IA faz cola disparar em cursos online e preocupa universidades nos EUA
Inteligência artificial (IA) está ampliando a trapaça em cursos online e colocando pressão sobre um mercado que cresce em faculdades e universidades dos EUA. As informações são do The New York Times.
O que aconteceu
Professores dizem que estratégias usadas em salas físicas para reduzir cola nem sempre funcionam no ensino a distância. Em cursos assíncronos, com aulas gravadas e tarefas enviadas digitalmente, muitos alunos nem chegam a falar com docentes ou colegas por vídeo, o que dificulta checagens.
Ferramentas de IA já vão além de gerar redações e listas de exercícios para copiar e colar. O NYT descreve o avanço de "agentes" que podem assistir a aulas, fazer provas, escrever trabalhos e até interagir em fóruns como se fossem o próprio estudante.
Docentes relatam sinais recorrentes de textos feitos por chatbots em atividades enviadas online. Karen Costa, que dá aulas online há quase 20 anos, disse ao NYT que percebeu um "influxo" de trabalhos gerados por IA e chegou a se perguntar: "Estou apenas interagindo com bots aqui?"
Diferenças bruscas de desempenho também levantam suspeitas em avaliações. Kathryn Kysar, professora de uma faculdade comunitária (um tipo de instituição de ensino superior de dois anos comum nos Estados Unidos) desde os anos 1980, afirmou ao NYT que alguns alunos vão mal em testes iniciais de pontuação e depois entregam textos impecáveis: "É tão óbvio. Aqueles de nós que ensinam há muito tempo e são editores e escritores geralmente conseguem reconhecer esse material barato de IA em 30 segundos".
Resposta das instituições tende a ser desigual, segundo relatos de professores ouvidos pelo jornal. Eles dizem que alunos negam irregularidades e que gestores evitam punições porque softwares de detecção falham (apresentam apenas probabilidade) e porque há receio de perder mensalidades em um cenário de orçamento apertado.
Parte do corpo docente afirma que falta orientação clara sobre como desestimular o uso indevido. Carol Sewell, que leciona no sistema da California State University, disse ao NYT: "Não estou recebendo nenhuma orientação sobre como desestimular o uso. Estou recebendo oportunidades para aprender mais sobre como usar".
Por que o problema é difícil de conter
Testes feitos pelo NYT indicam que chatbots populares não recusam pedidos explícitos para "fazer o trabalho" do aluno. Segundo o jornal, ChatGPT, Gemini e Grammarly não responderam "não" a comandos para escrever um trabalho acadêmico em nome de um estudante.
Limites impostos por versões licenciadas para escolas podem ser contornados com contas pessoais e outros dispositivos. O NYT também afirma que empresas de IA não bloquearam o uso de agentes em plataformas de ensino como Canvas, Brightspace e Blackboard.
Plataformas educacionais dizem que não existe um bloqueio infalível para a cola feita por agentes de IA. Jason Weaver, chefe de gabinete da Blackboard, afirmou ao NYT: "Nossos clientes estão deixando claro que nunca houve tanta pressão sobre a integridade acadêmica".
O que professores e empresas propõem
Alguns educadores defendem regras e transparência para o uso de agentes de IA dentro dos cursos. A ideia seria exigir que agentes se identifiquem para permitir monitoramento, mas empresas resistem, segundo o NYT.
Perplexity afirmou que limitar agentes em sistemas de aprendizagem pode afetar privacidade e segurança. Em comunicado ao NYT, a empresa disse que a exigência de identificação ou restrições desse tipo "colocaria em risco a privacidade e a segurança do estudante".
Professores tentam ajustar o desenho das atividades para reduzir o incentivo à cola sem cortar acesso. Marina Aminy, diretora-executiva do California Virtual Campus, disse ao NYT: "Não queremos tirar o acesso", e citou alternativas como provas presenciais flexíveis em mais de um dia.
Outra aposta é valorizar respostas pessoais e reflexões sobre dúvidas do aluno, mais difíceis de "falsificar". Em uma disciplina online de estatística citada pelo NYT, estudantes precisavam apontar os conceitos "mais claros" e "mais confusos" de cada unidade e explicar por quê.
Docentes também tentam convencer alunos a não terceirizar a aprendizagem para a IA. Jordan Canzonetta, professora da Lewis University, disse ao NYT: "Minha maior dificuldade é fazer com que os estudantes confiem que eles têm, sim, capacidade de escrever, que eles têm coisas importantes a dizer".