Ibovespa passa dos 200 mil pontos; Bolsa ainda pode subir mais?
O Ibovespa superou, hoje, pela primeira vez os 200 mil pontos, impulsionado pela reação do mercado ao resultado do primeiro turno das eleições. Depois da disparada, a dúvida é: ainda há espaço para a Bolsa subir?
As primeiras análises de bancos apontam que sim, mas com uma condição importante. A continuidade da alta depende do resultado do segundo turno e, principalmente, das medidas econômicas que serão adotadas pelo próximo governo.
O que pode fazer a Bolsa subir mais?
O mercado reagiu à liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno. O desempenho de candidatos de direita nas eleições para o Congresso também reforçou a expectativa dos investidores de uma possível mudança na política econômica a partir de 2027.
Uma política fiscal considerada mais restritiva poderia reduzir o risco atribuído ao Brasil. Na prática, isso tende a diminuir os juros de longo prazo, reduzir o custo de financiamento das empresas e aumentar o valor que investidores estão dispostos a pagar pelas ações.
Uma vitória de um governo mais favorável ao mercado aumentaria nossa convicção nessa visão construtiva, sustentando prêmios de risco menores, juros de longo prazo mais baixos e um ambiente mais forte para as ações brasileiras Citi
O BTG Pactual também vê a questão fiscal como determinante. Para os analistas Carlos Sequeira, Osni Carfi e Bruno Ferreira, uma eventual vitória de Flávio aumentaria a expectativa de medidas para enfrentar o desequilíbrio das contas públicas. "Se Flávio Bolsonaro for eleito, os participantes do mercado esperariam medidas mais decisivas para enfrentar os urgentes desequilíbrios fiscais do país, desencadeando uma alta dos mercados", afirmam.
Quanto a Bolsa ainda poderia subir?
Um exercício do BTG indica espaço para valorização das ações brasileiras. Excluindo Petrobras e Vale, as empresas eram negociadas a cerca de dez vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses.
Se essa relação voltar à média dos últimos dez anos, de 11,1 vezes, o potencial de valorização seria de aproximadamente 11%. Um retorno à média histórica mais longa, de 11,9 vezes, corresponderia a cerca de 20%.
Em cenários mais otimistas, o potencial calculado pelo BTG chega de 32% a 45%. Esses casos pressupõem que investidores aceitem pagar pelas ações múltiplos superiores às médias históricas. "Em nossa visão, as ações brasileiras poderiam voltar rapidamente à sua média histórica", dizem os analistas.
Isso não significa que o Ibovespa vá subir mais 11%, 20% ou 45% a partir dos 200 mil pontos. Os percentuais são exercícios feitos com os preços e as estimativas de lucro considerados pelo BTG no momento do relatório. Conforme as ações se valorizam, parte desse potencial é consumida. Mudanças nas projeções de lucro também alteram as contas.
O Ibovespa pode cair depois da disparada?
Sim. Uma alta forte não acontece necessariamente em linha reta. Investidores podem aproveitar a valorização para realizar lucros, enquanto novas pesquisas eleitorais ou propostas dos candidatos podem mudar as expectativas para o segundo turno.
O próprio Citi deu um exemplo desse movimento no mercado de juros nesta segunda. Depois da queda das taxas, o banco encerrou metade de uma operação que se beneficiava do recuo dos juros brasileiros após atingir seu primeiro objetivo.
Embora uma realização de lucros após o movimento inicial de queda das taxas de hoje não fosse surpreendente, continuamos a ver espaço para continuidade Citi
O Citi manteve a outra metade da posição. Segundo o banco, investidores já estavam posicionados de forma favorável ao Brasil antes da eleição, mas essas posições ainda eram relativamente pequenas, o que poderia abrir espaço para novas compras. Embora a análise seja sobre juros, a lógica também vale para a Bolsa: investidores podem realizar parte dos ganhos depois de uma disparada sem necessariamente abandonar a expectativa de valorização no médio prazo.
Segundo turno pode mudar tudo?
As próximas pesquisas devem voltar a mexer com os mercados. Até o segundo turno, marcado para 25 de outubro, investidores acompanharão a transferência de votos dos candidatos eliminados, os apoios políticos, os debates e as propostas econômicas de Lula e Flávio.
Thomas Haugaard, gestor da Janus Henderson, ressalta que o resultado ainda está em aberto. "No entanto, a eleição ainda não está decidida", afirma. "As principais variáveis serão as primeiras pesquisas para o segundo turno, os apoios a candidatos, os índices de rejeição, o desempenho nos debates, a participação eleitoral e a mobilização dos 21,1% que se abstiveram no primeiro turno."
Mudanças na percepção sobre a disputa podem provocar novas oscilações. Se investidores passarem a enxergar maior ou menor probabilidade de determinado cenário econômico, podem rever suas posições em Bolsa, dólar e juros.
Mercado vai cobrar medidas concretas
A eleição, sozinha, não garante a continuidade da alta. Para Haugaard, ainda há pouca clareza sobre como os candidatos pretendem ajustar as contas públicas e quais medidas teriam condições políticas de passar pelo Congresso. "As propostas fiscais detalhadas continuam limitadas, e nenhuma das campanhas forneceu, até o momento, clareza suficiente sobre o ritmo, a composição ou a implementação política do ajuste", afirma.
A credibilidade fiscal continuará sendo a principal variável para os mercados no médio prazo, segundo o gestor. Depois da reação ao resultado das urnas, investidores devem passar a cobrar propostas e, posteriormente, medidas concretas. "O mercado exigirá, em última instância, a execução das políticas, e não apenas sinais eleitorais", afirma Haugaard.