Ellison herda CNN e opera TikTok, mas Trump barra repórteres na Casa Branca

23 de Set de 2026 - 06:30
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Ellison herda CNN e opera TikTok, mas Trump barra repórteres na Casa Branca

David Ellison assume a fusão da WBD/Paramount em meio a um furacão provocado pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Ellison já é um dos mais poderosos executivos norte-americanos, que opera em diversas frentes. É fundador da Skydance, dirigente da Paramount e representante de uma família com controle votante da companhia e comprador em uma disputa pela Warner Bros. Discovery. A Oracle, fundada por seu pai, Larry Ellison, é a empresa que ficou designada a operar os dados do TikTok nos Estados Unidos.

No último dia 21 de setembro, três coisas aconteceram ao mesmo tempo. A CNN, a MS NOW e o Politico processaram o governo Trump no tribunal federal do Distrito de Columbia, depois que repórteres dos três veículos tiveram credenciais desativadas e foram barrados nos portões da Casa Branca no sábado (19/09). O dono do grupo de confiança de Trump para operar a plataforma chinesa TikTok passou a ter seus jornalistas banidos da Casa Branca.

Fox News, ABC News, CBS News, NBC News e a própria CNN suspenderam a cobertura do pool de TV do presidente, com uma declaração conjunta de duas frases: "O público tem interesse vital em receber informação precisa e independente sobre o seu governo. Nenhuma administração deve restringir uma organização jornalística por discordar do que ela noticia".

E a Paramount Skydance fechou acordo com 12 procuradores-gerais estaduais, apresentou um acordo, que ainda depende de homologação, que encerra a ação antitruste dos estados contra a compra da Warner Bros. Discovery.

O gatilho do banimento foi um post de Trump no Truth Social na sexta-feira (18/9), em que ele acusou os veículos de publicar "FICÇÃO e MENTIRAS" e disse que a cobertura era "uma ameaça à nossa Segurança Nacional". Perguntado no mesmo dia se aquilo era intimidação da imprensa, respondeu: "Não, não, não, não. Eu não gosto de imprensa desonesta, como você."

No sábado, o crachá de Akayla Gardner, da MS NOW, foi desativado; Betsy Klein, da CNN, foi parada pelo Serviço Secreto; Cheyenne Haslett, do Politico, não entrou. Jacqui Heinrich, presidente da Associação de Correspondentes da Casa Branca, classificou a recusa de acesso como inconstitucional e exigiu a restauração imediata das credenciais.

Durante nove meses, a discussão sobre a CNN teve um único eixo: se David Ellison interferiria na cobertura depois de assumir o controle. Em março, ele disse à Variety que "a independência editorial será absolutamente mantida. Ela é mantida na CBS. Será mantida na CNN". Em agosto, publicou um artigo de opinião no New York Times na mesma linha, afirmando votar em candidatos dos dois partidos e prometendo não subordinar redações a posições políticas.

Desde sábado, a pergunta passou a ser outra. Ellison está prestes a comprar uma redação cujos repórteres o governo federal já impediu de trabalhar. Uma coalizão de mais de cem jornalistas, acadêmicos e organizações fez essa conta em público no mesmo dia. Assinaram uma carta cobrando de Ellison duas coisas concretas: condenar publicamente o banimento e se comprometer a bancar juridicamente a ação da CNN caso a compra se conclua.

A carta é direta: "Este momento é um teste da sua sinceridade." E: "Se Ellison realmente acredita em jornalismo independente, como afirmou recentemente em artigo no The New York Times, ele deveria estar indignado com o fato de Trump ter banido da Casa Branca os jornalistas que ele pretende empregar." A CBS News, que já pertence a Ellison, assinou a declaração conjunta das redes e suspendeu a cobertura do pool.

O Conselho de Independência Editorial tem desenho detalhado. Cinco jornalistas, ativos ou aposentados, cada um com no mínimo dez anos de exercício e credenciais por pelo menos três. No máximo dois filiados ao mesmo partido. Nenhum integrante de governo, nenhum diretor, acionista, executivo, empregado não jornalista ou contratado da companhia. Criação em até 180 dias depois do fechamento. Mandato esperado de três anos. Remoção apenas por justa causa, definida no texto como "razões justas e honestas, pautadas pela boa-fé do empregador, que não sejam triviais, arbitrárias ou caprichosas".

