O ambientalismo cristão é o melhor ambientalismo

10 de Out de 2026 - 23:30
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O ambientalismo cristão é o melhor ambientalismo

Domingo passado, além de dia de eleições no Brasil, foi a festa de São Francisco de Assis, que se tornou o, digamos, “santo padroeiro” das causas ambientais. Por isso, é em 4 de outubro que tradicionalmente termina o “Tempo da Criação”, um período especial adotado por várias igrejas e comunidades cristãs (independentemente do que elas pensem sobre a veneração aos santos) para a reflexão sobre nossa obrigação de cuidar do . Em sintonia com essa data, e porque no fim de semana passado não tivemos Tubo de Ensaio devido à periodicidade quinzenal, recordo o 4 de outubro recomendando , do biólogo Tiago Pereira, coordenador nacional dos Grupos de Estudo da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2) e líder do núcleo ABC2 Ecoteologia. O livro faz parte da nova coleção Fundamentos, lançada pela entidade (e meu exemplar foi cortesia da ABC2).

Já disse aqui, e repito: quem acha que preocupação ambiental é “coisa de esquerdista” foi enganado. Cristãos e conservadores em geral, infelizmente, se omitiram e deixaram que a esquerda praticamente monopolizasse essa pauta, e essa percepção se cristalizou graças a uma mentalidade identitária (no sentido mais amplo da palavra, não de wokismo) moderna muito louca que quase obriga as pessoas a comprarem “pacotes completos” para fazer parte do grupinho: se você é de direita/conservador, tem de ser pró-vida, a favor de armas, adepto do liberalismo econômico, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se você é de esquerda/“progressista”, tem de defender aborto, ideologia de gênero, Estado ultraprovedor, censura, laxismo penal... e preservação ambiental. E esse monopólio acabou levando a uma outra ideia equivocada: a de que ambientalismo necessariamente tem de ser a versão que eu chamo de “ambientalismo bocó”, aquele que iguala ontologicamente todas as criaturas e considera o ser humano uma praga que faria muito bem ao planeta se apenas desaparecesse.

Obviamente, a realidade é muito mais multifacetada do que a turma do “pacote completo” quer fazer parecer, e o ambientalismo é muito maior que sua versão anti-humana promovida por um David Attenborough (fique com os documentários, descarte a ideologia). Tiago Pereira apresenta, no seu livro, as linhas gerais de um “ambientalismo cristão”, e eu vou além e digo que esse não é apenas um ambientalismo possível, mas o melhor ambientalismo que há, porque ele junta boa teologia, boa ecologia e boa antropologia. Trata-se de entender a criação e como ela é um trabalho cooperativo: Deus cria, Deus faz a criação criar (já repararam que em Gênesis 1,11 e 1,24 Deus não produz, mas manda a terra produzir?), e cria o homem para, entre outras coisas, ajudar a criação a criar. E trata-se também de entender o papel do ser humano nisso tudo: não uma criatura no mesmíssimo nível ontológico das outras, mas também não um déspota a quem Deus dá carta branca para fazer o que quiser com o mundo (a esse respeito, considero as reflexões de Bento XVI a melhor referência).

Já tendo lido (e recomendado aqui) alguns outros livros e textos sobre e meio ambiente, destaco duas ideias do livro de Pereira que me chamaram mais a atenção, ou porque eu nunca as havia visto, ou porque não lhes dei a devida importância quando tive contato com elas anteriormente. A primeira é o fato de o conceito de “mordomia” do ser humano para com a criação (o famoso “cultivar e guardar”), mesmo já sendo muito poderoso para nos abrir os olhos para a necessidade de cuidar da natureza, ter uma deficiência que faz da criação uma mera lista de recursos a administrar, alguns com maior, outros com menor valor, refletindo uma visão de mundo utilitarista. Por isso, o autor nos lembra que a apresenta outros dois modelos, o do rei-pastor e o do sacerdote-jardineiro, que são ricos e ajudam a formar um conjunto mais completo de nosso papel dentro da criação.

