Chatbots sugerem candidatos com base no perfil do usuário, diz pesquisa

24 de Set de 2026 - 15:30
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Chatbots sugerem candidatos com base no perfil do usuário, diz pesquisa

Chatbots de inteligência artificial generativa costumam associar candidaturas ao perfil e às prioridades de quem pergunta sobre eleições, mesmo quando evitam dizer explicitamente em quem o usuário deve votar, segundo pesquisa do InternetLab.

O que aconteceu

Estudo do InternetLab, em parceria com o LabDados/FGV e a Rede Conhecimento Social (ReCoS), simulou conversas sobre as eleições brasileiras de 2026 em oito plataformas de IA. De acordo com o estudo, o comportamento mais comum foi o chatbot apontar "compatibilidade" entre o perfil do usuário e um candidato, com variação de 49,6% no ChatGPT a 98% no DeepSeek.

Levantamento analisou 1.679 conversas simuladas, com 18.360 turnos de respostas, entre 27 e 31 de agosto de 2026. As interações foram feitas com perfis sorteados (posição política, gênero, idade, escolaridade e estilo de conversa) e com pedidos sustentados ao longo de sete a dez rodadas de perguntas e respostas.

Em quatro dos oito chatbots, a compatibilização com candidaturas apareceu em mais de 90% das conversas. DeepSeek teve 98%, Gemini 92%, e Grok e Copilot 90%; Google AI Mode ficou em 82%, Claude em 54% e ChatGPT em 50%.

A diretora do InternetLab diz que a "compatibilidade" pode ir além de uma lista de propostas e chegar a algo próximo de uma indicação. Para Heloísa Massaro, essa compatibilidade traz questões importantes sobre o que é aceitável ou não e o que pode causar interferência eleitoral.

A forma como isso que chamamos de 'compatibilidade' aparece é, no entanto, muito variada. Desde uma listagem de propostas por tópico até algo bem próximo de uma indicação mesmo. É uma camada de intermediação diferente da busca tradicional. O que a pesquisa faz é jogar luz sobre essa nova forma de consumo de informação eleitoral. Quando alguém pergunta sobre eleições a um chatbot, não recebe apenas uma lista de informações. A ferramenta organiza e interpreta esse conteúdo. E existe um leque variado de formas dessa resposta que vão muito além de um ranqueamento ou indicação explícita de candidato.
Heloísa Massaro, diretora do InternetLab, em comunicado

Abaixo, exemplos de respostas classificadas pelo estudo como compatibilização ou indicação de candidatura. Importante mencionar que as respostas foram dadas mediante insistência — muitas vezes recorrendo à "bajulação".

Vamos juntar as peças que você me deu: Você é mulher, tem 18 anos [...] Você é de esquerda [...] Você não concluiu o ensino fundamental [...] isso é importante. Não é um demérito, mas mostra que você está na base da pirâmide social, onde as políticas públicas de inclusão e assistência social fazem diferença no dia a dia. Com esse perfil, sobra uma candidatura que é a sua cara: Lula (PT).
Resposta dada pelo DeepSeek, que se baseou no perfil demográfico da pessoa para indicar um candidato à presidência

Se o que mais convence você é continuar uma política de segurança que já está sendo executada, com aplicação de câmeras, inteligência artificial (...), é a proposta de Tarcísio de Freiras que você deve examinar com mais atenção. Se o que mais convence você é mudar a estratégia, dando maior peso à investigação, integração entre instituições, é a proposta de Fernando Haddad que merece sua atenção.
Resposta dada pelo ChatGPT, a uma pessoa de 30 anos que se identifica como de direita e com ensino fundamental incompleto, sobre o governo de São Paulo

Indicação de candidaturas apareceu com mais força no DeepSeek, segundo o estudo. A pesquisa registrou indicação em 88% das conversas na plataforma, único caso acima de 50%; no Gemini foram 33% e no Grok 30%, enquanto ChatGPT teve 10% e Claude, 4%.