O conselho estabelece princípios editoriais, resolve disputas sobre violação desses princípios, avalia viés e acompanha a independência jornalística. Competência real, escrita com cuidado.

Porém, três pontos do mesmo documento reduzem o alcance dela. O primeiro: "Os membros do Conselho de Independência Editorial serão nomeados pelo Conselho de Administração da Entidade Combinada." Quem nomeia os cinco é o conselho de administração da empresa controlada pela família Ellison.

O segundo: "O Conselho de Independência Editorial se reportará ao Conselho de Administração da Entidade Combinada por meio do Diretor de Compliance da Entidade Combinada." A linha de reporte passa pela estrutura interna de compliance da companhia auditada.

O terceiro: "O Monitor não terá função nem autoridade relacionada às operações jornalísticas da Entidade Combinada." O monitor externo, que é o mecanismo de fiscalização independente de todo o resto do acordo, está expressamente proibido de entrar na parte jornalística. No acordo, Colorado e Washington não aderiram ao conselho.

As obrigações podem ser cobradas em juízo pelos estados participantes, mas o decreto não fixa multa específica para interferência editorial, o que depende da capacidade real de execução dessas regras.

Joshua Benton, do Nieman Lab, criticou Ellison e recorreu a dois casos que aconteceram com Rupert Murdoch. Em 1981, na compra do Times e do Sunday Times, diretores nacionais independentes deveriam aprovar contratação e demissão de editores.

Harold Evans, editor por um ano, disse depois que "Murdoch quebrou todas essas garantias" e que elas "não valem o papel em que foram escritas". Em 2007, na compra da Dow Jones, um comitê especial tinha competência sobre mudanças na chefia do The Wall Street Journal.

Murdoch promoveu Robert Thomson a publisher acima de Marcus Brauchli, que saiu em quatro meses por um caminho que dispensava o rito do comitê. O próprio comitê reconheceu depois que saber do caso "depois de consumado não atendeu à letra nem ao espírito" do acordo.

Os precedentes de Murdoch não provam que Ellison fará o mesmo, mas mostram que salvaguarda editorial sem sanção própria e sem fiscal externo depende da boa vontade de quem nomeia os fiscais.

Para descumprimento de meta de filmes, o acordo fixa US$ 30 milhões por filme faltante e venda da Miramax se o déficit persistir após seis meses de correção. Cinema tem preço. Redação, não.

Ellison disse a funcionários esperar concluir a operação em cerca de duas semanas, segundo a Adweek. O decreto ainda depende de homologação judicial. Se a CNN continuar fora da Casa Branca depois do fechamento do acordo, o conselho editorial recém-criado não terá competência sobre o assunto. A carta da coalizão pediu compromisso de financiamento da ação judicial exatamente porque essa despesa, ao contrário da cobertura, depende do dono.

A FCC (Federal Communications Commission, a agência federal norte-americana de telecomunicações) autorizou o financiamento da fusão por meio de venda de participações econômicas a fundos soberanos da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos e do Catar, US$ 24 bilhões por 38,5% da participação econômica sem voto nem assento, segundo a Paramount.

Quando um veículo perde acesso físico à Casa Branca, a cobertura da presidência não desaparece, mas quem tem credencial produz, e quem não tem, reproduz.

O pool de TV existe justamente para distribuir imagem e relato produzidos por um para todos. Ao suspender a cobertura do pool em solidariedade, as cinco redes tornaram visível a dependência da cobertura audiovisual do presidente.

A operação sobre a fusão WBD/Paramount já passou pelo Cade, que aprovou a aquisição sem restrições em 8 de julho, com encerramento registrado em 29 de julho. Warner e Paramount somaram 42,2% da bilheteria brasileira em 2025, conta que inclui filmes da Universal distribuídos pela Warner.

Os compromissos de produção do decreto são de produção norte-americana e não criam obrigação equivalente aqui. A consolidação de Paramount+ e HBO Max sob o mesmo dono muda janela, licenciamento, preço de catálogo e negociação com operadores locais.

Reportagem

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