A segunda ideia está no capítulo 4, que recapitula os efeitos do pecado original sobre toda a criação. De alguma forma, ela está ligada a algo que eu já destaquei aqui muitas vezes, e que aparece com muita força na Laudato Si’, do : a noção de que a crise ambiental é consequência de uma crise moral. Mas Pereira recua até a origem dessa crise moral: a rebeldia do ser humano que deseja ser como Deus, e não uma criatura integrada ao resto da criação. E mostra como a Bíblia está repleta de trechos que ligam a desobediência a Deus a crises no equilíbrio natural, como alterações nos ciclos agrícolas que levam à escassez de alimento.

Mas essas são só duas ideias que destaquei. O livro, apesar de curto, tem muito mais, como a contestação às acusações de Lynn White, para quem o cristianismo, com sua concepção linear de história, tinha sido o grande responsável pela devastação ambiental. Mas, se White estava errado sobre isso, não significa que não haja cristãos que descuidam do cuidado com a natureza alegando que um dia o mundo vai acabar mesmo (se é que já não está no fim), e Pereira mostra por que eles também estão errados. O biólogo gasta umas boas linhas descartando uma série de atitudes que cobrem todo um espectro, do alarmismo fatalista ao negacionismo.

Uma digressão: concedo que esta última palavra tem sido muito abusada ultimamente, deixando de ser a “negação daquilo que já está devidamente estabelecido pela ciência” para se tornar “contestação de tudo com o que eu concordo/de que eu gosto”. Vimos isso na pandemia: apenas perguntar sobre possíveis efeitos colaterais de vacina (e todo remédio ou vacina tem efeito colateral) virou “negacionismo”, por exemplo. Não falo da multidão de legistas de internet que culpavam a vacina por toda morte súbita ocorrida naqueles anos, mas da censura a questionamentos que, antigamente, eram... bom, eram parte da ciência. E, no tema ambiental, razões para ceticismo não faltam. Quantas previsões apocalípticas, feitas por gente muito respeitada, não ouvimos sobre o fim do gelo no Ártico, ou da neve em picos muito elevados, ou sobre ilhas engolidas pelo aumento do nível do mar, e que não se concretizaram nas datas prometidas? Não digo, com tudo isso, que Pereira esteja abusando do termo “negacionismo”, porque não me parece que esteja; digo apenas que é uma palavra com a qual todos precisamos ter cuidado.

A chave de ouro do livro é a proposta de aplicarmos a ética das à nossa relação de cristãos com o meio ambiente. Como o leitor da Gazeta sabe, aqui somos todos fãs da ética das virtudes, que . Ser pessoas melhores, e agir de maneira conforme ao que somos, é o que Deus espera de nós – e a natureza também. A esperança cristã de um novo céu e uma nova terra não é desculpa para não fazermos nada por esta terra; como lembra Pereira, aqueles que mais tinham/têm os olhos no porvir foram/são os que mais fizeram/fazem por este nosso vale de lágrimas. Então, se você está procurando uma boa introdução a um ambientalismo saudável, Cultivando o jardim merece a sua leitura.

ABC2 faz conferência nacional em novembro

Falando na ABC2, ainda é possível se inscrever para a , que ocorre de 19 a 21 de novembro, em São Paulo. Mas, antes disso, há dois outros eventos: a Universidade Franciscana (UFN), em Santa Maria (RS), sedia o , em 22 e 23 de outubro; e, de 3 a 7 de novembro, em João Pessoa (PB), ocorre o . Esses dois eventos ainda estão com inscrições abertas.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Autor de "A razão diante do enigma da existência" e coautor de "Bíblia e natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé", mantém a coluna quinzenal Tubo de Ensaio, sobre a relação entre ciência e religião, e uma coluna semanal sobre temas relacionados à Igreja Católica. Em 2025, cobriu em Roma o conclave que elegeu o papa Leão XIV. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.

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