Por que Lula acerta em não ir ao debate na Globo
Imagino que a decisão do presidente Lula em não ir no debate de maior audiência da TV tenha sido difícil. Como não ir? Vai deixar seu adversário falar praticamente sozinho? De imediato parece um erro estratégico cometido por uma campanha que tem errado muito. Mas talvez a história não seja bem essa. Vamos tentar entender.
Lula tem na memória um debate bastante polêmico que aconteceu na mesma emissora em 1989.
Na época, o Partido dos Trabalhadores acusou a Globo de privilegiar o candidato do PRN, Fernando Collor, no debate. O PT moveu uma ação no TSE, mas o recurso foi negado. Um grupo de artistas da Globo chegou a protestar contra a edição do JN, que levou ao ar os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Collor acabou vencendo as eleições com 53% dos votos e, anos depois, a Globo admitiu culpa no episódio. Lula se refere ao debate de 89 como uma "mutreta". Claro que Lula já foi a vários outros debates na Globo depois disso, mas o contexto atual pode explicar sua ausência e trazer a memória de volta.
Há alguns dias, a Globo tomou atitude bizarra ao criar a errata de um erro inexistente. Trata-se do evento envolvendo Nossa Senhora e da apuração de uma de suas jornalistas, Maria Cristina Fernandes. Pela apuração, a Igreja Católica estaria preocupada com a possibilidade de a Santa Padroeira perder seu posto por causa de ação orquestrada de um núcleo duro de evangélicos radicais. O argumento: Lula poderia ficar com o voto dos católicos. Fernandes fez jornalismo apenas, mas, horas depois, a Globo News deu uma errata de uma coisa que a jornalista não disse. Jogou a jornalista fora e compactuou com Flavio. A atitude, coincidentemente ou não, acabou protegendo a campanha de Bolsonaro.
Lula pode estar considerando esse episódio para decidir não ir.
Quando Lula foi ao JN, há algumas semanas, a pauta da entrevista foi praticamente toda ao redor de seu filho, um assunto quase sem importância diante do que estamos vivendo e do futuro que se aproxima. Um erro jornalístico grande cometido por jornalistas experientes. Ou o que mais seria? A dureza que Lula enfrentou na entrevista não foi a mesma que Flavio enfrentou na mesma bancada.
Lula pode estar pensando que, se fosse ele metido em orgias, a pauta dentro do Grupo Globo seria apenas essa: Lula e as orgias. Ou se fosse ele suspeito de envolvimento com a milícia, ou se fosse ele que tivesse condecorado miliciano, ou se fosse ele suspeito de rachadinha, ou ele pegando milhões de Vorcaro e chamando-o de irmão. Enfim. Tudo isso pode passar pela cabeça do presidente - passaria pela minha.
Lula pode, portanto, avaliar que não estará em campo neutro e que a emissora tem lado. Não há problema em ter lado, desde que ele seja divulgado. Mas não é o que acontece.
No domingo, Luciano Huck, com o aval da emissora, divulgou um site que "ajudaria" o eleitor e a eleitora a encontrarem seus candidatos. É apartidário, ele disse duas vezes. Mas o site está sendo acusado de enviesar todas as escolhas para a direita. Eu testei e aconteceu comigo: embora seja de esquerda, fui encorajada a votar em gente do Missão, do PSDB e do Novo.
O que sabemos é que a Globo quer ardentemente que as apostas online sejam legalizadas. Ela é sócia da MGM e considera-se prejudicada com a MP de Lula. Há, portanto, múltiplos interesses por trás que, sem serem abertamente revelados, soam - no mínimo - estranhos. E bastante perigosos.
O meio não é neutro. Nenhum é. A pergunta seria: mas é honesto e opera permitindo que seus jornalistas ajam livremente? Lula é experiente. Talvez tenha avaliado que ir seria uma armadilha. Eu tendo a concordar.
Opinião
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