Luto pelos dinossauros invade as redes e mostra como jovens vêm o futuro

5 de Mai de 2026 - 07:00
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Luto pelos dinossauros invade as redes e mostra como jovens vêm o futuro

A série documental "Os dinossauros", da Netflix, produziu um efeito curioso. A partir da divulgação de seu último episódio, que mostra a extinção dos répteis que dominaram o mundo, as redes sociais foram tomadas por crises de choro, dramas e lamentações. A juventude estava desolada com o fim dos dinossauros, ocorrido a cerca de 66 milhões de anos atrás.

As publicações prestavam homenagens aos antigos répteis, que "eram muito queridos", especulavam sobre como eles "devem ter ficado assustados com o asteroide, tadinhos" e confessavam como "esses edits do TikTok estão acabando comigo". Em um desses edits, fotos dos dinossauros vendo o meteoro vão passando enquanto toca "Let down", do Radiohead.

Existe algo de estranho acontecendo na relação que os jovens estabelecem com o tempo. E isso vale tanto para o passado como para o futuro. Não se trata de nostalgia, até porque ninguém aqui viveu os últimos dias dos dinossauros. Mas chorar pelo seu fim só parece fazer remoto sentido quando o luto se torna seguro, performático e catártico.

O luto pelos dinossauros é seguro porque o seu fim já aconteceu faz tempo e nós sabemos o que veio depois. Esse não é um luto que carrega consigo a sombra ameaçadora do imponderável. Ele ainda é auxiliado pela existência de narrativas, contadas em livros, filmes e séries, que ajudam a dar significado aos acontecimentos.

Esse conforto lembra o que podcasts dedicados a civilizações antigas (e a seus colapsos) fizeram durante a pandemia. O que esses conteúdos ofereciam era a forma narrativa que o presente recusava: começo, meio e fim. Tudo embrulhado dentro de uma explicação coerente.

O luto é também performático porque é exercido de maneira coletiva nas redes sociais: virou uma trend. Se dizer triste pelo fim dos dinossauros equivale a fazer a coreografia do momento ou publicar o meme da ocasião. Todos buscando "hitar" com o seu conteúdo, para assim "farmar aura" e fazer parte do grupo.

Se considerarmos, por outro lado, que o sentimento é genuíno para quem saiu postando seus lamentos jurássicos, fica a pergunta sobre qual seria a razão da tristeza. Aqui entra em cena o componente catártico desse luto: choramos pelo T-Rex ou por nós mesmos?

Saber por quem dobram os sinos nas redes sociais pode dizer mais sobre o futuro do que sobre o passado. O filósofo italiano Franco "Bifo" Berardi passou décadas tentando explicar a visão da humanidade sobre o porvir em tempos cada vez mais digitais. No livro , ele descreve a geração contemporânea como a primeira que não consegue imaginar o futuro como promessa. As gerações anteriores discordavam sobre que futuro construir: capitalismo ou socialismo, modernidade ou tradição. A geração atual, ao seu ver, simplesmente não acredita que haja futuro para construir - ou que ele valha o esforço.

Esse niilismo desemboca em muitos comportamentos problemáticos e abre a porta para visões de futuro assustadoras. A , empresa norte-americana de tecnologia e segurança, deu mais um empurrão nesse debate ao publicar recentemente um , de autoria do seu CEO, Alex Karp, e do diretor de assuntos corporativos, Nicholas Zamiska. Segundo o documento, o futuro é um projeto de poder tecnológico, vigilância estatal e supremacia digital. Karp trata os debates éticos sobre tecnologia militar como "teatrais" e as culturas que não acompanharem o ritmo como "disfuncionais e regressivas". É o futuro como imposição, não como promessa.

A cruel ironia é que esses dois universos - o dos jovens em luto pelos dinossauros e dos executivos de big tech traçando o futuro - convergem em um mesmo ponto: o mundo está em transformação, a velocidade dos fatos esmagou o presente e o futuro será tomado à força.

Quando Dua Lipa lançou o seu disco Future Nostalgia ("Nostalgia do Futuro"), em 2020, a cantora britânica que queria misturar o tom futurista da produção do álbum com a sonoridade de artistas como Blondie e Prince, que fizeram sucesso antes mesmo dela ter nascido.

Parece que estamos sempre resgatando um passado, ainda que ele não tenha sido o nosso, e buscando ressignificá-lo. Isso nos dá ferramentas para ler o presente e nos preparar para o que vem pela frente. O luto pelos dinossauros, nesse sentido, é um exercício mental sobre o fim que se mostra seguro, performático e catártico. Tudo ao mesmo tempo. Mas o que ele diz sobre o futuro?

Tem gente nas redes sociais que, fazendo um balanço do que a humanidade tem oferecido, acredita que "os dinossauros foram extintos por muito menos". Para esse time, a nostalgia do futuro é a saudade de um porvir mais otimista que foi cancelado pelo aquecimento global, pela ameaça da IA e a escalada dos conflitos regionais com impacto global.

Existe outra maneira de entender a nostalgia do futuro. Talvez o luto pelos dinossauros diga menos sobre o passado do que sobre o que estar por vir: é mais fácil chorar por um fim que já tem explicação do que enfrentar os que ainda não têm. A era da IA vai substituir a era atômica, como quer o manifesto da Palantir? A pergunta já é uma forma de se colocar no futuro.

A nostalgia do futuro pode ser uma curiosa vontade de conhecer logo o que ainda não aconteceu - e termos uma história, quiçá boa, para contar. Esse sentimento, como Neymar, enquanto espera disputar mais uma Copa, é a "saudade do que a gente não viveu ainda."

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL