empresas e o consumo.

Por que Flávio?

A comparação com o governo Lula também ajuda a explicar a reação. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que investidores acreditam que Flávio poderá promover um ajuste fiscal maior diante do crescimento da dívida.

Vale afirma que o mercado enxerga a possibilidade de Bolsonaro "entregar um ajuste fiscal melhor do que o Lula". A aproximação da candidatura com economistas de perfil liberal reforça essa percepção.

Lula buscou melhorar as contas também pelo lado da arrecadação. O governo substituiu o teto de gastos pelo atual arcabouço fiscal, que permite crescimento das despesas acima da inflação dentro de determinados limites, e adotou medidas para elevar receitas.

As mudanças incluíram novas formas de tributação e redução de benefícios. Desde 2023, o governo passou a tributar fundos exclusivos e recursos mantidos no exterior, além de alterar as regras das subvenções de ICMS e da desoneração da folha.

Com Flávio, a expectativa é de maior ênfase no controle das despesas. Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria, cita entre as possibilidades uma regra fiscal mais próxima do antigo teto de gastos, mudança na política de valorização do salário mínimo, reforma administrativa, nova reforma da Previdência e privatizações.

Congresso também ajuda

O resultado da direita no Congresso reforçou o otimismo dos investidores. Para Campos Neto, Flávio teria, ao menos inicialmente, condições políticas mais favoráveis para aprovar medidas de contenção dos gastos.

Uma base favorável também aumentaria a cobrança sobre um eventual governo. Campos Neto avalia que Flávio teria menos espaço para atribuir ao Legislativo uma dificuldade em avançar com a agenda.

No cenário de uma vitória do Flávio, principalmente com essa Câmara e com o Senado, o Flávio não vai ter muito argumento para não tentar no mínimo emplacar uma série de medidas que reduzam o gasto Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria

Daniela Marques também é vista como uma sinalização da agenda econômica. Campos Neto cita a economista, que participa das discussões da candidatura, entre os nomes que têm defendido redução dos gastos e controle da trajetória da dívida.

Bolsonaro também aumentou gastos

O histórico recente mostra que governos de direita não são necessariamente sinônimo de austeridade. O governo Jair Bolsonaro terminou o mandato após sucessivas alterações no teto de gastos. Segundo cálculo da Instituição Fiscal Independente citado pelo Senado, cinco mudanças tiveram impacto de R$ 213 bilhões em relação ao desenho original da regra.

A PEC dos Precatórios também abriu espaço para ampliar despesas em 2022. Vale considera que esse histórico é uma ressalva à atual euforia. "O governo Bolsonaro fez um desajuste fiscal nos últimos dois anos que foi grave", afirma.

Flávio também partiria de uma situação diferente da encontrada pelo pai. Vale lembra que Jair Bolsonaro assumiu em 2019 com parte da agenda de reformas herdada do governo Michel Temer, principalmente a reforma da Previdência. Flávio não possui hoje algo equivalente pronto para implementar.

Expectativa ainda precisa virar proposta

O antipetismo também ajuda a explicar a reação do mercado. Vale cita diretamente a rejeição ao PT como parte da expectativa favorável em torno de Flávio, mas pondera que o entusiasmo terá de ser confirmado por propostas concretas.

Ainda não está claro qual política econômica Flávio efetivamente adotaria. Para Vale, não é possível afirmar que um eventual governo será necessariamente melhor do ponto de vista fiscal. Será preciso saber "exatamente o que é que vai ser proposto efetivamente" e o que o candidato conseguirá fazer politicamente.

A escolha da equipe econômica será um dos primeiros testes. Vale considera importante que Flávio, caso eleito, escolha um nome de peso para comandar a área e com capacidade de articulação no Congresso.

Por enquanto, o mercado negocia mais expectativa do que medidas concretas. Flávio ainda não detalhou como faria o ajuste fiscal nem definiu quem comandaria sua política econômica. Vale diz que "está tudo na expectativa, tudo na festa por parte do mercado", mas que ainda será preciso comprovar a capacidade de entregar o ajuste esperado.