NYT: Uber é criticada por 'culpar' vítimas de estupro na Justiça dos EUA

5 de Ago de 2026 - 14:00
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NYT: Uber é criticada por 'culpar' vítimas de estupro na Justiça dos EUA

Investigação do The New York Times aponta que a Uber tem adotado, em processos judiciais, uma estratégia considerada agressiva por críticos por contestar ações de vítimas de violência sexual e tentar reduzir sua responsabilidade.

O que aconteceu

Uma das situações descritas envolve uma mulher de 24 anos que processa a Uber por negligência após ter sido estuprada por um motorista durante uma corrida em Tampa, na Flórida (EUA). De acordo com o NYT, o agressor se declarou culpado na Justiça criminal e cumpre pena de dez anos de prisão por estuprá-la enquanto ela estava inconsciente em uma noite de 2021.

No processo civil, a vítima, identificada como Jane Doe, afirma que a empresa deveria ter feito mais para checar e supervisionar o motorista. Segundo o jornal, ela argumenta que o condutor tinha condenações anteriores por crimes violentos, e que isso deveria ter pesado na triagem e no acompanhamento.

Nos autos, porém, a Uber sustentou que a mulher "se comportou de maneira negligente e descuidada" e que teria "contribuído" para as próprias lesões. A empresa também afirmou, segundo o NYT, que as alegações de dor e sofrimento dela seriam "não relacionadas" ao episódio que motivou a ação.

Em uma sessão com advogados da Uber, a sobrevivente foi submetida a um questionamento que críticos consderam agressivo. "O que você estava vestindo?", cita a reportagem como uma das perguntas feitas. Representantes da empresa ainda perguntaram o quanto ela tinha bebido naquela noite e a dosagem de um remédio psicoestimulante.

A apuração do NYT diz que esse tipo de argumentação contrasta com a comunicação pública da companhia sobre o tema. A reportagem lembra que a Uber afirma adotar uma abordagem "centrada na sobrevivente" e "informada por trauma" e chegou a produzir vídeos de orientação a motoristas com a mensagem de que "a violência sexual nunca é culpa da sobrevivente".

O que a Uber diz

O diretor jurídico da Uber, Tony West, reconheceu que o sistema judicial pode ser especialmente duro com sobreviventes, mas afirmou que a empresa tenta conciliar defesa e respeito. "Serei o primeiro a dizer que nosso sistema jurídico pode ser particularmente duro para sobreviventes. Deixei claro para minha equipe jurídica que eles devem sempre tratar sobreviventes com respeito, compaixão, cortesia e dignidade, e é exatamente isso que eu vi eles fazerem. Defender a empresa em um processo e tratar sobreviventes com humanidade não são coisas mutuamente exclusivas; precisamos fazer as duas", disse em comunicado.

A vice-conselheira geral adjunta da empresa, Katie Waitzman, afirmou que a Uber questiona danos emocionais quando vê indícios de outras causas. "Quando autores alegam indenização por danos emocionais e atribuem 100% dessas lesões ao incidente relacionado à Uber, apesar de evidências em sentido contrário, precisamos seguir essa linha de investigação, ainda que relutantemente", disse, em comunicado.

Por que a estratégia é criticada

Para a professora Nora Freeman Engstrom, de Stanford, a tática descrita pelo NYT reaproveita um roteiro antigo de responsabilização da vítima. "A estratégia da Uber recicla um roteiro antigo e feio: se uma mulher bebeu, se ela foi sozinha, se era tarde, se a memória dela é imperfeita, então talvez ela seja a culpada. Mas essas são precisamente as circunstâncias em que a Uber disse aos consumidores que seu serviço deveria protegê-los", afirmou ao NYT.

Outra vítima citada na investigação, Jaylynn Dean, disse que se sentiu julgada ao ver o foco do caso se deslocar do crime para suas decisões. "O foco foi desviado do abuso em si e colocado nas minhas escolhas. Isso só me fez sentir que ter vindo a público foi um erro", em entrevista.