Paraguai é Brasil na Copa do Mundo

3 de Jul de 2026 - 17:15
 0  0
Paraguai é Brasil na Copa do Mundo

Nossos vizinhos sul-americanos têm diante de si o maior desafio deste Mundial: parar a França amanhã, nas oitavas de final. Os Bleus estão voando na competição, com Mbappé (6) e Dembélé (4) disputando a artilharia, e Olise — o maior destaque — dominando as assistências (5).

Enquanto todos fazem força para se manter vivos, os franceses sobem a ladeira como aquele meme: pulando corda, belíssimos, sem demonstrar qualquer desgaste.

Os paraguaios defenestraram a Alemanha nos pênaltis, depois de estrear tomando uma surra dos Estados Unidos. Pelo que ambos demonstraram até agora, o embate parece disputa do ensino fundamental contra o ensino médio, crianças versus adultos.

Por alguma razão, porém, os brasileiros parecem acreditar. Ou, pelo menos, querer acreditar e, por isso, torcer. Fica, então, o questionamento: por que estamos torcendo tanto para o Paraguai? Por que tantos tuítes e memes incentivando a maior noite de Libertadores da história? Foguetório na porta do hotel, aula de cera, sinalizadores, mandinga e catimba, tudo para impedir o avanço dos franceses.

Há, claro, o clubismo natural de quem está mais acostumado a torcer por Gustavo Gómez, Maurício e Ramón Sosa (Palmeiras), Junior Alonso (Atlético-MG), Fabián Balbuena (Grêmio), Damián Bobadilla (São Paulo) e Isidro Pitta (Red Bull Bragantino), do que por Gabriel Magalhães, Bruno Guimarães, Douglas Santos, Marquinhos e Igor Thiago. Ao contrário dos brasileiros, os paraguaios estão no nosso dia a dia, na batalha suada dos estaduais, do Brasileiro, da Libertadores e da Sul-Americana. Estão conosco nos melhores e piores momentos, gramados e arbitragens. Levantam nossas taças. Isso pesa.

Existe também o instinto absolutamente natural de alimentar os piores desejos contra a França, responsável por algumas derrotas que nunca esqueceremos. Mandá-los de volta para casa tem não só o efeito prático de tornar o caminho rumo ao hexa mais realista, como um impacto kármico. Vingança é vingança, não importa por que mãos (ou pés) ela chegue.

Por fim, não podemos descartar o espírito que nos une. Somos, sim, o maior e mais desconectado país do continente. Não falamos a mesma língua, não ouvimos as mesmas músicas e não desfrutamos da mesma comida. Mas somos sul-americanos, unidos por um fio invisível de história, exploração, superação, sangue, lágrimas e gols. Em As Veias Abertas da América Latina, Eduardo Galeano escreveu: "Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros".

Não é de espantar que queiramos ver mais da nossa prosperidade, e menos da deles. Talvez espante nossa capacidade de acreditar na possibilidade de o modesto Paraguai vencer a espantosa França. Galeano tem uma explicação para isso também.

"O futebol é a única religião que não têm ateus."

Siga Alicia Klein no
Se inscreva no canal de Alicia Klein e Milly Lacombe no
Assine a

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.