Ele deixou o supertime de IA de Zuckerberg: 'Meta não era o lugar certo'
O para integrar o , incumbido por Mark Zuckerberg em pessoa de .
Com passagem pela Google Deepmind, área responsável pelo avanço que culminou na IA generativa e por serviços fundamentais para o Google, e Microsoft, onde aconselhava o CEO Satya Nadella, o executivo tinha trajetória estelar que o gabaritou a ser peça fundamental da dona de Instagram, WhatsApp e Facebook na luta para recuperar o .
Até que, em fevereiro deste ano, ele resolveu sair, pouco menos de sete meses após ingressar na companhia.
Nesta entrevista a Radar Big Tech, Velloso conta por que decidiu deixar essa promessa para trás e saiu da Meta. Também analisa o estágio do Brasil na disputa por um lugar relevante na disputa global da tecnologia. Para ele, o debate sobre o da é justo, mas, se pender para a restrição ou proibição completa, tende a catapultar o Brasil para o passado, dada a velocidade com que outras nações avançam.
Se eu falo assim, 'Não vai ter mais data center porque ninguém consegue resolver esse problema', o que que vai acontecer? EUA, China e outros países vão evoluir 100 anos em cinco, e a gente vai voltar para 1500, quando os europeus chegaram e a gente estava despreparado.
Se classifica a e vê como tímidas tentativas de impulsionar (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial) ou regular (regras do TSE para IA e PL da IA) a tecnologia, é a política —e seus desdobramentos para a ausência de planos de longo prazo— que Velloso considera o ponto fraco do Brasil em momentos decisivos como o surgimento de uma tecnologia transformadora como a IA.
Radar Big Tech: O que motivou sua saída repentina do time de Superinteligência da Meta após apenas sete meses?
Matt Velloso: A Meta me tratou muito bem, com muito respeito, não tenho nada a reclamar nesse sentido. Mas, com o passar dos meses lá, foi ficando incrivelmente óbvio para mim: não era meu lugar nem meu tempo. Comecei a ver o que está acontecendo no mundo com a IA e como ela está evoluindo muito rápido, de forma exponencial. Senti que as empresas e o próprio Brasil não estão preparados, e a Meta não era o lugar certo para eu influenciar as coisas da forma necessária. Então, tomei uma decisão que me custou muito caro. Pedi permissão para a minha esposa, avisei que faria algo que custaria caro para a nossa família e saí da Meta sem plano nenhum.
Radar Big Tech: E você consegue pensar em outra coisa que não seja IA?
Matt Velloso: Eu não tenho formação em inteligência artificial, não sou cientista de IA nem tento ser. A minha vida inteira eu trabalhei com programadores. Sempre gostei da área por ela gerar valor para o mundo: cria oportunidades, empregos, negócios e salva vidas. Minha carreira só aconteceu porque aprendi a programar. Com a IA, fico meio assustado. A conversa se inverteu. Só falam que a IA vai acabar com os empregos. E eu quero o oposto disso. Fico preocupado sobre como faremos acontecer daqui para frente.
Radar Big Tech: Considerando ferramentas, infraestrutura e mão de obra, onde o Brasil se posiciona nessa corrida geopolítica?
Matt Velloso: Primeiro, temos que deixar claro que o Brasil tem profissionais espetaculares. Assim que pedi demissão da Meta, veio uma enxurrada de empresas brasileiras me procurando. Temos que acabar com esse complexo de vira-lata, o que não falta é gente competente.
O que me preocupa é que o Brasil não tem um plano. Os políticos não têm noção do que fazer. Olha o que a China está fazendo: construindo capacidade energética. Energia vai ser o equivalente à inteligência, porque, ao rodar esses modelos de IA, você resolve qualquer problema.
Tem que ter um plano muito agressivo para criar essa capacidade energética, senão as outras coisas não acontecem. Que adianta treinar profissionais se não tem onde a pessoa usar a tecnologia? Ela vai embora do país. O brasileiro tem uma criatividade louca. Os nossos sistemas bancários estão dez anos à frente dos Estados Unidos. É gente muito inteligente e capaz, mas que precisa de um plano.
