Lula usa ONU para reafirmar críticas aos EUA e “ingerência externa” em eleições

22 de Set de 2026 - 11:45
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Lula usa ONU para reafirmar críticas aos EUA e “ingerência externa” em eleições

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva(PT) utilizou a tribuna da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22), para reafirmar as frequentes críticas ao seu homólogo norte-americano Donald Trump em relação à política externa e para defender o que considera como soberania nacional.

As críticas, sem citar diretamente Trump ou os Estados Unidos, foram feitas durante o discurso de abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em que o Brasil tradicionalmente inicia os debates. Logo após Lula, o presidente norte-americano também discursa por ser o país sede do órgão.

"Somos chamados a optar pelo multilateralismo ou unilateralismo, soberania ou subordinação", disse Lula em um dos trechos do discurso. O petista vem, desde o ano passado, acusando os Estados Unidos de impor uma política de parcerias unilaterais com a ameaça de sobretaxas sobre países que não fecham acordos.

Em outro momento, afirmou que o atual secretário-geral da ONU, António Guterres, foi "testemunha direta dos crescentes desmandos da super potência" e, ainda, que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém".

Citando países como Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba, Lula afirmou que o mundo sofre de "ingerência externa" em eleições; criticou o andamento de guerras pelo mundo que, na visão dele, podem levar a uma escalada global; e que o Brasil está ciente das dificuldades que têm no combate ao crime organizado.

Afirmou que entregou uma proposta de cooperação com Trump para a luta contra o tráfico de drogas, como uma resposta às recentes investidas dos Estados Unidos em afirmar que o Brasil falha em combater facções criminosascomo o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

"Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei", pontuou.

Ainda durante o discurso, Lula defendeu a regulação das "big techs" e da inteligência artificial, criticou o desenvolvimento da tecnologia supostamente sem ética, citou a exploração das terras raras em território nacional e ressaltou a "soberania" do PIX, o sistema de pagamentos brasileiro que foi apontado como concorrência desleal aos norte-americanos.

Em relação às guerras atualmente em andamento no mundo, Lula defendeu a paz entre Israel e Palestina e acusou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de promover um genocídio em Gaza. O petista, porém, chamou o classificou o grupo Hamas como terrorista, algo que, no começo do conflito, evitou fazer publicamente.

"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", pontuou o petista.

Eleições decisivas pela "democracia", diz Lula

Ainda durante o discurso, em que também falou de seus feitos no governo, Lula classificou a eleição presidencial de outubro como uma decisão "entre democracia e negacionismo" e "avançar rumo ao futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão".

"Não permitiremos que os inimigos da democracia internos e externos atentem contra a vontade popular. A democracia pertence aos brasileiros, o Brasil continuará sendo um país soberano e ninguém nos afastará desse caminho", disparou defendendo o sistema eleitoral brasileiro.

O petista costuma criticar seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de se aliar a Trump e aos interesses dos Estados Unidos.

Lula volta ao Brasil no começo da tarde para retomar a campanha eleitoral na quarta-feira (23). A comitiva presidencial deste ano é composta por 73 pessoas entre ministros e auxiliares e a primeira-dama Janja da Silva, que o acompanhou na ONU.

Críticas à ONU

Seguindo com um discurso semelhante ao adotado em outros fóruns internacionais, Lula voltou a criticar duramente a ONU e seu Conselho de Segurança por não cumprirem com seu papel de barrar o andamento de guerras pelo mundo, afirmando que há um sentimento de "indignação".

"A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa", afirmou.

Para ele, o Brasil já havia alertado, em 1946, para o risco de que o "direito de veto" dos membros fixos do Conselho (Estados Unidos, China, França, Reino Unido e Rússia) poderia gerar para o mundo. Lula disparou que esse "vício de origem" levou a um "pecado de origem" que permitiu aos países o que chamou de "privilégio da insensatez".

Desde que chegou a Nova York no domingo (20), Lula tem se encontrado com lideranças de esquerda dos Estados Unidos para discutir ações de Trump em relação a outros países – que o petista diz que age como um “imperador do mundo” – e defender ações como a reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Havia a expectativa de um encontro reservado com Trump, o que não ocorreu, de acordo com informações preliminares. No ano passado, os dois presidentes se esbarraram nos bastidores do evento e tiveram uma "química", segundo disse o norte-americano.

Encontro com esquerdistas

Na segunda-feira (21), Lula teve reuniões com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com o senador Bernie Sanders e com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. As conversas giraram em torno de críticas a Trump, mudanças climáticas e a defesa da soberania dos países.

No mesmo dia, em entrevista à CNN Internacional, Lula afirmou que já pediu a Trump para não interferir nas eleições brasileiras de outubro e classificou o tarifaço imposto pelo governo do país norte-americano como “mentiras”. Ele também voltou a citar a possibilidade de aplicar a Lei da Reciprocidade caso as negociações para reduzir as sobretaxas não levem a um resultado satisfatório.

O presidente brasileiro também criticou a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela que levou à prisão o ditador Nicolás Maduro, no começo do ano, chamando o ato de “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. Para ele, as ações do país norte-americano “não são boas para a democracia”.