Paralisação do Brasileiro: a hipocrisia dos clubes de futebol
Em mais um movimento que demonstra seu completo descolamento da realidade, alguns clubes resolveram ameaçar o governo federal com — pasmem — a paralisação do campeonato brasileiro. Esvaziaram a reunião que aconteceria no Ministério do Esporte para tratar de suas preocupações pós-proibição das bets. O encontro acabou cancelado.
Devem bilhões, inclusive ao Estado (de quem querem obter benefícios) e acham que a melhor estratégia é algo que eles não consideraram fazer em situações verdadeiramente críticas.
Houve quem quisesse jogar no auge da pandemia. No fim, os torneios pararam por apenas três meses. O show tem de continuar.
Não toparam suspender o Brasileirão quando o Rio Grande do Sul ficou debaixo d'água. Transferiram os mandos dos times gaúchos para o Paraná e tudo resolvido. Segue o jogo.
Mexeram com uma categoria de patrocínio que mesmo com cifras estratosféricas mantiveram as entidades atoladas em dívidas? Cuidado, que a gente paralisa tudo, hein! Como o país vai sobreviver sem a competição?
Não custa reforçar que os clubes não conseguiram até hoje se reunir em torno de um acordo de liga, muito menos para combater episódios pavorosos de assédio, racismo, misoginia, LGBTFobia. Mas foi só atingir o bolso furado dos dirigentes que, de repente, a comunhão se tornou possível.
Não surpreende o egoísmo e a certeza do resgate pelos cofres públicos. Surpreende, sim, o descaso escabroso com o custo social de incentivar as pessoas a apostarem. A ideia de que o governo deveria sacrificar seus cidadãos e o PIB para salvar a pele de péssimos gestores de futebol seria cômica não fosse trágica. Assim como a ameaça de paralisar o Brasileiro.
Não o fizeram quando pessoas estavam morrendo. Querem agora usar desse artifício para protestar uma medida que pode literalmente salvar vidas. E estão tentando apavorar justamente aqueles a quem precisam pedir arrego.
Arrogância é pouco para definir o que está acontecendo nos corredores de poder do futebol.
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Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.