Radar Big Tech: Nós temos discussões regulatórias no Congresso Nacional e um Plano Brasileiro de Inteligência Artificial em andamento. Isso não ajuda?
Matt Velloso: Não, nem de longe. E não quero desmerecer o trabalho de muita gente motivada que está trabalhando duro nisso. Já conversei com políticos e pessoas que os assessoram, mas a regulamentação tanto pode ajudar quanto atrapalhar. Quando se define uma regulamentação, eu começo perguntando: quais são os dez maiores riscos que o Brasil corre? Tem isso escrito? A gente sabe? O pessoal está preocupado em monetizar modelos de IA, mas temos eleições logo ali na esquina. Tem alguma regulamentação que garanta que não haverá manipulação dos eleitores? Eu não estou vendo exatamente isso.
Olha o gráfico da capacidade energética da China comparado com os Estados Unidos. A gente está fazendo isso? Quando você tem energia, você senta à mesa e troca energia por GPU, troca energia por investimento. Eu vejo uma preocupação em criar um "modelo de IA nacional", mas o Brasil vai rodar esse modelo onde, se não tem energia? Infraestrutura é a fundação do prédio. Primeiro a base, depois as outras coisas. Para mim, o plano não está claro.
Radar Big Tech: Há nos EUA preocupação sobre a construção de data centers, devido ao . A capacidade por lá é da ordem de 55 GW e a nossa não não chega a 1 GW. Faz sentido restringir a instalação no Brasil com base no que acontece nos EUA?
Matt Velloso: Eu sou muito pragmático com as coisas. Não dá para simplesmente cruzar os braços e falar: "Eu não aceito isso, porque vai causar dano ao meio ambiente". A gente não consegue regular a evolução e impedi-la de acontecer. Se eu falo assim, "Não vai ter mais data center porque ninguém consegue resolver esse problema", o que que vai acontecer? EUA, China e outros países vão evoluir 100 anos em cinco, e a gente vai voltar para 1500, quando os europeus chegaram e a gente estava despreparado. Não é uma solução pragmática simplesmente não aceitar porque causa poluição. A solução é criar as duas variáveis, a do incentivo econômico, fiscal e à infraestrutura, e a que vem junto, sem impedir o que torna aquilo economicamente inviável. As duas coisas têm que andar juntas, senão não tem progresso, não tem nada, só tem gente reclamando e impedindo a coisa de acontecer.
Radar Big Tech: O Tribunal Superior Eleitoral tem criado regras para coibir o uso ilícito de IA nas eleições. Essas barreiras são suficientes?
Matt Velloso: É um começo, com certeza, e é melhor que nada. Mas eu voltei de Boston recentemente e ouvi empresários de marketing discutindo como vão usar a inteligência artificial para mapear cirurgicamente os eleitores indecisos. A eleição no Brasil, assim como nos EUA, vai se resumir a encontrar essa camada de eleitores indecisos e minerá-la cirurgicamente com IA. Vão atacar essas pessoas com informação direcionada para induzi-las. Se eu vou atrás da minoria indecisa e controlo a opinião dela, eu controlo a eleição de um país e, para mim, isso é vender voto. Bom que estão regulamentando, mas não é nem de longe o suficiente.
É só olhar o que aconteceu com a Cambridge Analytica. Foi exatamente isso, só que agora as armas são muito mais poderosas para fazer de novo. Está abaixo do radar porque o problema não é só se o ChatGPT pode ou não falar de política. Isso não resolve tudo. Mas, muito em breve, se a gente entrar em um tribunal com o vídeo de alguém matando uma pessoa, não haverá mais como provar se é verdade ou não. Como as autoridades vão decidir? Nós precisaremos de um sistema de reputação e assinatura digital. Se sair um vídeo na internet, precisaremos checar: foi assinado digitalmente por quem? Veio de um grande veículo de imprensa com reputação ou de uma pessoa aleatória? A reputação terá de ser usada como parte da decisão. Teremos que repensar o sistema de Justiça.
Radar Big Tech: As grandes plataformas têm feito esforços conjuntos para tentar identificar e rotular o conteúdo sintético. Esse caminho funciona?
