Messi de cabelo azul, impedimento: o que já mudou na primeira "Copa da IA"
A Copa do Mundo de 2026 já dá sinais de que vai ser lembrada como a "primeira" Copa com IA em todo canto: do jeito como o torcedor cria conteúdo até a forma como o impedimento é decidido. O sentimento que aparece nas análises é de ambição - e de aposta alta: colocar inteligência artificial no centro do espetáculo pode melhorar a experiência, mas também exige uma operação tecnológica gigantesca para funcionar sem virar distração.
O que aconteceu
*A OpenAI colocou Lionel Messi como estrela de uma campanha global do ChatGPT, em que ele usa o recurso de geração de imagens para criar um visual inspirado nas cores da Argentina e incentivar torcedores a fazerem o mesmo.
*O prompt usado por Messi passa a aparecer como um estilo pré-definido dentro do ChatGPT Imagens, para que usuários gerem versões com as cores de suas seleções e momentos de futebol.
*A FIFA e a Lenovo detalharam um pacote de inovações para a Copa de 2026 (em Canadá, México e EUA), com foco em decisões de arbitragem mais rápidas, câmeras corporais de árbitros com imagem mais estável e mais ferramentas de análise para as seleções.
*A FIFA diz que vai dar às 48 seleções acesso igual ao Football AI Pro, um assistente de IA para análises antes e depois dos jogos, para reduzir a diferença entre equipes com mais e menos estrutura.
*A tecnologia de impedimento semiautomatizado vai ganhar uma versão "avançada", em que impedimentos claros de posição podem chegar direto aos árbitros em campo, acelerando a marcação (a FIFA ressalta que o sistema não decide sozinho lances de interferência).
*Todos os jogadores devem passar por um escaneamento corporal rápido para criar avatares 3D, que ajudam a identificar e acompanhar movimentos e também alimentam replays em 3D mais fáceis de entender na transmissão.
*A FIFA prevê 16 câmeras de rastreamento óptico por estádio, gerando mais de 150 milhões de pontos de dados por partida, usados tanto para a arbitragem (como checar interferência) quanto para recriações em 3D e análises.
*Segundo a Nature, além das ferramentas da FIFA, a Copa deve trazer mais ciência no dia a dia das seleções, com profissionais de dados e até estudantes de doutorado trabalhando "embarcados" em times para transformar informação em decisões práticas.
IAgora?
Não parece, mas o ChatGPT foi lançado ao público há menos de quatro anos, em 30 de novembro de 2022, durante a Copa do Catar. Neste mesmo dia, a França perdia para a Tunísia por 1 a 0 e a Argentina ganhava da Polônia por 2 a 0 ainda pela fase de grupos do torneio e ambas estavam bem distantes da final que realizariam.
O mundo mudou muito em quatro anos, a começar pelo tamanho atual de empresas que ninguém conhecia há época. Quem imaginaria que, quatro anos depois de decidir uma Copa, Messi seria o garoto-propaganda da OpenAI - uma empresa então embrionária no Mundial anterior.
Da mesma forma, o Google teve que reimaginar todo seu produto nos últimos quatro anos, deixando um pouco de lado o que o público já conhecia (busca, gmail, workspace). O investimento agora, com patrocínio direto à atual campeã seleção argentina, é no seu modelo de IA Gemini - com uso da tecnologia dentro e fora de campo pelos hermanos.
É óbvio que a tecnologia (inclusive a IA) já estava e estará cada vez mais presente no futebol - resta separar o que é marketing do que é de fato útil. Ou será que precisamos mesmo de robôs praticando esportes, como já vimos em tantos exemplos de empresas de robóticas?
O que o mundo está dizendo sobre isso
Gerenciar, proteger e otimizar esse ecossistema digital gigantesco - especialmente numa escala tão sem precedentes - vai exigir um feito monumental de tecnologia moderna e inteligência artificial.
AI Magazine
A tecnologia está avançando rapidamente, mas o desafio é entender como usar toda essa informação de uma perspectiva prática. Em comparação com 20 anos atrás, está mais fácil coletar informações com dispositivos vestíveis, por exemplo. No entanto, não é tão fácil interpretar esses dados.
Franco Impellizzeri, editor-chefe do periódico Science and Medicine in Football e cientista do esporte na Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS), à Nature
O sentimento sobre IA no Ocidente nunca esteve tão baixo, mas o Ocidente não decide como 5 bilhões de fãs de futebol vão encontrar essa tecnologia. Esta primeira Copa da era da IA coloca a tecnologia em praticamente todas as camadas do torneio e, se funcionar, ninguém em país nenhum percebe nada - o que pode acabar sendo o marketing de IA mais eficaz do ano.
The Rundown
Na minha opinião, esta é apenas mais uma tentativa de enfiar a IA goela abaixo em um evento/setor que não precisa dela nem de longe tanto quanto a indústria de IA precisa demonstrar uma proposta de "valor".
Rosa Jiménez Cano, jornalista da Wired
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.