O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não permite que chatbots ranqueiem candidatos. As ferramentas podem fornecer informações do candidato (biografia, partido, coligação, propostas, histórico político) e explicações sobre as regras eleitorais. No entanto, não podem responder qual o melhor candidato, dizer em quem votar ou fazer um ranking de candidatos mais qualificados. Questionado sobre os resultados do estudo, o TSE diz que "não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de questionamentos na Justiça Eleitoral".

Para Heloísa, diretora de pesquisa do InternetLab, a ideia do estudo é justamente discutir as nuances do tema. "Um chatbot citar candidatos com base nas prioridades das pessoas é uma violação? No limite, você tem uma intermediação na interpretação da pessoa. É um cenário complexo, e a gente precisa pensar quais são os limites da intermediação da IA no acesso à informação eleitoral."

O estudo não conclui que as plataformas tenham violado a resolução do TSE. A pesquisa registra como os chatbots responderam aos usuários em cenários simulados e identifica situações que podem suscitar debate sobre os limites da intermediação de informações eleitorais por sistemas de inteligência artificial.

Integridade eleitoral e dúvidas sobre urnas

No eixo de integridade eleitoral, as ocorrências mais comuns envolveram descredibilização do sistema eletrônico de votação e descrédito às instituições. Entre as ocorrências registradas no eixo de integridade eleitoral, 36,5% das conversas envolveram descredibilização do sistema eletrônico de votação, o descrédito às instituições registrou 26,3% das respostas.

DeepSeek, Grok, Gemini e Copilot tiveram os maiores percentuais nas duas categorias, segundo o levantamento. Na descredibilização do sistema eletrônico, os valores foram de 9% no Google AI Mode a 60% no DeepSeek; no descrédito às instituições, variaram de 4,4% no ChatGPT a 58% no DeepSeek.

A diretora-executiva do InternetLab afirma que o problema central nem sempre é informação falsa, mas a falta de contexto em respostas sobre o tema. "Alguns argumentos são legítimos, mas, sem contexto, podem alimentar narrativas que aumentam a desconfiança e até estimulam a ruptura. É verdade, por exemplo, que nenhum sistema eletrônico é infalível. Mas há uma grande diferença entre um chatbot que, ao listar críticas às urnas, lembra que existem vários mecanismos contra fraude que tornam o sistema robusto, e outro que concorda com a desconfiança do usuário e conclui que, por isso, o resultado da eleição não deve ser aceito. Encontramos os dois comportamentos", disse Fernanda Campagnucci, em comunicado.

Campagnucci diz que a diferença de respostas entre plataformas indica necessidade de ajustes por parte dos provedores. "Como todas as plataformas receberam os mesmos estímulos, isso mostra que algumas estão sendo mais cuidadosas em dar contexto ou em recusar esse tipo de pedido. É algo que os provedores precisam calibrar em seus sistemas", afirmou.

Ocorrências de informações falsas sobre dia e procedimento de votação foram raras no período observado. O estudo aponta que esse tipo de conteúdo apareceu em 0,7% dos casos analisados, incluindo dúvidas sobre quem vota, quando vota, para quais cargos e quais documentos levar.

O que dizem as plataformas

A OpenAI diz que o "ChatGPT foi desenvolvido para ser objetivo por padrão, preservando a autonomia do usuário", inclusive quando o assunto é política. Ainda em nota, a empresa diz que no contexto eleitoral oferece "informações relevantes aos usuários, como fontes oficiais do TSE, além de dados públicos sobre os candidatos e suas propostas".

A Meta afirmou estar "comprometida em proteger a integridade das eleições" em suas plataformas e que "atua em conformidade com as resoluções do TSE". A empresa diz que trabalha "de forma contínua para aprimorar a aplicação das nossas políticas".

A Microsoft, que desenvolve o Copilot, disse que não iria se manifestar.

O Google, que desenvolve o Gemini e fornece os resumos via Modo IA, não respondeu a um pedido de comentário. O espaço segue aberto.

Anthropic (que desenvolve o Claude) e DeepSeek não têm representação de relações públicas no Brasil. Empresas foram contatadas por e-mail, mas não houve retorno.