Matt Velloso: Nem de muito longe. É bom o Google assinar digitalmente um vídeo gerado por IA e criar uma identificação. O criminoso, porém, não vai fazer isso, ele vai usar um modelo de IA que não tem trava [de segurança] nem marca d'água. As pessoas de bem obedecem à lei, os criminosos não. Não haverá um modelo de IA capaz de olhar para um vídeo e cravar com certeza se ele é digital ou real; será um jogo de gato e rato que nunca vamos ganhar. O único caminho lógico é a assinatura digital na origem para provar a procedência. Se um anônimo posta algo, já temos de olhar com desconfiança saudável.
Radar Big Tech: No Google, você participou do desenvolvimento do Gaia, um modelo treinado com dados brasileiros. Vale a pena o Brasil investir na criação de modelos fundacionais próprios de IA para competir globalmente?
Matt Velloso: O Gaia foi a última coisa que anunciei antes de sair do Google, e tenho orgulho disso até hoje. Existe espaço para iniciativas locais quando a pergunta é: que dados nós temos que os grandes laboratórios internacionais não têm? Muitas empresas brasileiras possuem acesso a informações e dados que são o novo petróleo, com um valor enorme. Há espaço. Mas eu acho que, agora, criar grandes modelos fundacionais para competir com OpenAI, Google ou DeepSeek não deve ser a prioridade do Brasil. Custa um absurdo de dinheiro e leva tempo, e teremos dificuldade de andar na velocidade deles. No final das contas, temos modelos open source [de código aberto] excelentes licenciados que podemos usar. Se temos recursos limitados e nos preocupamos com a soberania nacional, primeiro devemos construir a infraestrutura de energia e de data centers. Se fizermos a base, vão aparecer as oportunidades de treinar modelos locais ou de fazer trocas com laboratórios.
Radar Big Tech: Muitas startups nacionais vivem sob o risco de serem engolidas da noite para o dia por uma nova atualização da OpenAI ou da Anthropic. Como se proteger desse choque?
Matt Velloso: Logo que saí da Meta, passei três semanas criando uma startup sozinho, só para ver no que dava. Alguns investidores me ofereceram dinheiro e eu recusei, mas perguntei se eles não tinham medo de a Anthropic copiar a minha solução em poucos dias. Eles disseram: "Matt, todo mundo está nessa situação agora. Toda startup tem esse risco e essa é a nossa realidade agora. Se formos nos preocupar com isso, a gente não investe em mais nada". Essa é a realidade de todos. Mas há um detalhe: ainda que eu consigo usar ferramentas modernas para replicar a estrutura do Instagram em duas horas, não significa que os usuários virão. O segredo está na capacidade de distribuição e em ter dados que ninguém mais tem. Além disso, os grandes laboratórios não podem atacar tudo, já que têm problemas gigantescos para resolver. Há muito espaço para criar soluções e estabelecer negócios viáveis. O momento é preocupante, mas nunca houve época melhor na história para criar uma empresa. Um sujeito sozinho consegue fazer milagres com IA.
Radar Big Tech: Diante do avanço da IA, qual é o senso de urgência para o ecossistema brasileiro? Quanto tempo ainda temos?
Matt Velloso: O tempo para o Brasil se preparar vai acabar rápido. Não vou dar uma data, mas o meu senso de urgência mostra que o tempo está acabando mesmo. Veja o nível em que os modelos globais estão chegando: a Anthropic desenvolveu um sistema tão poderoso para quebrar a segurança que ela não o lançou publicamente. Ela está tratando o modelo com cuidado, indo atrás dos governos para testarem seus sistemas e fecharem buracos antes de o modelo ser liberado. Se fosse um laboratório irresponsável ou com más intenções, imagine o estrago. O Brasil está preparado para isso? Não está. Não tenho esperança de que os políticos brasileiros saibam o que fazer. Minha esperança está nos empresários com quem converso. Eles estão preocupados, sabem que afetará suas empresas. E eles se perguntam como podem ajudar e o que fazer para influenciar o país a se estruturar.
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